Empresa dos Toffoli mantém capital social de R$ 150 apesar de operações milionárias
Maridt Participações, associada ao ministro do Dias Toffoli e seus irmãos, movimentou milhões no resort Tayayá e entrou no radar após caso Banco Master
247 - A Maridt Participações S.A., empresa vinculada ao ministro do STF Dias Toffoli e seus irmãos, foi criada em 2020 com um capital social de apenas R$ 150, valor considerado incomum para uma companhia que posteriormente realizou transações milionárias no setor de hotelaria e investimentos societários. As informações são da Folha de São Paulo.
A companhia foi fundada em agosto de 2020, inicialmente sob o nome Plataforma 27S Participações S.A., por dois empresários de São Paulo. Poucos meses depois, em outubro daquele ano, o controle foi transferido aos irmãos José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, que pagaram o mesmo valor do capital social original: R$ 150.
A empresa havia sido registrada em nome do advogado André Fonseca e do empresário Tiago Bernardino. Ambos são proprietários da Approved Legal, prestadora de serviços voltados a advogados e contadores, especializada em abertura e regularização societária.
À Folha, Tiago Bernardino disse que a Approved foi procurada por um advogado para realizar o serviço de abertura empresarial em nome dos irmãos do ministro. Ele afirmou não se recordar quem foi o responsável pela contratação e relatou que, ao tentar localizar registros internos, não encontrou detalhes por se tratar de uma demanda antiga.
"Fomos contactados por um advogado solicitando serviço de paralegal societário, realizamos todos os registros de atualizações societárias, concluímos o trabalho, e posterior a isso não tivemos mais contato. Como somos uma empresa especializada em paralegal societário, geralmente o advogado nos procura por indicação de alguém ou por busca na internet, realizamos todos os trâmites societários dos registros e atualização dos cadastros", afirmou Bernardino.
Depois da transferência do CNPJ, a companhia passou a se chamar Maridt Participações S.A. e teve a sede alterada da capital paulista para Marília (SP), cidade onde vivem os irmãos Toffoli. Bernardino afirmou que não voltou a ter contato com os administradores após essa mudança.
Procurados pela reportagem, os irmãos não responderam.
Capital social permaneceu em R$ 150 desde a criação
De acordo com registros da Junta Comercial de São Paulo, o capital social da Maridt permaneceu inalterado desde sua constituição e segue registrado no valor de R$ 150.
Apesar disso, a empresa movimentou milhões em negociações envolvendo direitos societários do resort Tayayá, empreendimento de luxo situado em Rio Claro (PR). O local é conhecido por ter imóveis de alto padrão e por abrigar uma casa do ministro do STF Dias Toffoli.
Resort Tayayá virou centro das movimentações financeiras
Em setembro de 2021, pouco mais de um ano após a criação da companhia, os irmãos Toffoli passaram a integrar a sociedade do Tayayá junto com o empresário Euclides Gava Jr. e Mario Umberto Degani, primo dos irmãos.
Naquele período, os irmãos adquiriram um terço das cotas do resort por R$ 370 mil e também realizaram investimentos em outra empresa do grupo societário, a DGEP.
Ainda no mesmo mês, segundo documentos da Junta Comercial do Paraná, os irmãos transferiram metade de suas participações no Tayayá e na DGEP ao fundo de investimentos Arleen. O fundo pagou R$ 620 mil por metade da fatia no resort — o dobro do valor pago anteriormente — e desembolsou R$ 2,5 milhões por metade da participação na DGEP.
Fundo Arleen apareceu em rede ligada a Daniel Vorcaro
Embora o fundo Arleen não esteja formalmente entre os investigados no caso do Banco Master, ele aparece citado como parte de uma rede de fundos por onde circulariam recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e de seus sócios, fora do alcance imediato das autoridades.
Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o fundo Arleen seria controlado por outro fundo, o Leal, ligado ao pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
O Banco Master, controlado por Vorcaro, foi apontado em apurações do Banco Central como peça central de um esquema de fundos de investimento suspeitos de lavar dinheiro e operar fraudes no sistema financeiro.
