Escândalo do banco Master provoca crise entre TCU e STF
Caso envolve suspeitas de interferência, disputas institucionais e investigações sobre fraude bancária com impacto inédito no sistema financeiro brasileiro
247 - O escândalo envolvendo o banco Master provocou uma escalada de tensões entre instituições como o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Supremo Tribunal Federal (STF), em meio a investigações que expuseram suspeitas de interferência, articulações políticas e disputas jurídicas. As informações foram reveladas em reportagem da Folha de S.Paulo publicada neste sábado (18/4), que detalha os bastidores do caso e seus desdobramentos.
No fim de 2025, durante as celebrações de Réveillon em um resort no Paraná, o então relator do caso no STF, ministro Dias Toffoli, acompanhava à distância os desdobramentos da investigação. Naquele momento, chamou atenção a decisão considerada incomum de convocar uma acareação entre envolvidos antes mesmo de depoimentos individuais serem colhidos, elevando a tensão em Brasília em pleno período de recesso.
O dono do banco Master, Daniel Vorcaro, havia sido preso em novembro, no dia da liquidação da instituição, mas foi solto dez dias depois, passando a usar tornozeleira eletrônica. Mesmo assim, iniciou uma ofensiva contra o Banco Central e a Polícia Federal, além de pressionar ministros do Supremo. Essa atuação contou com o apoio de diversos escritórios de advocacia e incluiu movimentações no TCU e campanhas digitais coordenadas.
Segundo relatos obtidos pela reportagem, a estratégia tinha como objetivo questionar a atuação do Banco Central, que vetou a venda do Master ao BRB, além de tentar anular o processo de liquidação da instituição financeira. A Polícia Federal chegou a abrir um inquérito para apurar a atuação de perfis que promoviam ataques coordenados contra autoridades e órgãos envolvidos no caso.
No TCU, o relator do processo, ministro Jhonatan de Jesus, determinou sigilo máximo e pressionou pela abertura de uma inspeção no Banco Central, com apoio do presidente da Corte, Vital do Rêgo. Internamente, porém, houve desconforto entre outros ministros. O decano Walton Alencar chegou a articular, junto a colegas, uma possível reação caso decisões monocráticas favorecessem Vorcaro durante o recesso.
A atuação de Jhonatan também passou a ser questionada. O subprocurador-geral do Ministério Público de Contas, Lucas Furtado, pediu apuração da conduta do ministro. Ele afirmou: “As ramificações e interferências indevidas do Banco Master levam a desconfiar da própria sombra. Há muito dinheiro envolvido. Qualquer preocupação ou desconfiança pode ser justificada”.
Em resposta, o TCU reiterou que o Banco Central está sujeito à fiscalização da Corte. Já a defesa de Vorcaro não comentou o caso, enquanto o Banco Central não respondeu aos questionamentos. O ministro Jhonatan negou ter agido a pedido do empresário e afirmou aguardar relatórios antes de levar o tema ao plenário. “A própria unidade técnica disse que as decisões do banco estavam normais. Eu faço a crítica: como é que estava normal com dois diretores envolvidos e vários ofícios feitos por diretores que estavam lá? E eu é que estou envolvido?”, declarou.
Diante do avanço das pressões, o setor financeiro reagiu de forma inédita, com associações de diferentes segmentos divulgando uma carta conjunta em defesa do Banco Central. A iniciativa foi interpretada como uma tentativa de conter o que era visto como uma ofensiva para deslegitimar a autoridade reguladora.
Paralelamente, surgiram informações sobre o conteúdo de celulares de Vorcaro, que incluíam mensagens com autoridades e figuras políticas. Em depoimento ao STF, ao ser questionado sobre políticos que frequentavam sua casa, o empresário declarou: “Tenho alguns amigos de todos os Poderes”.
O caso ganhou novos contornos com a revelação de contratos milionários envolvendo escritórios de advocacia ligados a familiares de ministros do Supremo, além de conexões empresariais indiretas. Toffoli, posteriormente, reconheceu ter recebido valores de uma empresa da qual era sócio com familiares, e deixou a relatoria do caso em fevereiro de 2026 após pressão interna e apresentação de evidências pela Polícia Federal.
A investigação passou então ao ministro André Mendonça. Segundo investigadores, o período anterior foi considerado um dos mais sensíveis da apuração, inclusive por envolver indícios relacionados a integrantes do Supremo, o que elevou o risco institucional.
Com a mudança de relatoria, a Polícia Federal avançou nas investigações. Vorcaro foi preso novamente em março de 2026, acusado de participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça. Mensagens encontradas em seu celular indicariam a existência de um grupo chamado “A Turma”, supostamente utilizado para intimidar adversários.
As apurações seguem em andamento e envolvem grande volume de dados, incluindo cerca de 400 gigabytes extraídos de um único aparelho do empresário, além de outros dispositivos apreendidos. A complexidade do material tem dificultado a previsão de conclusão do caso.
A quarta fase da operação foi deflagrada recentemente e resultou na prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, acusado de negociar benefícios ao banco Master em troca de imóveis. O episódio reforça a dimensão do escândalo, considerado por investigadores como um dos mais complexos já registrados no sistema financeiro brasileiro.
Para uma fonte ouvida pela reportagem, o caso se tornou impossível de ser contido: a dimensão das irregularidades transformou o escândalo em algo grande demais para ser ocultado.


