Brasil está negociando e espera decisão de Trump, afirma Mauro Vieira
Chanceler diz que não há justificativa para tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros e espera que impasse seja levado a Donald Trump em breve
247 - O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quarta-feira (3) que o governo brasileiro segue empenhado nas negociações com os Estados Unidos para tentar reverter as novas tarifas anunciadas por Washington contra produtos brasileiros. Segundo o chanceler, o Brasil não identifica fundamentos que justifiquem as sobretaxas e espera que o tema seja levado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em breve.
As declarações foram dadas em Paris, durante a reunião ministerial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). As informações foram publicadas originalmente pela Folha de S.Paulo. O posicionamento de Vieira ocorre após os Estados Unidos anunciarem, em poucos dias, duas novas medidas tarifárias que atingem exportações brasileiras.
As iniciativas foram adotadas a partir de investigações conduzidas sob a Seção 301 da legislação comercial norte-americana, mecanismo utilizado pelos EUA para apurar e punir práticas consideradas desleais por parceiros comerciais. Na terça-feira (2), o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Já na madrugada de quarta-feira (3), foi anunciada uma nova tarifa de 12,5%, baseada em alegações relacionadas ao uso de trabalho forçado, medida que também alcançou outros 58 países e a União Europeia.
Negociações seguem abertas
Combinadas, as duas medidas podem elevar para 37,5% a sobretaxa aplicada a parte das exportações brasileiras. A decisão definitiva deverá ser tomada pelo presidente Donald Trump até o próximo dia 15 de julho.
Durante o encontro da OCDE, Vieira relatou ter conversado com Jamieson Greer, representante de Comércio dos Estados Unidos e responsável pelas investigações que resultaram nas tarifas. Segundo o ministro, o dirigente norte-americano sinalizou interesse na continuidade do diálogo entre os dois países.
Ao comentar a conversa, Vieira reproduziu a resposta que deu ao representante americano: "Eu falei: pois é, que ótimo, então vamos continuar conversando e acertando, vamos negociar".
Brasil vê disposição para acordo
Questionado sobre a possibilidade de interpretar a fala de Greer como um sinal positivo para as negociações, o chanceler descartou especulações e ressaltou o conteúdo objetivo da mensagem recebida.
"Acho que não tem interpretação, tem a resposta. Ele disse que estão prontos a negociar, como nós também estamos", declarou.
Vieira destacou que os contatos entre os dois governos vêm ocorrendo desde o início de 2025, quando surgiram os primeiros atritos comerciais. Segundo ele, houve uma sequência de reuniões presenciais e virtuais para tratar não apenas da questão tarifária, mas também de outros assuntos de interesse bilateral, incluindo iniciativas de combate ao crime organizado.
Ao abordar os obstáculos para um entendimento, o ministro afirmou que a divergência não está relacionada ao mérito das discussões, mas sim à necessidade de maior compreensão entre as partes. Nesse contexto, demonstrou expectativa de uma solução próxima para o impasse.
"Seja solucionado e levado ao presidente Trump em breve", afirmou ao comentar o andamento das negociações.
Defesa brasileira contesta justificativas
O ministro voltou a defender que não há elementos que sustentem as medidas adotadas pelos Estados Unidos. Segundo ele, o Brasil respondeu integralmente aos questionamentos apresentados durante as consultas realizadas no âmbito da Seção 301.
De acordo com Vieira, mais de 80 perguntas foram respondidas por uma equipe que reuniu representantes de diferentes áreas do governo federal. O objetivo foi fornecer aos norte-americanos todas as informações solicitadas durante o processo.
Um dos principais argumentos apresentados pelo Brasil é o histórico da balança comercial entre os dois países. O chanceler destacou que os números não indicam vantagem brasileira sobre os Estados Unidos.
"Somos nós que temos um grande déficit", afirmou, ao mencionar um saldo negativo acumulado de cerca de US$ 450 bilhões ao longo dos últimos 15 anos.
Na avaliação do ministro, esse cenário enfraquece qualquer justificativa para a adoção de medidas de proteção comercial por parte dos Estados Unidos.
G7, Mercosul e novas parcerias
Questionado sobre a possibilidade de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump durante a cúpula do G7, marcada para ocorrer entre os dias 15 e 17 de junho, em Evian, na França, Vieira informou que não existe agenda definida para uma reunião bilateral.
Ainda assim, ele ressaltou que Lula confirmou participação no encontro e não descartou uma eventual conversa caso surja uma oportunidade durante a programação. "Havendo ocasião, havendo uma reunião, conversarão", declarou.
Além da questão tarifária, o chanceler destacou a relevância estratégica do acordo entre Mercosul e União Europeia, cujo componente comercial entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio. Segundo ele, o entendimento ganhou importância adicional diante da necessidade de ampliar a inserção internacional do bloco sul-americano. "O acordo é muito importante e continua a ser muito importante", afirmou.
Vieira também informou que manteve reuniões bilaterais em Paris e mencionou contatos exploratórios voltados à abertura de negociações entre o Mercosul e parceiros como Reino Unido e Japão. O ministro relatou ainda participação em um diálogo estratégico com a China, no qual temas comerciais estiveram entre os principais assuntos debatidos.
Sobre uma previsão para o encerramento da disputa comercial com os Estados Unidos, o chanceler evitou fixar prazos e reiterou que as conversas continuarão. "Data precisa, não tem. Nós vamos continuar conversando."
Segundo ele, ao retornar ao Brasil, novas reuniões serão realizadas com os ministérios responsáveis pelas áreas econômica e comercial para dar continuidade às tratativas com o governo norte-americano.



