Datafolha mostra que apoio de Trump é indiferente para 65% dos eleitores brasileiros
Levantamento enfraquece aposta bolsonarista no alinhamento aos Estados Unidos e indica que aval externo tem impacto limitado na disputa presidencial
247 – A nova pesquisa Datafolha trouxe um dado relevante para a disputa presidencial de 2026: o apoio de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, a um candidato no Brasil é indiferente para 65% dos eleitores brasileiros. O resultado indica que a tentativa de transformar o aval do líder estadunidense em ativo eleitoral tem alcance limitado junto à maioria do eleitorado.
O levantamento, divulgado pela Folha de S.Paulo no contexto da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), mostra que apenas 17% dos entrevistados afirmam que o apoio de Trump aumentaria sua vontade de votar em determinado candidato. Outros 15% dizem o oposto: que a vontade de votar diminuiria caso o político brasileiro recebesse o endosso do presidente dos Estados Unidos.
Fator Trump mobiliza minoria do eleitorado
O dado é especialmente importante porque Flávio Bolsonaro tem buscado se apresentar como interlocutor privilegiado da direita brasileira com os Estados Unidos. Depois de encontro com Donald Trump, o senador explorou a decisão do governo estadunidense de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas e lançou uma série de propostas de linha dura para reanimar sua base conservadora.
A pesquisa, no entanto, sugere que esse tipo de alinhamento externo não altera de forma decisiva a disposição de voto da maioria dos brasileiros. Para quase dois terços do eleitorado, o apoio de Trump não aumenta nem diminui a vontade de votar em um candidato à Presidência do Brasil.
O resultado coloca limites à estratégia bolsonarista de nacionalizar a influência de Trump na eleição brasileira. Embora o presidente dos Estados Unidos siga sendo uma referência para setores da extrema direita, seu apoio parece falar mais diretamente a uma parcela minoritária do eleitorado.
Apoio externo divide quase igualmente os que se importam
Entre os eleitores que dizem ser influenciados pelo apoio de Trump, o efeito também não é claramente favorável. Segundo o Datafolha, 17% afirmam que o endosso do estadunidense aumentaria a vontade de votar no candidato apoiado, enquanto 15% dizem que diminuiria.
A diferença de apenas dois pontos mostra que o apoio de Trump pode mobilizar simpatizantes, mas também acionar rejeição em parcela semelhante do eleitorado. Ou seja, o mesmo gesto que pode entusiasmar setores conservadores também pode afastar eleitores contrários à interferência estrangeira na política brasileira.
Esse equilíbrio torna o “fator Trump” um instrumento de efeito ambíguo. Ele pode reforçar a identidade ideológica de uma candidatura de direita, mas não necessariamente amplia sua capacidade de crescimento nacional.
Soberania vira tema central da disputa
O resultado do Datafolha fortalece o debate sobre soberania nacional, um dos eixos da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. O governo e aliados do presidente têm criticado o alinhamento do senador aos Estados Unidos em meio à ameaça de novas tarifas contra o Brasil.
Nesse contexto, a indiferença de 65% dos eleitores ao apoio de Trump indica que a maioria do país não vê no aval estrangeiro um fator decisivo para escolher o próximo presidente. Para o campo lulista, o dado abre espaço para reforçar a defesa de uma política externa soberana e independente.
A disputa passa, então, a opor duas visões: de um lado, a tentativa bolsonarista de usar a proximidade com Trump como sinal de força internacional; de outro, a crítica de que a política brasileira não deve ser subordinada a interesses de Washington.
Flávio aposta em Trump, mas eleitorado não acompanha em massa
A pesquisa Datafolha mostra que Flávio Bolsonaro continua sendo o principal nome da oposição a Lula, mas também revela limites importantes à sua estratégia eleitoral. No primeiro turno, o presidente aparece com 41% das intenções de voto, contra 31% do senador.
No segundo turno, Lula também lidera: marca 47%, contra 43% de Flávio. A estabilidade do quadro mostra que o bolsonarista conseguiu estancar parte do desgaste provocado pelo caso Dark Horse, mas não reduziu a distância em relação ao presidente.
O dado sobre Trump ajuda a explicar essa dificuldade de expansão. Embora o apoio do presidente dos Estados Unidos possa agradar à base bolsonarista, ele não parece suficiente para atrair a maioria do eleitorado. Para 65%, simplesmente não faz diferença.
