Brasil terá maior fábrica de mísseis da América Latina
Unidade em Caçapava produzirá mísseis antinavio para o mercado interno e exportações
247 - O Brasil deve ganhar ainda este ano uma das maiores estruturas industriais da América Latina voltadas à produção de mísseis. Em Caçapava, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, está em fase final de construção uma fábrica de mísseis antinavio da SIATT, empresa controlada pela Edge, conglomerado de defesa dos Emirados Árabes Unidos.
A informação foi revelada por Rodrigo Torres, diretor financeiro (CFO) da Edge, em entrevista à revista Exame. Segundo o executivo, a unidade deverá ser inaugurada até novembro e terá capacidade para produzir até oito mísseis por mês.
“Vai ser a primeira fábrica da América Latina desse tamanho, a nível de produção. É uma fábrica que pode produzir até oito mísseis anti-navio por mês. A previsão é inaugurar em novembro”, afirmou Torres.
Investimento mira exportações e mercado brasileiro
De acordo com o CFO da Edge, o investimento faz parte da estratégia global de expansão da companhia e não está voltado apenas ao atendimento das demandas brasileiras. “Estamos investindo nessa fábrica não só para o Brasil, mas para exportação. A SIATT continua expandindo as ofertas de produtos”, declarou.
Torres destacou ainda que a empresa realizou recentemente uma entrega de mísseis antitanque ao Exército Brasileiro, reforçando a ampliação das operações da companhia no país. “Eles tiveram a primeira entrega para o Exército do Brasil, de mísseis contra tanques, duas semanas atrás, e a expansão dos produtos continua nessa área de mísseis”, disse.
Edge amplia presença industrial no Brasil
Além da nova fábrica em Caçapava, a Edge prepara novos investimentos em São Paulo. A empresa está desenvolvendo uma unidade em São José dos Campos voltada à produção de tecnologias de segurança, incluindo sistemas de monitoramento, câmeras e equipamentos não letais. “Aquelas pistolas elétricas e toda parte de tecnologia, a gente vai concentrar em São Paulo”, afirmou o executivo.
Outro foco da companhia é a expansão internacional da Condor Tecnologias Não Letais, empresa brasileira adquirida pelo grupo e que atualmente exporta para 85 países. “Aprovamos nesta semana um centro de treinamento e uma fábrica da Condor em Abu Dhabi, que vai ser bem relevante, e estamos olhando como expandir também a nível Europa”, acrescentou.
Gigante global da defesa segue em expansão
Criada em 2019, a Edge nasceu da integração de 25 empresas do setor de defesa e segurança dos Emirados Árabes Unidos. Atualmente, o grupo possui cerca de 15 mil funcionários e faturamento anual próximo de US$ 5 bilhões.
Nos últimos dois anos, a companhia realizou aproximadamente 25 aquisições ao redor do mundo, incluindo as brasileiras Condor e SIATT, além de empresas na Estônia, Suíça, Polônia, Israel e Itália. Entre as aquisições mais recentes está a italiana CMD, fabricante de motores de alta performance que atua nos segmentos automotivo, aeroespacial e de drones.
“Hoje em dia, a empresa está na faixa de 5 bilhões de dólares de receita. A gente está entre os 20 maiores players de defesa do mundo, e continua nessa expansão”, afirmou Torres.
Mercado de defesa vive forte crescimento global
Segundo o CFO da Edge, a indústria global de defesa atravessa um ciclo de expansão impulsionado pelos conflitos internacionais e pela crescente demanda por sistemas de proteção e segurança. “O mercado de defesa está em um exponencial violento, e a gente acredita que, nos próximos 20 anos, vai continuar esse hype de defesa”, afirmou.
Na avaliação do executivo, os investimentos europeus no setor vêm aumentando diante da necessidade de fortalecer capacidades próprias de defesa, em um cenário marcado por conflitos como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio.
IA e drones transformam a guerra
Torres destacou que a rápida evolução tecnológica está modificando os conceitos tradicionais de defesa e segurança. Segundo ele, drones, sistemas conectados e inteligência artificial já desempenham papel central nos conflitos modernos. “A comunicação se tornou extremamente relevante, e comunicação rápida e que requer decisões”, afirmou.
O executivo acrescentou que entre 60% e 70% dos produtos desenvolvidos atualmente pela indústria de defesa já contam com alguma aplicação de inteligência artificial. “A IA não vai tomar a decisão por você, mas vai dar uma interpretação mais real de onde estão os assets, a infantaria, os seus inimigos etc. E ajudar no algoritmo de tomar decisão de como é que você vai movimentar suas tropas”, explicou.
Tecnologia ganha espaço na proteção de fronteiras
O CFO também apontou o monitoramento de fronteiras como uma das áreas mais promissoras para o setor. Segundo ele, drones, radares, sensores e sistemas de comunicação via satélite vêm substituindo modelos tradicionais de vigilância. “O Brasil está nessa conversa agora de proteção de fronteiras não só marítimas, mas terrestres”, afirmou.
Para Torres, a tendência é o desenvolvimento de uma espécie de “fronteira invisível”, baseada em tecnologias de monitoramento e comunicação em tempo real. “Hoje, com drones, sensores, câmeras e radares, você não precisa mais necessariamente daquela cerca de arame farpado para controlar sua fronteira”, concluiu.



