Caso Epstein atinge Ministério das Relações Exteriores da França após revelações sobre diplomata
Documentos da Justiça dos EUA citam contatos de Fabrice Aidan com criminoso sexual estadunidense e apontam rede de trocas e favores
247 - O caso envolvendo o financista e criminoso sexual estadunidense Jeffrey Epstein continua gerando repercussões políticas na França e passou a atingir diretamente o Ministério das Relações Exteriores do país. Segundo a RFI, na quinta-feira (12), vieram à tona revelações sobre a presença do diplomata francês Fabrice Aidan em arquivos ligados a Epstein divulgados pela Justiça dos Estados Unidos. O nome do diplomata aparece quase 200 vezes nos registros analisados.
Fabrice Aidan trabalhou no Ministério das Relações Exteriores francês por 25 anos, a partir dos anos 2000. Posteriormente, passou a atuar no grupo Engie, que decidiu suspendê-lo após a divulgação das informações. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, informou que encaminhou o caso à Justiça, classificando os fatos como "presumidos". Ele também determinou a abertura de investigação administrativa e de procedimento disciplinar contra Aidan.
Documentos revelam sistema de trocas e favores
Os documentos indicam que Epstein chegou a emprestar seu apartamento em Paris ao diplomata e que ambos mantinham contatos regulares. Até o momento, não há vinculação direta de Aidan aos crimes sexuais cometidos por Epstein, mas os registros apontam participação em um sistema de trocas e favores que permitia ao financista circular em ambientes diplomáticos e acessar informações internas da Organização das Nações Unidas (ONU).
Em 2013, Aidan foi investigado pelo FBI e pela ONU por suspeita de consulta a sites de pornografia infantil. A investigação resultou na saída do diplomata da ONU, sem condenação. Mesmo após esse episódio, os documentos indicam que ele manteve contatos com Epstein, incluindo facilitação de encontros, organização de viagens e intermediação de pagamentos.
A defesa do diplomata nega irregularidades. A advogada Jade Dousselin declarou que seu cliente contesta "todas as acusações contra ele". Em comunicado, ela afirmou que "nunca houve qualquer consulta a sites de pornografia infantil". Os documentos também citam dois músicos franceses de forma recorrente: o pianista Simon Ghraichy e o maestro Frédéric Chaslin. Os dois aparecem cerca de 1.500 vezes nos arquivos, associados a relações de mecenato e prestação de serviços ligados a Epstein.
Conexão com diplomata norueguês da ONU
Reportagem do jornal Libération indica que Aidan teria atuado como intermediário operacional entre Epstein e o diplomata norueguês Terje Rød-Larsen, ex-integrante de alto escalão da ONU. De acordo com os documentos, houve trocas intensas entre os três envolvendo informações diplomáticas, favores pessoais e facilitação de acesso a ambientes diplomáticos e econômicos internacionais.
Os registros também indicam que Rød-Larsen teria repassado materiais diplomáticos não públicos a Epstein, incluindo relatórios e documentos internos da ONU. Em troca, ele e familiares teriam recebido benefícios financeiros, hospedagem, viagens e presentes de luxo associados ao financista.
O governo francês teme que o caso seja explorado por redes conspiracionistas. O escândalo já provocou consequências políticas no país. O ex-ministro socialista Jack Lang renunciou à presidência do Instituto do Mundo Árabe após a divulgação de seus contatos com Epstein.


