Aliados de Lula veem desgaste de Flávio Bolsonaro após ataque tarifário de Trump
Aliados do presidente veem desgaste da família Bolsonaro após apoio às tarifas dos EUA e apostam em discurso de soberania nacional
247 - A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a decisão do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros pode acabar produzindo um efeito político contrário ao esperado pelos aliados de Jair Bolsonaro. A leitura feita por integrantes do núcleo político do governo é que a medida tem potencial para afastar eleitores indecisos do campo bolsonarista e reforçar o discurso de defesa da soberania nacional.
Segundo reportagem publicada pelo portal argentino La Política Online, interlocutores próximos à campanha de Lula acreditam que o apoio manifestado por integrantes da família Bolsonaro às ações adotadas por Washington pode gerar desgaste político em um momento de forte polarização eleitoral no Brasil.
Inicialmente vista como um fator capaz de pressionar o governo brasileiro, a ofensiva comercial dos Estados Unidos passou a ser interpretada por setores ligados ao Palácio do Planalto como uma oportunidade para fortalecer a imagem de Lula junto a segmentos moderados do eleitorado.
Campanha vê impacto entre eleitores indecisos
Um importante integrante da equipe de campanha de Lula afirmou ao veículo argentino que a reação negativa à medida norte-americana tem sido percebida em diferentes setores da sociedade.
Segundo essa avaliação, "a ideia de atacar a economia não agradou a setores da população que não veem os Estados Unidos como um modelo a ser seguido".
A mesma fonte destacou ainda que "não estamos falando de eleitores de esquerda, mas sim de eleitores indecisos, que são cruciais em uma eleição tão acirrada".
Henrique Attuch aponta influência da família Bolsonaro
O advogado e analista político Henrique Attuch avalia que as tarifas anunciadas por Washington estão inseridas em um contexto político mais amplo e não podem ser analisadas de forma isolada.
Segundo Attuch, "as tarifas de 25% propostas pelo governo dos EUA sobre os produtos brasileiros não surgem do nada; elas têm origem em um contexto em que Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro vêm pressionando ativamente a Casa Branca contra o governo Lula."
Ele acrescentou que "a investigação, iniciada pelo Artigo 301, inclui críticas a decisões do Supremo Tribunal Federal, ao sistema Pix e às políticas digitais brasileiras; em outras palavras, ataca de forma abrangente as instituições do Estado brasileiro. Trump já havia declarado abertamente sua solidariedade a Jair Bolsonaro e sua hostilidade ao governo Lula".
Debate sobre interferência eleitoral
Na avaliação do analista, a iniciativa norte-americana pode ser interpretada como uma forma indireta de interferência política no cenário eleitoral brasileiro.
"Usar o aparato comercial dos EUA para punir economicamente o Brasil em ano eleitoral constitui uma forma de interferência indireta, mas eficaz: enfraquece o governo em exercício, aumenta o custo de vida para os brasileiros e culpa Lula pela crise", afirmou.
Apesar disso, Attuch acredita que a estratégia pode acabar produzindo consequências negativas para os próprios aliados de Bolsonaro. Segundo ele, "a estratégia dos EUA pode se voltar contra seus próprios orquestradores brasileiros. Flávio Bolsonaro e a família Bolsonaro passaram o último ano fazendo lobby em Washington, e o resultado concreto para o Brasil é a ameaça de uma tarifa de 25% sobre seus produtos. Os eleitores brasileiros se perguntarão: quem exerceu essa pressão? Quem solicitou a intervenção estrangeira na economia brasileira? A resposta aponta para os Bolsonaros. Este é um terreno emocionalmente sensível."
Reação nacionalista pode favorecer Lula
Attuch argumenta que a percepção de interferência externa em questões econômicas nacionais tende a provocar rejeição entre os brasileiros, independentemente de posicionamentos ideológicos.
Segundo ele, "os brasileiros toleram profundamente a ideia de candidatos da oposição irem a Washington pedir aos Estados Unidos que prejudiquem a economia do país para vencer eleições. As ações de Flávio Bolsonaro, com o apoio dos EUA, em vez de serem direcionadas contra Lula, têm mais repercussões para o próprio Flávio".
Essa interpretação coincide com a visão de integrantes da campanha petista, que enxergam na disputa comercial uma oportunidade para fortalecer uma narrativa baseada na defesa da soberania nacional diante das pressões externas.
Pix entra no centro da disputa comercial
Outro ponto destacado por Attuch é a inclusão do sistema Pix entre os temas questionados pela investigação comercial aberta pelos Estados Unidos.
De acordo com ele, "ela é um dos principais alvos declarados da investigação dos EUA. O motivo é claro: Visa e Mastercard construíram impérios financeiros com base nas taxas de intercâmbio que cobram por cada transação. A Pix, criada e operada pelo Banco Central do Brasil, eliminou essas taxas para pessoas físicas e tornou gratuitas e instantâneas as transações que antes geravam bilhões em taxas para as bandeiras de cartões americanas."
O analista ressaltou ainda o crescimento acelerado do sistema brasileiro de pagamentos. "Em apenas cinco anos, o Pix ultrapassou todos os outros cartões combinados em número de transações. Para a Visa e a Mastercard, isso representa uma enorme e crescente perda de participação de mercado, e a resposta dos EUA foi incluir o Pix como uma prática 'irrazoável' em uma investigação comercial. Isso é protecionismo disfarçado de legalidade: o governo dos EUA está usando o aparato estatal para defender os lucros de suas empresas privadas contra uma inovação pública brasileira bem-sucedida."
Defesa da soberania e ampliação de parcerias
Ao comentar os possíveis caminhos para a resposta brasileira, Henrique Attuch defendeu uma postura firme do governo Lula diante das pressões vindas de Washington.
"Lula não pode ceder. A lógica por trás da pressão dos EUA é clara: qualquer concessão do Brasil será interpretada como fraqueza e gerará novas demandas. Ceder na questão do Pix significaria abandonar uma política pública que beneficia diretamente dezenas de milhões de brasileiros em favor dos lucros de empresas americanas. Ceder às críticas ao Supremo Tribunal Federal significaria permitir que um governo estrangeiro interferisse no funcionamento do judiciário brasileiro."
Para ele, a estratégia mais adequada passa pela combinação entre firmeza e diálogo diplomático. "O caminho a seguir é a firmeza soberana aliada à inteligência diplomática: manter as negociações abertas, aproveitar o período de consulta pública que se estende até julho, mas sem antecipar concessões unilaterais. O Brasil também deve expandir suas alianças comerciais — com a União Europeia, com o Sul Global, com o BRICS — para reduzir sua dependência da relação com os Estados Unidos e fortalecer sua posição de negociação. Lula deve deixar claro que o Brasil é um parceiro disposto a dialogar honestamente, mas não um subordinado disposto a capitular", concluiu.



