Dossiê Epstein expõe a crise moral das elites do Ocidente, diz Pepe Escobar
Jornalista conecta as revelações ao impasse geopolítico de Donald Trump com Irã e Rússia e ao avanço do mundo multipolar
247 – Em um vídeo publicado no YouTube com o título “Como o Dossiê Epstein enterra as ‘elites’ do Ocidente”, o jornalista e analista Pepe Escobar apresentou uma leitura que mistura geopolítica, crise de legitimidade do Ocidente e o impacto simbólico do que ele chama de “dossier Epstein”, apontando para um abalo estrutural na narrativa das elites transatlânticas.
Falando em tom de comentário e relato de viagem, Escobar afirma estar em trânsito entre China, Hong Kong e Rússia, e usa esse deslocamento para sustentar uma comparação entre a “visão de futuro” que ele diz ter observado na Ásia e o que descreve como “vazio” e “niilismo” no Ocidente. A partir daí, ele desenvolve duas frentes: os impasses do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, em negociações com Irã e Rússia, e a explosão política e moral associada às menções ao caso Epstein.
Entre China, Hong Kong e a engrenagem do mundo multipolar
Escobar inicia descrevendo passagens por centros chineses de alta tecnologia e pesquisa, além da integração regional que ele chama de “Greater Bay área”, envolvendo “11 cidades” e tendo Hong Kong como polo financeiro e de “soft power”. Ele afirma: “Hong Kong, evidentemente, é o centro de soft power financeiro, de tecnologia, de finanças, de marketing, de publicidade, etc.”
Na leitura do analista, circular por China e Rússia deixou de ser opcional para quem tenta compreender o “mundo multipolar e multinodal”. Ele afirma: “Nós temos que ir a Rússia e à China o tempo todo” e enquadra o momento como uma disputa histórica entre o que chama de “império devedor” e “império credor”, associando os Estados Unidos ao primeiro e a China ao segundo.
Irã, Omã e o “kabuki” do acordo nuclear
Ao entrar no tema central da semana, Escobar destaca as conversas indiretas entre Estados Unidos e Irã em Omã, mencionando que “eles não sentam a mesma mesa” e que tudo ocorre por intermediários. Para ele, o único terreno realista seria um novo acordo nuclear, após a ruptura do acordo anterior por Trump em seu primeiro mandato.
Ele descreve o que chama de “tríade do dictat”: “Não mais enriquecimento de urânio, reduzir o programa balístico iraniano ao mínimo e cortar o apoio do Irã ao eixo da resistência”. Na sequência, sustenta que Teerã não aceitaria ampliar o escopo para mísseis ou alianças regionais e sugere um limite negociável: “Poderíamos chegar, por exemplo, a enriquecimento de urânio máximo a 60%.”
O analista pinta Donald Trump como preso a uma escolha de alto custo político, afirmando que o presidente estaria “encalacrado”, e resume o dilema com a imagem de não haver saída. Na hipótese de fracasso, ele aponta o risco de ataque, mas afirma que, segundo sua leitura, haveria fatores novos que dificultariam uma ofensiva surpresa.
A dimensão China-Irã e a ideia de “game changer”
Em um trecho sensível do vídeo, Escobar sustenta que haveria um novo patamar de cooperação estratégica entre China e Irã, inclusive na esfera de inteligência, e que isso alteraria a equação militar. Ele menciona a presença de um navio e escoltas no Golfo de Omã e afirma: “A principal consequência disso é que um ataque surpresa… agora é absolutamente impossível.”
Ele apresenta essa interpretação como uma mudança de fase: “Esse é um game changer, isso é algo que muda a equação completamente.” E conecta o tema ao papel do Irã para a segurança energética chinesa: “O Irã é para a China um assunto de segurança nacional, porque é um dos principais fornecedores de energia para a China.”
Rússia, Ucrânia e o desgaste de um “diálogo adulto”
Escobar também afirma que a Rússia estaria perdendo a paciência com a administração Trump, citando entrevistas e declarações de diplomatas russos, incluindo Sergei Lavrov e Sergei Ryabkov. Ele diz perceber “um enfado com a impossibilidade de um diálogo adulto com a administração Trump 2.0”.
O analista lista temas que, segundo ele, permanecem travados: tratado START, guerra na Ucrânia, e a relação estrutural entre Washington e OTAN. Ele sintetiza sua visão com uma frase direta: “Os Estados Unidos não vão abandonar a OTAN.”
BRICS, pagamentos alternativos e o nervo da disputa
Ao tratar de BRICS, Escobar atribui a Ryabkov papel relevante e aponta como tema-chave a construção de um sistema alternativo de pagamentos. Ele afirma: “O tema principal é nós estamos trabalhando com a FINCO para estabelecer um sistema de pagamentos alternativo. Esse é o X da questão.”
A ideia, no argumento do vídeo, é que a disputa não se resume a territórios ou alianças militares: ela envolve infraestrutura financeira, capacidade de comércio e autonomia monetária. Escobar enquadra o Brasil como ator que, por estar no BRICS e no “Sul Global”, poderia ser alvo de pressões.
O “dossiê Epstein” como ruptura simbólica e política
É na parte final que Escobar eleva o tom e afirma que a divulgação parcial do que chama de “dossier Epstein” expõe um lado oculto das elites ocidentais. Ele menciona que haveria milhões de páginas, que parte teria sido “redatada até o limite” e cita o relato de uma parlamentar republicana que teria lido nomes, mas não poderia divulgá-los por um termo de confidencialidade.
Escobar afirma: “Ela diz que essencialmente… é absolutamente aterrorizante.” E emenda que, segundo a interpretação dele, estariam citados segmentos de diferentes espectros políticos e círculos de poder do eixo anglo-americano. Ele também sustenta, de forma opinativa, que as consequências jurídicas seriam bloqueadas por proteção institucional: “Eles não vão botar nenhum desses na cadeia porque todos esses caras são membros da elite.”
O vídeo ainda contém acusações gravíssimas apresentadas por Escobar como parte de sua leitura do caso, com linguagem dura e imagens fortes. Ele diz que, no que teria vindo a público, haveria indícios de crimes contra menores e afirma que “todo mundo sabia que isso estava rolando” desde os anos 1980 em certos círculos, vinculando o tema a redes de chantagem e “compromat”.
Niilismo, pós-modernismo e “fim da linha” do Ocidente
Escobar fecha conectando o que chama de colapso moral à crise filosófica e cultural do Ocidente. Ele afirma: “O conceito de verdade… acabou, não existe mais.” E conclui num registro de diagnóstico civilizacional: “É o fim da linha da dita civilização ocidental.”
Ao final, ele volta ao contraste entre regiões, afirmando que, ao atravessar o que chama de “muro de Istambul”, enxerga na Europa “vazio” e, ao retornar à Ásia, vê “o futuro”, longe do que descreve como “podridão ocidental”.
O que o vídeo revela sobre a disputa de narrativas
O vídeo de Pepe Escobar funciona como um manifesto interpretativo: ele usa o caso Epstein como símbolo de uma crise de legitimidade das elites e o encaixa num tabuleiro maior, em que Donald Trump enfrenta impasses com Irã e Rússia, enquanto BRICS e China ampliam alternativas econômicas e estratégicas.
Ao fazer isso, Escobar não se limita a comentar acontecimentos. Ele propõe um enquadramento amplo, no qual a crise do Ocidente seria simultaneamente moral, política e cultural, e o avanço do mundo multipolar apareceria como contraponto histórico ao que ele descreve como decadência atlanticista.


