Empresa de Ciro Nogueira comprou ações de Vorcaro com 92% de desconto para receber ‘dividendos’
Relatório da Polícia Federal indica que operação envolvendo Daniel Vorcaro teria permitido repasse de lucros à empresa do senador
247 - A Polícia Federal (PF) identificou indícios de uma operação societária considerada atípica envolvendo uma empresa ligada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e negócios relacionados ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo informações publicadas originalmente pelo jornal O Globo, investigadores apuram se a transação foi utilizada para viabilizar o pagamento de vantagens indevidas ao parlamentar por meio da distribuição de dividendos.
De acordo com a investigação, uma empresa da qual Ciro Nogueira é sócio adquiriu participação societária em uma companhia vinculada ao grupo de Vorcaro por um valor significativamente inferior ao estimado em avaliações internas. A PF sustenta que a operação permitiu à empresa do senador acessar rapidamente lucros distribuídos por outra companhia do grupo, recuperando quase todo o valor investido em apenas três meses.
As suspeitas surgiram a partir de um alerta do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou uma movimentação de R$ 1 milhão relacionada ao negócio. A partir da análise de documentos e mensagens interceptadas, os investigadores concluíram que teria sido montada uma estrutura societária para conferir aparência de legalidade ao repasse de recursos.
Mensagens anexadas ao inquérito e apresentadas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), mostram conversas entre Daniel Vorcaro e familiares sobre a busca por mecanismos que permitissem a geração de dividendos. Em uma das mensagens, enviada em janeiro de 2024 ao primo Felipe Vorcaro, o empresário afirmou: "Preciso de um lugar que dê para gerar dividendos".
Segundo a PF, Vorcaro, com o auxílio de seu cunhado Fabiano Zettel, buscava uma forma de efetuar pagamentos a uma pessoa física sem despertar a atenção dos sistemas de controle e conformidade utilizados por instituições financeiras.
A operação investigada envolveu a Green Investimentos, empresa que pertencia integralmente a um fundo ligado a Vorcaro. Em abril de 2024, a CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa que tem Ciro Nogueira entre os sócios, adquiriu 30% da companhia por R$ 1 milhão.
No entanto, a Polícia Federal afirma que avaliações internas produzidas pelo próprio administrador do fundo estimavam o valor total da Green em R$ 43,5 milhões. Com base nesses números, a participação de 30% deveria ter custado aproximadamente R$ 13 milhões. Assim, os investigadores calculam que a aquisição ocorreu com desconto de cerca de 92,3%.
Outro aspecto considerado incomum pela PF diz respeito ao destino dos recursos pagos na transação. Conforme o relatório, em uma operação convencional de venda de participação societária, os valores deveriam ser direcionados ao fundo vendedor. Neste caso, porém, o montante de R$ 1 milhão teria ingressado diretamente no caixa da própria empresa cujas ações estavam sendo negociadas.
Para os investigadores, esse formato reforça a hipótese de que a estrutura foi desenhada artificialmente para atender a objetivos específicos. A PF também aponta que o negócio foi mantido inicialmente por meio de um instrumento particular, sem registro público imediato.
Em outra mensagem interceptada, enviada em abril de 2024, Felipe Vorcaro destacou a necessidade de manter a operação restrita naquele momento. Segundo ele, "Só importante estar alinhado que neste momento precisamos disso somente como instrumento particular, pois o Acordo de Acionistas Trinity acaba restringindo essa operação, pois tem direito de preferência".
A Green Investimentos possuía participação acionária na Trinity Energias Renováveis, empresa do setor elétrico. Três meses após a assinatura do contrato, em julho de 2024, a Trinity realizou uma distribuição anual de lucros no valor de R$ 2,4 milhões.
De acordo com os cálculos apresentados pela Polícia Federal, a fatia de 30% atribuída à empresa ligada ao senador corresponderia a aproximadamente R$ 720 mil. No relatório, os investigadores destacam que o valor recebido em dividendos se aproximava do investimento inicial realizado pela CNLF.
“Considerando que os 30% atribuídos à empresa ligada ao senador Ciro Nogueira corresponderiam, proporcionalmente, ao montante de aproximadamente R$ 720 mil verifica-se que, em um único exercício, tal valor se aproxima do montante integral supostamente investido, indicando que, em curto espaço de tempo, o investimento inicial estaria praticamente recuperado”, afirmou a PF.



