Bolsonaro completa seis meses preso e clã intensifica disputa interna enquanto defesa negocia prisão domiciliar
Relatório médico, articulações políticas e briga pela sucessão presidencial elevam a tensão entre bolsonarismo e STF
247 – Jair Bolsonaro (PL) completa seis meses preso nesta quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026, em meio a uma ofensiva política e jurídica para retomar a prisão domiciliar e a uma disputa interna sobre a sobrevivência eleitoral do bolsononarismo.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, aliados e interlocutores do ex-presidente avaliam que a decisão sobre a domiciliar, hoje nas mãos do ministro Alexandre de Moraes, do STF, tornou-se o eixo em torno do qual se reorganizam tanto a estratégia de defesa quanto a sucessão dentro do próprio grupo político.
A tentativa de voltar ao ponto de partida: a prisão domiciliar
Bolsonaro busca recuperar um benefício que já havia obtido e depois perdido. De acordo com o relato, Moraes determinou em 4 de agosto que Bolsonaro ficasse recluso em casa, em um condomínio em Brasília, após o ex-presidente aparecer em vídeos exibidos por aliados em uma manifestação, quando já estava proibido de usar redes sociais.
Em novembro, porém, Bolsonaro perdeu a domiciliar após violar a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda, segundo o texto. Desde então, o entorno bolsonarista tenta reconstruir, por diversas frentes, o caminho de volta ao regime mais brando.
A aposta central, ainda segundo a reportagem, é a combinação entre idade e quadro clínico. Aliados afirmam que não haveria como o ministro adiar por muito mais tempo a transferência para casa, citando os 70 anos do ex-presidente e problemas como tontura, soluços e cirurgias recentes. A matéria diz ainda que uma ala de ministros do Supremo, antes refratária a esse argumento, passou a concordar, ampliando o otimismo do grupo.
Laudo médico, veto presidencial e a guerra de narrativas
A estratégia jurídica ganhou um elemento decisivo: um laudo médico solicitado por Moraes, que deve ser apresentado nesta semana, com o objetivo de apontar se Bolsonaro tem condições de continuar cumprindo pena na chamada “Papudinha”, batalhão da Polícia Militar ao lado do Complexo Penitenciário da Papuda. Os médicos avaliaram o ex-presidente no dia 20, segundo o texto.
Paralelamente, o bolsononarismo tenta abrir um segundo flanco: a derrubada, pelo Congresso, do veto do presidente Lula ao chamado PL da Dosimetria. Conforme a reportagem, a mudança reduziria a pena de Bolsonaro e facilitaria a progressão de regime. O movimento, porém, enfrenta incertezas: não há previsão de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), marque sessão para análise dos vetos, de acordo com o relato.
Nesse ambiente, deputados da direita citados no texto afirmam haver “injustiça”, “perseguição” e “cerceamento de defesa”. A reportagem também registra que, na leitura de interlocutores, o atrito permanente entre bolsononarismo e Supremo alimentaria um ciclo de tensão política — e que essa tensão acabaria sendo usada como explicação para a demora em decisões favoráveis ao ex-presidente.
Michelle, Tarcísio e Flávio: a sucessão entra na cela
A movimentação por trás da domiciliar também reconfigurou a disputa interna por herança política. O texto relata que a esperança se fortaleceu após uma articulação considerada bem-sucedida da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e do governador paulista Tarcísio de Freitas junto a ministros do STF, para sensibilizá-los sobre a situação de Bolsonaro.
A transferência de Bolsonaro da Superintendência da Polícia Federal para a Papudinha, no dia 15, foi descrita como uma vitória política atribuída à dupla — e, segundo a reportagem, provocou no entorno de Flávio: Bolsonaro a interpretação de que Michelle e Tarcísio buscariam se cacifar para disputar a Presidência no lugar do senador, apontado pelo pai.
A matéria também detalha que a cela na Papudinha tem 64,83 m², enquanto a da Polícia Federal tinha 12 m², indicando uma mudança relevante nas condições do cumprimento da pena.
