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Familiares, servidores e dinheiro vivo ocultavam pagamentos de Vorcaro a Ciro Nogueira

Relatórios do Coaf apontam suposto esquema com empresas familiares, terceiros e dinheiro em espécie para ocultar repasses ao senador

Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro (Foto: Reprodução / Polícia Federal)
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247 - A Polícia Federal aponta que uma estrutura empresarial ligada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) teria usado familiares, servidores públicos, beneficiários de programas sociais e movimentações em dinheiro vivo para ocultar recursos considerados ilícitos, parte deles supostamente relacionada ao ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a uma mesada paga ao parlamentar, informa a Folha de São Paulo.

A suspeita aparece em uma análise feita por investigadores a partir de Relatórios de Inteligência Financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Os documentos descrevem movimentações de um grupo vinculado ao clã de Ciro Nogueira, com atuação no Piauí e no Maranhão, e apontam a existência de um “circuito integrado” entre empresas das famílias Nogueira e Vorcaro.

No centro da apuração estão a CNLF, ligada ao senador, e a BRGD, controlada por Vorcaro e seus parentes. De acordo com a PF, esse fluxo financeiro teria viabilizado o pagamento de ao menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025, período que coincide com o agravamento da crise no Banco Master e com tentativas de preservar os negócios do ex-banqueiro.

A investigação aponta uma possível estratégia de lavagem de dinheiro estruturada por meio de empresas familiares, circulação de valores dentro do próprio grupo econômico, uso de numerário em espécie e interposição de terceiros. Para os investigadores, esses mecanismos teriam servido para ocultar, dissimular e reinserir valores de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos.

A PF afirma que as estruturas analisadas não funcionavam de maneira isolada. Segundo o relatório, elas operavam “de modo articulado, por meio de empresas do núcleo familiar, circulação intragrupo, uso intensivo de numerário [dinheiro] em espécie e interposição de terceiros, inclusive agentes públicos”. A conclusão dos investigadores é que Ciro Nogueira aparece como possível beneficiário final do esquema.

A Folha de São Paulo informa que procurou a assessoria de imprensa de Ciro Nogueira no fim da tarde de terça-feira (16), mas não recebeu resposta até a publicação do texto. A defesa de Daniel Vorcaro também foi contatada por e-mail e WhatsApp, sem retorno até aquele momento.

Relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro é investigada

As investigações já teriam identificado diferentes indícios de proximidade entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro. Entre os elementos citados estão o pagamento de diárias em hotéis de luxo em Nova York e na Europa, viagens conjuntas e repasses em dinheiro vivo. Segundo a PF, Vorcaro também se referia ao senador como “grande amigo de vida”.

De acordo com os investigadores, os recursos chegariam ao grupo ligado a Ciro por meio da BRGD, administrada por Felipe Vorcaro, primo de Daniel. A movimentação teria ocorrido com o uso da fintech PJBank. No período analisado, entre 2020 e 2025, a fintech teria enviado R$ 3 milhões ao grupo do senador, embora, segundo a PF, não tivesse autorização do Banco Central para esse tipo de transação.

A Folha de São Paulo informou que também buscou a assessoria de imprensa da instituição financeira na noite de terça-feira (16), mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.

Empresas do clã Nogueira teriam recebido e redistribuído valores

Após a entrada dos recursos, a PF afirma que duas empresas da família Nogueira teriam papel central no suposto esquema: a CNLF e a CN Motos, que atua no comércio de motocicletas. A primeira tem como sócios o senador e quatro familiares. A segunda reúne Ciro Nogueira e mais dois sócios.

Na avaliação dos investigadores, essas empresas teriam recebido valores ilícitos, misturado os recursos a receitas consideradas legítimas e, posteriormente, redistribuído o dinheiro dentro da estrutura familiar e empresarial vinculada ao senador.

A PF destaca que relatórios do Coaf citam especificamente Ciro Nogueira e somam, segundo levantamento da reportagem, mais de R$ 13 milhões em movimentações financeiras suspeitas dentro da rede investigada.

“Em síntese”, afirma a PF, os dados indicariam um “circuito integrado” envolvendo aportes feitos pela BRGD, pagamentos via PJBank, dinheiro em espécie e posterior passagem dos valores pelas empresas ligadas ao clã do senador. A investigação sustenta que as companhias misturavam os recursos com dinheiro lícito e promoviam a “redistribuição de valores dentro do grupo familiar/econômico, tendo Ciro Nogueira como possível beneficiário final”.

Depósitos em espécie e servidores públicos entram no foco da PF

No caso da CN Motos, os investigadores apontam que um funcionário chamado Bernardo realizou R$ 3,5 milhões em depósitos em espécie para a empresa. Segundo a PF, essas operações ocorreram em períodos próximos a transferências posteriores da companhia para a pessoa física do senador.

Os registros do Coaf também indicam que a empresa de venda de motocicletas recebeu ao menos R$ 1,2 milhão de servidores públicos com atuação no Piauí, no Maranhão e em estruturas da União.

Para a PF, esse tipo de movimentação sugere o uso de terceiros para reduzir a exposição direta do agente político investigado. “Esse padrão indica possível utilização de terceiros como instrumento de ocultação do real beneficiário das despesas e dos fluxos financeiros, reduzindo a exposição direta do agente político principal”, afirmam os investigadores.

A investigação também chama atenção para o perfil financeiro de algumas pessoas envolvidas nas transações. Parte delas teria baixa renda formal e, em determinados casos, teria recebido benefícios de programas sociais do governo federal, o que levou a PF a levantar a hipótese de uso de laranjas.

Um dos casos citados envolve uma pessoa que recebia R$ 2.000 por mês, mas transferiu R$ 90 mil para a CN Motos em um ano. Outro exemplo mencionado pela investigação é o de alguém que recebeu auxílio emergencial durante a pandemia de Covid-19 e, no mesmo intervalo de tempo, pagou R$ 143 mil à empresa.

Transações com empresa de Teresina e deputado também são citadas

No sentido inverso do fluxo financeiro, a CN Motos repassou R$ 412 mil a uma pequena empresa localizada em Teresina, capital do Piauí. A companhia tem capital social de R$ 20 mil e uma única sócia, funcionária da Assembleia Legislativa do estado, com salário atualmente em torno de R$ 4.000.

A PF também identificou transações envolvendo parlamentares. Entre elas está um pagamento de R$ 357 mil feito pelo deputado federal Jadyel Alencar (Republicanos-PI) à CN Motos. Procurado pela reportagem, ele afirmou que o valor corresponde a parte da compra de um avião.

A apuração da PF, baseada nos relatórios do Coaf, sustenta que os indícios reunidos apontam para uma engrenagem financeira voltada à ocultação e circulação de recursos entre empresas, familiares e terceiros, tendo como possível beneficiário final o senador Ciro Nogueira.

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