Dark Horse e Banco Master seguem no radar eleitoral
A pesquisa também foi divulgada em meio ao impacto do caso Dark Horse, que atingiu Flávio Bolsonaro após a revelação de que ele havia pedido dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar um filme sobre Jair Bolsonaro.
Na rodada anterior, realizada após a revelação do episódio, Lula havia marcado 40%, enquanto Flávio aparecia com 31%. Agora, Lula tem 41%, e o senador permanece com os mesmos 31%. A vantagem do presidente, que havia chegado a nove pontos, agora é de dez pontos.
O caso Master passou a ocupar posição importante no tabuleiro eleitoral. De um lado, desgastou Flávio pelo episódio Dark Horse. De outro, a direita tenta associar o escândalo ao governo Lula a partir das denúncias contra Jaques Wagner, líder do governo no Senado.
Trump não resolve o problema de Flávio
A tentativa de Flávio Bolsonaro de buscar projeção internacional ao lado de Trump ocorre justamente em um momento de desgaste interno. O senador precisa ampliar seu alcance para além da base bolsonarista, reduzir rejeição e recuperar terreno contra Lula.
O Datafolha, porém, indica que o apoio de Trump não é capaz de cumprir sozinho esse papel. Para 65% dos brasileiros, o endosso do presidente dos Estados Unidos é irrelevante. Entre os demais, o efeito positivo e o negativo praticamente se anulam.
Esse quadro sugere que o alinhamento com Trump pode ser útil para consolidar o eleitorado mais ideológico da direita, mas não necessariamente para vencer uma eleição nacional marcada por temas como renda, segurança, soberania, economia e confiança política.
Maioria resiste à importação da disputa estadunidense
O resultado também mostra que a maioria dos eleitores brasileiros não parece disposta a importar automaticamente para o Brasil a lógica da política estadunidense. O apoio de Trump, ainda que simbólico para a extrema direita internacional, não se converte em vantagem ampla no eleitorado nacional.
Esse dado é relevante porque o bolsonarismo construiu parte de sua identidade política a partir da aproximação com Trump e com setores da direita dos Estados Unidos. A pesquisa mostra, porém, que essa conexão tem limites claros no Brasil.
Para a maioria dos eleitores, a escolha presidencial parece continuar determinada por fatores internos, como avaliação do governo, condições econômicas, segurança pública, políticas sociais, rejeição aos candidatos e percepção sobre os escândalos em curso.
Lula segue liderando no cenário nacional
Enquanto o apoio de Trump se mostra indiferente para a maioria, Lula mantém a liderança no Datafolha. O presidente aparece com 41% no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Na pesquisa espontânea, Lula também lidera, com 30%, enquanto o senador registra 17%.
Nas simulações de segundo turno, Lula vence todos os adversários testados. Contra Flávio, o placar é de 47% a 43%. Contra Ronaldo Caiado, Lula tem 47%, ante 41%. Contra Romeu Zema, o presidente aparece com 48%, contra 39%.
O contraste entre a liderança de Lula e a indiferença majoritária ao apoio de Trump reforça um ponto central da pesquisa: a eleição brasileira segue sendo decidida principalmente por fatores nacionais.
Aval estrangeiro tem alcance limitado
O Datafolha mostra que o apoio de Trump a um candidato brasileiro não é irrelevante para todos os eleitores, mas tampouco tem força para redefinir a disputa. Ele mobiliza uma minoria, provoca rejeição em outra parcela semelhante e não altera a disposição de voto da ampla maioria.
Para Flávio Bolsonaro, o dado acende um alerta. A proximidade com o presidente dos Estados Unidos pode animar a base conservadora, mas não resolve os desafios centrais de sua candidatura: reduzir a distância para Lula, diminuir rejeição e superar o desgaste do caso Dark Horse.
Para Lula, o levantamento reforça a importância de manter a disputa no terreno da soberania, da defesa dos interesses nacionais e da comparação direta com o bolsonarismo. O Datafolha indica que, para a maioria dos brasileiros, o aval de Trump não decide voto — e que a eleição de 2026 continuará sendo julgada, sobretudo, pelos problemas e escolhas do próprio Brasil.




