Encontro reúne governo do Brasil e comunidade judaica no combate ao antissemitismo
Reunião no Planalto discute educação, democracia e enfrentamento aos crimes de ódio
247 - Representantes do governo federal e de diferentes setores da comunidade judaica brasileira participaram, nesta quarta-feira (28), de uma reunião inédita no Palácio do Planalto para discutir ações de combate ao antissemitismo no país. O encontro reuniu autoridades do Poder Executivo, pesquisadores, lideranças religiosas e representantes de instituições culturais e movimentos sociais.
A iniciativa, realizada em Brasília, foi noticiada originalmente pelo governo federal e teve como objetivo promover diálogo direto sobre educação, democracia e enfrentamento às manifestações de ódio. Participaram pesquisadores de universidades de cinco estados, rabinos, integrantes do Museu do Holocausto de Curitiba, além de representantes de movimentos como Judeus pela Democracia e Casa do Povo.
Participação de ministros e autoridades
Pelo governo, estiveram presentes o presidente da República em exercício e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, as ministras Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais, Macaé Evaristo, dos Direitos Humanos e da Cidadania, Esther Dweck, da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, e Maria Laura, ministra substituta das Relações Exteriores. Também participou a chefe da Assessoria Especial de Apoio ao Processo Decisório da Presidência da República, Clara Ant.
Geraldo Alckmin avaliou positivamente o encontro. "Eu tenho certeza de que ele vai trazer bons frutos, boas propostas, para que a gente possa avançar nesse diálogo, principalmente combatendo toda a forma de discriminação e de ódio", afirmou. Segundo ele, a contribuição histórica da comunidade judaica ao país é ampla. "Ela enriqueceu o nosso país sob todos os aspectos", disse.
Compromisso do governo contra o preconceito
A ministra Gleisi Hoffmann afirmou que o enfrentamento ao antissemitismo integra o compromisso do governo Lula de combater todas as formas de preconceito e discriminação. Ela lembrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro chefe de Estado brasileiro a realizar uma visita oficial a Israel, em 2010, e ressaltou a posição da diplomacia brasileira em defesa da coexistência de dois Estados soberanos, Israel e Palestina.
A ministra Macaé Evaristo destacou a relação entre democracia e combate aos discursos de ódio. Para ela, o fortalecimento das instituições democráticas é central para enfrentar manifestações de intolerância. A ministra também ressaltou que a reunião já estava prevista desde o ano passado e não foi motivada por fatos recentes divulgados na imprensa ou nas redes sociais.
O presidente da Confederação Israelita do Brasil, Claudio Lottenberg, afirmou que a iniciativa ocorre em um contexto de crescimento do antissemitismo em escala global. "Nós temos que lutar contra todo e qualquer tipo de intolerância", declarou, ao avaliar a importância do diálogo promovido pelo governo.
O encontro foi marcado pelo caráter participativo, com espaço de fala garantido a todos os presentes. Entre os principais temas discutidos, a educação apareceu como eixo central no enfrentamento aos crimes de ódio. Gleisi Hoffmann afirmou que propostas educacionais amplas são fundamentais diante do cenário atual.
Educação como eixo central
A professora Lilia Schwarcz, da Universidade de São Paulo, participou da reunião de forma remota e ressaltou a importância da educação no combate ao antissemitismo. "O antissemitismo é crime e precisa ser tipificado", afirmou. Para ela, embora a denúncia e a judicialização sejam relevantes, é necessário ampliar as formas de atuação por meio de políticas educacionais.
Segundo a professora, o tema do antissemitismo aparece de forma limitada no currículo escolar. Ela defendeu a ampliação do debate para além do 9º ano do ensino fundamental e a construção de políticas educacionais articuladas com o Ministério da Educação. "O antissemitismo é um problema da democracia brasileira", afirmou.
Agenda em São Paulo e distribuição de material
A reunião em Brasília ocorreu dois dias após a ministra Macaé Evaristo cumprir agenda em São Paulo junto à comunidade judaica, no contexto do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, celebrado na terça-feira (27). Na capital paulista, a ministra visitou organizações que atuam nas áreas de assistência social, cultura, memória e educação em direitos humanos.
Durante a agenda, Macaé Evaristo afirmou que o Estado brasileiro precisa reconhecer a história da comunidade judaica no país e construir políticas de enfrentamento ao antissemitismo a partir da experiência brasileira.
A presidente do Instituto Brasil-Israel, Ruth Goldberg, elogiou a iniciativa do governo. O instituto distribuiu aos participantes um guia contra o antissemitismo e um estudo sobre percepções da população brasileira a respeito dos judeus, do Estado de Israel e do conflito entre Hamas e Israel. Goldberg destacou a diversidade de representações presentes na reunião.
Negação de motivação antissemita no governo
A ministra Esther Dweck afirmou que o encontro também serviu para afastar a ideia de que exista qualquer motivação antissemita dentro do Poder Executivo. "O governo sempre esteve aberto a ouvir", declarou.
O governo federal destacou que o combate ao antissemitismo no Brasil é respaldado pela Constituição Federal de 1988, que garante a liberdade religiosa, e pela Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei do Racismo, que criminaliza práticas de discriminação por religião, etnia ou origem.
Marco legal e compromisso internacional
O Brasil também é signatário de tratados internacionais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção Internacional contra a Discriminação Racial, que fortalecem o enfrentamento à intolerância.
Na terça-feira (27), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressaltou a importância do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, lembrando sua atuação junto à Organização das Nações Unidas para a instituição da data. Em julho de 2023, Lula sancionou a lei que criou o Dia Nacional da Lembrança do Holocausto, celebrado em 16 de abril.