Saída do negócio rendeu R$ 3,5 milhões aos irmãos Toffoli
Em fevereiro de 2025, quando deixaram a sociedade ligada ao Tayayá, os irmãos Toffoli receberam um total de R$ 3,5 milhões pagos por Paulo Humberto Costa, atual proprietário do resort e também advogado.
De acordo com a reportagem, a Polícia Federal investiga essa transação. Segundo explicações atribuídas ao ministro Dias Toffoli a interlocutores, ele teria recebido valores da Maridt por ser sócio da empresa familiar junto a outros parentes.
Dias Toffoli confirma participação societária e nega relação com Vorcaro
Em nota divulgada na manhã desta quinta-feira (12), Dias Toffoli confirmou ser sócio da Maridt, descrevendo-a como uma empresa familiar administrada por parentes, com declarações anuais à Receita Federal.
O ministro argumentou que a Lei Orgânica da Magistratura permite que magistrados integrem quadros societários e recebam dividendos, desde que não exerçam atos de gestão como administradores. Também afirmou que todas as operações foram declaradas à Receita Federal e que os valores seriam compatíveis com o mercado.
Toffoli ainda declarou que, quando assumiu a relatoria das investigações envolvendo o Banco Master, em novembro de 2025, a Maridt já não fazia mais parte do grupo societário do Tayayá, e disse não conhecer quem administrava o fundo Arleen.
"O ministro desconhece o gestor do Fundo Arllen, bem como jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro. Por fim, o Ministro esclarece que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel.", disse em nota.
Especialistas apontam estranheza em capital simbólico para empresa milionária
Advogados ouvidos pela Folha afirmaram que empresas com capital social tão baixo são raras entre companhias que movimentam cifras elevadas, embora não sejam necessariamente ilegais. Segundo eles, o ponto central seria entender a origem dos recursos utilizados nas operações.
Felipe Ronco, sócio do MKR Advogados, afirmou que não há impedimento formal para que uma sociedade com capital social de R$ 150 compre participações milionárias, mas destacou que o essencial é rastrear a procedência do dinheiro.
"Em tese, nada impede que uma sociedade com capital social de R$ 150 adquira uma participação em outra sociedade pelo valor de R$ 6 milhões. O que resta saber é qual a origem desses recursos", disse Ronco.
Possíveis explicações incluem antecipações de capital e reservas contábeis
Segundo Ronco, uma hipótese seria que os irmãos tenham realizado Afacs (antecipação de recursos para futuro aumento de capital), prática comum em empresas que se preparam para expansão ou buscam crédito, mas que ainda não foi formalizada como aumento oficial de capital social.
Outra possibilidade levantada é que recursos obtidos na própria atividade do Tayayá tenham sido acumulados como reservas, com expectativa de uso em novas participações societárias.
Guilherme Champs, sócio do Champs Law, explicou que empresas podem optar por não atualizar imediatamente valores contábeis para reduzir impactos tributários em ganhos futuros.
"Isso acontece no mercado imobiliário, quando você tem uma casa, reconhece o valor do terreno, mas não indica eventuais investimentos e melhorias realizados no imóvel. Quando você vende, você vai ter um ganho maior, que é a diferença entre o valor declarado inicialmente e o valor das melhorias, mas vai ter uma tributação em cima. Nas empresas, o que a contabilidade costuma fazer é atualizar esse valor [do capital social] para diminuir o impacto tributário de um ganho econômico", afirmou Champs.
Reag Investimentos e operações policiais entram no pano de fundo do caso
A reportagem também destaca que a Reag Investimentos, administradora do fundo Arleen, é investigada em operações policiais como Carbono Oculto, que apura a presença do crime organizado no mercado financeiro, e Compliance Zero, que investiga fraudes no sistema financeiro.
A empresa foi liquidada pelo Banco Central em janeiro, no contexto das apurações que envolveram o Banco Master e estruturas financeiras ligadas a Daniel Vorcaro.
Mesmo com o capital social simbólico registrado desde 2020, a Maridt passou a figurar no centro de um enredo que envolve negócios milionários, fundos de investimento suspeitos e a atuação de um ministro do Supremo Tribunal Federal, agora sob escrutínio público após a intensificação das investigações financeiras relacionadas ao caso Master.


