Emails trocados entre Epstein e Chomsky citam Lula como “prisioneiro político mais importante do mundo”
Mensagens divulgadas pelo governo dos EUA revelam conversas sobre visitas a Lula na prisão e avaliações políticas feitas pelo linguista norte-americano
247 - Mensagens atribuídas ao linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky, trocadas com o financista Jeffrey Epstein, revelam referências diretas ao então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o período em que esteve preso em Curitiba, em 2018. Nos e-mails, Chomsky relata visitas à carceragem da Polícia Federal e classifica Lula como uma das figuras políticas mais relevantes do cenário internacional naquele momento.
As informações constam em documentos tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e analisados em reportagem da BBC News Brasil, a partir do acervo do caso Epstein, criminoso sexual condenado nos EUA e encontrado morto em 2019. Os arquivos incluem comunicações privadas envolvendo intelectuais, empresários e atores políticos de diferentes países.
Em um e-mail datado de setembro de 2018, Chomsky informa a Epstein que estava no Brasil com a esposa, Valeria, participando de atividades do movimento Lula Livre, que defendia a libertação do presidente brasileiro. “No Brasil, muito envolvido em atividades do ‘Lula Livre’ (Valeria e eu o visitamos na prisão ontem) e outros compromissos”, diz a mensagem atribuída ao linguista.
À época, Lula estava preso na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, onde permaneceu por 580 dias, após condenações por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da operação Lava Jato. O ex-presidente foi impedido de disputar as eleições de 2018. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações, ao entender que seus direitos não foram respeitados nos processos conduzidos pelo então juiz Sergio Moro.
Os novos documentos também retomam um episódio já mencionado em divulgações anteriores do caso Epstein. Em novembro, arquivos indicaram uma suposta ligação telefônica envolvendo Epstein, Chomsky e Lula, ainda durante o período de prisão. “Chomsky me ligou com Lula. Da prisão. Que mundo.”, diz uma mensagem atribuída ao financista.
A alegação foi negada por Valeria Chomsky, que afirmou à CNN Brasil que a informação era “infundada e mentirosa”, explicando que visitantes deixavam os celulares na recepção e passavam por revista da Polícia Federal antes das visitas. O Palácio do Planalto também negou, em nota, que a ligação tenha ocorrido.
Outro e-mail, de dezembro de 2018, traz uma avaliação política mais detalhada de Chomsky sobre o caso Lula. Na mensagem, o linguista afirma: “Conseguimos visitar Lula, o prisioneiro político mais importante do mundo, preso logo antes da eleição que ele provavelmente venceria, na última etapa do golpe da direita que vem ocorrendo há vários anos.”
Na mesma comunicação, Chomsky descreve as condições de encarceramento do ex-presidente brasileiro. “Ele está em confinamento solitário, sem acesso a qualquer material impresso, com direitos de visita muito limitados, uma TV sintonizada em um canal do governo e sem o direito de fazer qualquer declaração pública”, escreveu. Em outro trecho, acrescenta: “É chocante a falta de atenção do mundo a isso.”
As trocas de mensagens não se limitam ao tema brasileiro. Em um dos diálogos, Chomsky aconselha Epstein a não publicar um artigo de opinião no jornal The Washington Post, no qual o financista pretendia defender o acordo judicial firmado em 2008. “Acho que a reação será do tipo ‘onde há fumaça, há fogo’”, escreveu o linguista.
O acervo inclui ainda conversas entre Epstein e Steve Bannon, ex-conselheiro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em uma das mensagens, Epstein alerta Bannon antes de um possível encontro com Chomsky. “A esposa dele é brasileira, então vá com calma ao falar de Bolsonaro. Eles são amigos do Lula”, afirma o texto atribuído ao financista.
Na sequência, Epstein acrescenta: “Ele vai querer saber se você está do lado dos pequenos: corte de impostos, ataques à saúde pública e as ameaças bolsonaristas aos trabalhadores organizados.” Após o encontro, Bannon confirma que se reuniu com Chomsky e o descreve como um “grande cavalheiro”, embora o considere “brilhante, mas fraco em alguns fatos básicos”.
As mensagens reforçam a proximidade entre Epstein e Chomsky, que mantiveram contato frequente ao longo dos anos. Segundo Barry Levine, autor de um livro sobre a rede de Epstein, o linguista estava entre os clientes financeiros atendidos pelo financista. Em entrevista à BBC, Levine afirmou que Epstein se destacava pelo domínio do sistema tributário norte-americano. “Ele entendia o código tributário e as finanças melhor do que talvez as pessoas mais bem pagas de Wall Street”, disse.
Em declarações anteriores ao Wall Street Journal, Chomsky afirmou que Epstein o ajudou em transferências financeiras, sem envolvimento direto de recursos do financista. “Eu o conhecia e nos encontrávamos ocasionalmente”, declarou. Sobre a condenação de Epstein, acrescentou: “O que se sabia sobre Jeffrey Epstein era que ele havia sido condenado por um crime e cumprido sua pena.”
A divulgação dos e-mails amplia a compreensão sobre os bastidores internacionais que cercaram a prisão de Lula e evidencia como o caso repercutiu entre intelectuais e atores políticos fora do Brasil, a partir de registros privados que agora se tornam públicos.


