Ataque ao Banco Central contratado por Vorcaro seguiu estratégia de agência e teve contratos milionários
Documentos obtidos pela Folha revelam atuação de agência e influenciadores em campanha contra o BC e Renato Gomes
247 - Documentos internos do chamado “Projeto DV” apontam que os ataques coordenados contra o Banco Central e o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução da autarquia, Renato Gomes, foram organizados a partir de uma estratégia estruturada de comunicação ligada ao empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master. As informações são da Folha de São Paulo.
Os materiais revelam uma espécie de manual de atuação com orientações detalhadas para influenciadores digitais, páginas de notícias e perfis nas redes sociais. Os contratos, firmados pela agência Mithi, do publicitário Thiago Miranda, chegaram a somar R$ 8 milhões. Parte dos acordos, no entanto, foi interrompida após a Polícia Federal iniciar, em janeiro, uma investigação sobre os ataques direcionados ao BC.
A ofensiva teria ocorrido após o Banco Central rejeitar a compra do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília). Renato Gomes, cuja área técnica recomendou o veto à operação, tornou-se o principal alvo das publicações patrocinadas.
A investigação da PF identificou cerca de 40 perfis que teriam participado da campanha. Os documentos do “Projeto DV” continham instruções específicas adaptadas ao perfil de cada página, incluindo sugestões de títulos, roteiros para vídeos curtos, imagens e linhas editoriais.
Thiago Miranda foi procurado pela reportagem da Folha, mas não comentou o caso. Ele deverá prestar depoimento à Polícia Federal nesta terça-feira (12). Conforme os documentos obtidos pelo jornal, Miranda recebeu R$ 3,5 milhões da empresa Super Empreendimentos, ligada a Vorcaro, entre o fim de dezembro de 2025 e o início de janeiro deste ano. O mesmo valor teria sido repassado a contratados do projeto.
A defesa de Daniel Vorcaro também não se manifestou.
Direcionamento editorial e contratos com influenciadores
Entre os veículos mencionados nos documentos está o portal GPS Brasília, que possui site próprio e 182 mil seguidores no Instagram. O projeto determinava que o portal deveria adotar um “tom liberal clássico, em defesa da livre iniciativa, institucional”.
Os materiais sugeriam títulos como “Fim da gestão Renato Gomes: um erro caro para o sistema financeiro”. Em 1º de janeiro, o portal publicou uma reportagem intitulada “Saída de Renato Gomes do BC deixa indícios de um erro caro para o sistema financeiro”. Dias antes, em 29 de dezembro, havia divulgado outro texto crítico ao ex-diretor do BC.
Segundo a reportagem, o GPS Brasília assinou, em 3 de janeiro, um contrato de R$ 100 mil mensais por um ano com a agência Mithi. O acordo previa seis conteúdos mensais, divididos entre Instagram e portal de notícias, além de cláusula de confidencialidade.
O editor Jorge Eduardo afirmou que o veículo mantém contratos publicitários com diversas agências e confirmou a existência de acordos anteriores com a Mithi. Segundo ele, um dos contratos foi rescindido dez dias após a assinatura por “incompatibilidades entre os conteúdos propostos e a linha editorial”.
Ele declarou ainda: “Reafirmamos nosso compromisso de fidelidade com os melhores princípios do jornalismo, pilar essencial de uma sociedade evoluída”.
Outro nome citado nos documentos é o jornalista Luiz Bacci. A empresa BN Publicidade e Marketing, ligada ao apresentador, firmou contrato de R$ 500 mil mensais durante seis meses para a produção de 30 postagens por mês.
Bacci confirmou a relação comercial com a agência, mas evitou comentar detalhes do contrato.
“Em conformidade com nossas diretrizes de compliance e sigilo, não divulgamos informações sobre contratos firmados com nossos clientes”.
Segundo o jornalista, a parceria comercial com a Mithi existe desde 2021.
Perfis receberam orientações específicas
O perfil Not Journal, com 289 mil seguidores, também integrou o projeto. O contrato previa pagamento de R$ 30 mil mensais para 12 publicações por mês no Instagram e no site.
Os documentos orientavam que o perfil mantivesse um “tom acadêmico, sóbrio e institucional, com foco na eficiência de mercado”. Em sintonia com o direcionamento, foram publicados conteúdos críticos a Renato Gomes.
O diretor do veículo, Bruno Richards, confirmou o contrato, mas afirmou que não houve combinação prévia de conteúdo. “A gente sempre atuou com muita rigidez no caso Master. Recebemos três notificações extrajudiciais direto do Banco Master”.
Richards disse ainda que os textos alinhados às orientações da agência teriam sido produzidos por um ex-funcionário. “A única e principal regra é ser fato e não publicarmos fake news”.
Segundo ele, o projeto também incluiu uma proposta de compra de 50% do Not Journal por R$ 5 milhões, oferta que teria sido recusada.



