Esposa de deputado assina ação contra leilão de energia considerado estratégico pelo governo federal
Ação judicial protocolada por Fernanda Cristinne Rocha de Paula, esposa do deputado Danilo Forte, pede suspensão do LRCAP 2026
247 - A ofensiva contra o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026 ganhou novos desdobramentos após a advogada Fernanda Cristinne Rocha de Paula, esposa do deputado federal Danilo Forte (PP-CE), assinar uma ação civil pública que busca suspender o certame na Justiça Federal.
Protocolada na 6ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal em nome da Abraenergias, a ação pede liminar para impedir homologações, contratos e demais atos ligados ao LRCAP 2026. O movimento ocorre simultaneamente à intensificação das investidas de Danilo Forte no Congresso Nacional e em órgãos de controle para tentar barrar o certame.
Nos últimos dias, o deputado solicitou ao Tribunal de Contas da União (TCU) a suspensão do leilão e acionou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para investigar suposta formação de cartel e abuso de poder econômico relacionados ao processo de contratação de energia.
O debate em torno do LRCAP ocorre em um momento de forte tensão no setor elétrico brasileiro. O governo federal e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) defendem que o país precisa ampliar a contratação de potência firme e despachável — especialmente por meio de usinas termelétricas — para assegurar estabilidade energética em horários críticos, quando a geração solar cai ao entardecer e a produção eólica diminui devido à redução dos ventos.
Nos bastidores do setor, a avaliação é que a suspensão ou o enfraquecimento do leilão interessa diretamente a grupos econômicos ligados à geração renovável, sobretudo empreendimentos solares e eólicos afetados pelos frequentes cortes obrigatórios de geração, conhecidos como curtailment. Entre os nomes citados está a Casa dos Ventos, empresa do empresário Mário Araripe.
Segundo registros públicos mencionados na reportagem original, César Araújo Alencar Araripe, irmão do empresário, realizou doações que somam ao menos R$ 40 mil para a campanha eleitoral de Danilo Forte em 2018.
Nos últimos anos, o avanço das fontes renováveis no Brasil foi impulsionado por subsídios bilionários financiados pelos consumidores por meio de encargos setoriais e descontos tarifários. Esse crescimento acelerado, entretanto, elevou a sobreoferta de energia em determinados horários, ampliando a necessidade de cortes de geração para preservar a estabilidade do Sistema Interligado Nacional.
A ação assinada pela esposa do deputado sustenta que sistemas de armazenamento por baterias — conhecidos como BESS (Battery Energy Storage Systems) — poderiam suprir parte relevante da demanda energética que o governo pretende contratar via termelétricas. Essa tese vem sendo defendida por setores ligados à expansão renovável como alternativa ao aumento da geração térmica.Especialistas do setor elétrico, porém, argumentam que as baterias ainda não substituem integralmente a necessidade de potência firme apontada pelo ONS como essencial para garantir estabilidade e segurança energética em momentos de maior demanda. Na avaliação desses especialistas, o principal efeito econômico de uma eventual derrota do LRCAP seria a redução do curtailment e o aumento da rentabilidade de empreendimentos renováveis atualmente afetados pelos cortes de geração.A disputa em torno do leilão também ganhou contornos empresariais após uma operação societária envolvendo a Casa dos Ventos e a francesa TotalEnergies. A multinacional adquiriu um terço da companhia em um acordo que inclui cláusula de earn-out — mecanismo contratual que condiciona pagamentos futuros ao desempenho do negócio. Na prática, o avanço de projetos, a redução do curtailment e a valorização dos ativos renováveis podem impactar diretamente o valor econômico da operação.
Documentos oficiais ainda apontam que Danilo Forte participou de reuniões governamentais ao lado de Mário Araripe em agendas relacionadas a projetos da Casa dos Ventos, incluindo encontros no Ministério de Minas e Energia e na Vice-Presidência da República.
Dois dias após uma dessas reuniões, avançou publicamente o projeto de implantação de um data center associado à Casa dos Ventos no Porto do Pecém, no Ceará — estado considerado reduto político do deputado. O empreendimento depende fortemente de infraestrutura elétrica, expansão de transmissão e disponibilidade energética, além de ter sido beneficiado pela Medida Provisória 1.307, cuja tramitação contou com atuação de Danilo Forte.
Enquanto a disputa regulatória se intensifica, representantes do setor energético alertam para os impactos econômicos de uma eventual paralisação do leilão. Estimativas indicam potencial de aproximadamente R$ 10 bilhões em investimentos e cerca de 4,5 mil empregos diretos e indiretos no Ceará vinculados a projetos previstos para avançar a partir do LRCAP 2026.