É nesse período, segundo a reportagem, afastado das ruas e com visitas limitadas, que Bolsonaro — inelegível desde 2023 por decisão do TSE — consolidou a indicação de Flávio: como sucessor nas eleições presidenciais deste ano, contrariando a preferência de setores do centrão e do mercado financeiro por Tarcísio.
Aliados do ex-presidente afirmam, conforme o texto, que prisão, deterioração de saúde e dificuldade de obter domiciliar pesaram na escolha por alguém do próprio clã. O cálculo descrito é o de preservar relevância política e espólio eleitoral da família, evitando que o grupo perca protagonismo e seja obrigado a aceitar uma liderança externa.
Ao mesmo tempo, dirigentes do PL ouvidos pela reportagem apontam um custo prático: com visitas limitadas, Bolsonaro não estaria plenamente inserido nas articulações, e o bolsononarismo perderia parte da capacidade de mobilização popular durante o período eleitoral.
Saúde, rotina e a aposta na vitimização política
O texto relata que Bolsonaro passou por cirurgias de hérnia e de contenção dos soluços mesmo já preso. Visitantes afirmam que ele tem apresentado tonturas por causa do remédio para conter crises de soluço, além de sinais de abalo emocional por não manter contato espontâneo com apoiadores.
O bispo Robson Rodovalho, líder da igreja Sara Nossa Terra, é citado pela reportagem com uma avaliação direta sobre o estado físico do ex-presidente: "Achei a saúde do ex-presidente Bolsonaro bem abalada, Ele está tomando um remédio muito forte para ajudar nos soluços, mas isso o deixa muito zonzo, com risco real de queda. Os soluços afetam seu apetite também. Tudo isso o fragilizou muito".
A narrativa de vitimização aparece também nas declarações políticas. O líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), afirma: "A cada dia que o ex-presidente Bolsonaro continua naquela prisão de forma ilegal e desumana, ele se fortalece mais perante a opinião pública", acrescentando que ele "pode morrer a qualquer momento".
No mesmo sentido, o deputado Delegado Caveira (PL-PA) usa termos de confronto contra o Judiciário: "Uma solução imediata eu não vejo, porque nós estamos vivendo na ditadura da toga, um complô muito grande". E completa: "Para mim o único golpe é o da injustiça contra Bolsonaro, que está fazendo imensa falta, inclusive nas articulações políticas."
Ainda segundo a reportagem, interlocutores são menos otimistas quanto a uma “virada de clima” político semelhante à que beneficiou Lula em 2019, quando foi solto após 580 dias de prisão e teve seu processo anulado. Eles mencionam hipóteses futuras e incertas — como uma maioria de senadores de direita em 2027 para tentar o impeachment de ministros do STF — como alternativas que podem demorar ou não produzir efeito.
A rotina do ex-presidente na Papudinha, conforme relatório enviado pela PM do Distrito Federal a Moraes, inclui caminhadas, visitas de familiares e advogados, atendimento médico diário, fisioterapia, apoio religioso eventual e nenhum livro lido — embora a leitura pudesse reduzir a pena. O monitoramento descrito abrange o período de 15 a 27 de janeiro.
O que está em jogo no tabuleiro de 2026
O quadro descrito combina três camadas simultâneas: a batalha jurídica pelo regime de cumprimento de pena, a pressão institucional sobre Congresso e Supremo, e a disputa interna por comando político do bolsononarismo num ano eleitoral.
A decisão sobre a domiciliar, segundo a própria percepção dos aliados citados, é mais do que um gesto humanitário ou um debate técnico sobre saúde: ela tende a redefinir o grau de presença de Bolsonaro no processo político, a capacidade de coordenação do seu grupo e a força simbólica — seja como liderança ativa, seja como figura mobilizadora por meio da vitimização.
Ao mesmo tempo, a reportagem indica que a sucessão — especialmente em torno de Flávio:, Michelle e Tarcísio — deixou de ser um tema apenas de bastidores e passou a operar como eixo estratégico, influenciando movimentos, alianças e leituras sobre quem de fato herda o comando do campo bolsononarista em 2026.


