Arquivos revelam como Jeffrey Epstein estruturou rede de aliciamento no Brasil por mais de uma década
Segundo os documentos, o esquema no Brasil espelhava o modelo inicialmente implementado por Epstein e sua parceira, Ghislaine Maxwell
247 - Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam que o financista Jeffrey Epstein manteve, por mais de uma década, uma estratégia estruturada de busca e recrutamento de jovens brasileiras para exploração sexual.
O jornal Estado de S.Paulo analisou mais de 30 mil arquivos do caso que mencionam o Brasil, entre e-mails, imagens e depoimentos colhidos pelo FBI. O material aponta um padrão recorrente: viagens ao País com o objetivo de identificar aspirantes a modelo interessadas em carreira internacional, além da aproximação com agências, revistas de moda e concursos de beleza.
Segundo os documentos, o esquema no Brasil espelhava o modelo inicialmente implementado por Epstein e sua parceira, Ghislaine Maxwell, em Palm Beach no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. A engrenagem combinava promessas profissionais, apoio financeiro e intermediação de terceiros para facilitar o acesso às vítimas.
O principal elo da expansão internacional foi o francês Jean-Luc Brunel, fundador da agência MC2, criada com apoio financeiro de Epstein. Segundo investigações do FBI, a empresa funcionava como fachada para recepcionar jovens estrangeiras nos Estados Unidos. Brunel esteve diversas vezes no Brasil entre 2006 e 2019, passando por cidades como Recife, São Paulo, Brasília, Fortaleza, Rio de Janeiro, Vitória, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Um depoimento considerado central pela investigação é o da contadora Maritza Vásquez, que afirmou às autoridades americanas que Epstein e Brunel estiveram no Brasil na década de 2000 com o auxílio de uma intermediária local. Segundo ela, ao menos quatro meninas foram levadas a Nova York em 2006, duas delas menores de idade.
“Jeffrey Epstein estava indo ao Brasil porque ele tinha clientes que eram de lá. Quando ele e Jean-Luc estavam lá uma mulher fornecia prostitutas a eles e algumas delas eram menores de idade”, afirmou a testemunha ao FBI
Os arquivos também mostram que, antes mesmo de sua primeira prisão em 2008, Epstein já mantinha contato com brasileiras jovens. Quatro dias após deixar a cadeia, em junho de 2009, ele escreveu a uma brasileira que havia conhecido anteriormente.
“Livre e em casa”, disse ele.
A jovem respondeu:
“Isso é ótimo, você deve estar se sentindo muito bem. Estou muito feliz que isso tudo acabou”, diz. “Também estou em casa e com peitos novos. O tamanho parece ótimo e mal posso esperar para mostrá-los.”
Epstein então replicou:
“Mande fotos.”
A troca de mensagens indica que o relacionamento já existia antes da prisão do financista. Nos anos seguintes, segundo os e-mails analisados, a mesma brasileira passou a atuar como recrutadora de outras jovens. Em mensagem enviada do Brasil no início de 2011, ela descreve a situação de uma possível nova vítima.
“Queria saber como nós vamos fazer sobre (nome da vítima sob tarja). Acredito que seja melhor ela voltar comigo para Nova York. Ela não fala bem inglês e nunca viajou antes. Ela vem de uma pequena cidade nos arredores de Natal e não tem passaporte. Como vamos fazer? Ela tirou uma foto no ano novo para você. Ela é muito doce e você vai adorá-la.”
Epstein respondeu:
“Posso te dar dinheiro em NY”.
O material aponta que transferências de recursos foram feitas para viabilizar viagens e documentação. O Ministério Público do Rio Grande do Norte abriu investigação para apurar possíveis desdobramentos no Estado.
Outro personagem que aparece com frequência nos arquivos é o músico britânico Ramsey Elkholy. Ele teria intermediado contatos com brasileiras e sugerido estratégias para ampliar o acesso a jovens no País. Em 2016, propôs a compra parcial da revista L’Officiel Brasil como forma de obter um “casting” de 20 a 30 meninas.
Em um dos e-mails, Elkholy descreve estratégia alternativa:
“Tenho o editor local (brasileiro) na palma da minha mão. Então, sempre que quero que fotografem uma garota, basta dar-lhe alguns milhares. É muito mais barato assim”
Em outra mensagem, afirmou:
“Meu foco é o Brasil, onde posso gastar menos para obter o mesmo resultado (b...)”
Os registros mostram ainda tentativas de aproximação com agências de modelos, incluindo negociações envolvendo franquias e concursos de beleza. Em 2019, Brunel esteve em Brasília para discutir a compra de uma agência local, segundo publicações em redes sociais da época
A Mega Model Brasil, citada nos documentos, divulgou nota negando qualquer vínculo com Epstein ou seus associados e afirmou ter rompido relações com a MC2 Models anos antes, justamente em razão das denúncias que pesavam contra Brunel
“A agência esclarece que jamais realizou transferências de modelos ou negociações de franquias com Jeffrey Epstein ou quaisquer indivíduos a ele vinculados”, diz a empresa.
“A Mega Model Brasil reitera seu compromisso com a integridade do mercado da moda e permanece à disposição para esclarecer quaisquer fatos que utilizem documentos jurídicos de forma descontextualizada.”
Epstein morreu em 2019, enquanto aguardava julgamento em Nova York por acusações de tráfico sexual de menores. Brunel foi encontrado morto em uma prisão na França em 2022. Os arquivos divulgados pelo governo americano ampliam a compreensão sobre a dimensão internacional do esquema e indicam que o Brasil foi um dos alvos recorrentes da rede de recrutamento ao longo de mais de dez anos.


