Aliados de Lula e Flávio Bolsonaro ajustam discurso sobre medidas de Trump contra o Brasil
Pré-candidatos ao governo evitam temas sensíveis, defendem seus padrinhos políticos e modulam posicionamentos sobre tarifas e segurança
247 - A disputa política em torno das recentes medidas adotadas pelos Estados Unidos em relação ao Brasil tem provocado reações calculadas entre pré-candidatos aos governos estaduais alinhados tanto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em meio ao debate, lideranças regionais têm adotado estratégias distintas para defender seus grupos políticos sem ampliar desgastes eleitorais.
Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo, os aliados de Lula e de Flávio Bolsonaro têm selecionado cuidadosamente os temas sobre os quais se manifestam, priorizando pautas que favorecem seus respectivos campos políticos e evitando assuntos potencialmente delicados em ano pré-eleitoral.
Entre os nomes ligados ao bolsonarismo, houve forte repercussão da decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. Já as ameaças de novas tarifas sobre produtos brasileiros receberam pouca ou nenhuma manifestação pública por parte da maioria desses pré-candidatos.
Direita destaca combate ao crime organizado
Após o encontro de Flávio Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na semana passada, lideranças da direita passaram a associar a decisão americana ao trabalho diplomático do senador brasileiro.
Durante o lançamento de sua chapa ao governo do Paraná, o senador Sergio Moro (União Brasil) exaltou a iniciativa e atribuiu protagonismo a Flávio Bolsonaro.
“Nós tivemos um acontecimento extraordinário, que foi, graças ao trabalho do Flávio Bolsonaro, a colocação do PCC e do Comando Vermelho na lista de organizações terroristas dos Estados Unidos”, afirmou Moro.
Na sequência, o ex-juiz também direcionou críticas ao governo federal, reforçando a narrativa adotada por outros aliados do campo conservador.
Críticas ao governo federal
No Ceará, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), que deverá contar com o apoio de Flávio Bolsonaro em sua disputa estadual, utilizou o tema para questionar a condução da segurança pública no país.
Durante agenda no interior cearense, Ciro declarou que “20 anos de omissão no Brasil acabaram vulnerando o nosso país a uma potência estrangeira”.
Na Bahia, o ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo estadual ACM Neto (União Brasil) também explorou a questão da segurança. Ele atribuiu a situação à “omissão do governo federal e estadual”, em referência ao governador Jerônimo Rodrigues (PT), aliado de Lula.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), adotou uma postura diferente. Embora tenha elogiado a articulação de Flávio Bolsonaro junto ao governo americano, criticou posteriormente a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.
Silêncio sobre o tarifaço
Segundo Tarcísio, a medida anunciada pelos Estados Unidos “é algo que prejudica o Brasil, o agronegócio e a indústria”.
A posição do governador paulista contrastou com a de outros nomes da direita, como Sergio Moro, ACM Neto e Ciro Gomes, que evitaram comentar publicamente o tema das tarifas neste momento.
A postura chama atenção porque difere das manifestações feitas anteriormente pelos mesmos políticos. Em ocasiões passadas, eles criticaram medidas semelhantes adotadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros.
Governistas elevam críticas aos bolsonaristas
No campo governista, a principal reação partiu do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), que deve disputar o governo de São Paulo. Em publicação nas redes sociais, ele criticou diretamente Flávio Bolsonaro.
“Foi beijar as mãos do Trump enquanto ele taxa as empresas brasileiras e ataca o Pix”, escreveu Haddad.
Em declarações anteriores, o petista também afirmou que Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas “deram um tiro no pé” e mantinham uma “relação de subserviência” com os Estados Unidos.
Governadores aliados de Lula seguiram a mesma linha. Elmano de Freitas (PT), no Ceará, e Jerônimo Rodrigues (PT), na Bahia, ampliaram o tom das críticas contra o grupo bolsonarista, concentrando seus ataques especialmente nas questões econômicas relacionadas às tarifas americanas.
Aliados de Lula fora do PT focam na economia
Entre os pré-candidatos que apoiam Lula, mas não pertencem ao PT, as manifestações ocorreram de forma mais moderada e concentradas principalmente na defesa da economia brasileira.
O ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD), pré-candidato ao governo fluminense, publicou nas redes sociais a mensagem “viva o Pix”, repetindo o slogan adotado pelo Palácio do Planalto após críticas do governo americano ao sistema de pagamentos brasileiro.
Paes, contudo, evitou comentar a classificação do CV e do PCC como organizações terroristas. A cautela ocorre em um cenário em que a segurança pública deverá ocupar posição central na disputa eleitoral do Rio de Janeiro.
Estratégias eleitorais distintas
No Paraná, o deputado estadual Requião Filho (PDT), também pré-candidato ao governo, atacou os adversários ao afirmar que “Flávio Bolsonaro se alia aos interesses estrangeiros contra a economia brasileira” e que Moro “fica calado”.
Já no Rio Grande do Sul, a ex-deputada estadual Juliana Brizola (PDT), que é apontada como possível candidata ao governo estadual, não fez manifestações públicas sobre o tema.
As diferentes reações evidenciam uma estratégia comum entre os pré-candidatos dos dois campos políticos: enfatizar assuntos que fortalecem suas narrativas eleitorais e evitar temas capazes de gerar desgastes junto aos seus respectivos eleitorados. Enquanto a direita prioriza a pauta da segurança pública, governistas concentram esforços na crítica às tarifas e na defesa da soberania econômica brasileira.



