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Ex-funcionário relata à PF viagem de filha de senador em avião do 'Careca do INSS'

Depoimento liga filha do senador Weverton Rocha a voo em jatinho de empresário investigado por esquema de descontos ilegais no INSS

Weverton Rocha (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

247 - Um ex-funcionário do empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, afirmou em depoimento à Polícia Federal que uma filha do senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo, teria viajado em uma aeronave pertencente ao empresário investigado. O relato integra as apurações da operação Sem Desconto, que investiga desvios em benefícios de aposentados do INSS. As informações constam de depoimento prestado à Polícia Federal no dia 12 de novembro e foram divulgadas pela Folha de São Paulo. Segundo o ex-funcionário, o episódio teria ocorrido em 21 de fevereiro de 2024, no aeroporto Catarina, em São Roque, no interior de São Paulo.

De acordo com o depoente, ele e Antunes teriam desembarcado no aeroporto paulista após um voo vindo de Brasília. Após o pouso, o lobista deixou o local e retornou cerca de duas horas depois com cinco malas. Ainda segundo o relato, uma mulher identificada pelo ex-funcionário como filha do senador Weverton Rocha teria aparecido em seguida, cumprimentado o empresário, e embarcado com eles de volta à capital federal.

Durante o voo, conforme o depoimento, a mulher comentou que vinha do exterior e disse se lembrar de Antunes de uma fazenda em São Luís, no Maranhão. Ao chegar a Brasília, duas das cinco malas teriam permanecido com o empresário, enquanto as outras três seguiram na aeronave apenas com a mulher, cujo destino final seria a capital maranhense.

O ex-funcionário já havia mencionado em outros depoimentos supostas ligações entre Weverton Rocha e Antunes. Em relato feito à PF em 29 de outubro, ele afirmou que, após a deflagração da operação Sem Desconto, o lobista teria dito estar tranquilo por contar com o apoio do senador, sem detalhar os motivos. Ainda segundo o depoente, Antunes teria afirmado que estava “desmontando o circo” em conjunto com o parlamentar.

A menção à filha do senador é tratada pelos investigadores como mais um elemento que conecta Weverton Rocha ao empresário, apontado pela Polícia Federal como figura central do esquema. O senador foi alvo de buscas em sua residência durante uma fase da operação, deflagrada em 18 de dezembro.

A assessoria de Weverton Rocha declarou que o depoimento do ex-funcionário “sequer foi considerado pela Procuradoria da República pela absoluta falta de materialidade e conexão com fatos em relação a mim”. Em nota, o senador afirmou: “Reitero que não tenho conexões financeiras com os investigados, assim como ninguém da minha família”.

Já a defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes contestou a credibilidade da testemunha. Segundo os advogados, o ex-funcionário “extorquiu, furtou e agora se aproveita da situação para inventar mentiras”.

A Polícia Federal sustenta que Weverton Rocha é suspeito de ter sido beneficiário final e sócio oculto do esquema, por meio de pessoas interpostas, como assessores parlamentares. De acordo com os investigadores, os principais envolvidos mantinham vínculos estreitos com agentes políticos, especialmente com o senador, apontado como sustentáculo político do grupo, o que teria ampliado a capacidade de influência e blindagem institucional da organização.

O pedido de prisão do parlamentar chegou a ser apresentado pela PF ao relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça, mas foi negado. A Procuradoria-Geral da República também não considerou necessária a medida.

Antunes está preso desde setembro, após as investigações indicarem que ele teria pago propina a servidores do INSS e do Ministério da Previdência para viabilizar descontos indevidos nos benefícios de aposentados. Em depoimento à CPI do INSS, o empresário afirmou que esteve em um churrasco na casa de Weverton Rocha, onde teria tratado apenas da regulação do mercado de derivados de cannabis, sem relação com aposentadorias. Ele também disse ter ido ao gabinete do senador em outras ocasiões, alegando que o interlocutor era Adroaldo Portal, então assessor de Weverton e hoje secretário-executivo do Ministério da Previdência, que foi colocado em prisão domiciliar na mesma operação.

Outros vínculos citados nas investigações envolvem o ex-assessor do senador Gustavo Gaspar, preso durante a operação, suspeito de ter facilitado movimentações bancárias ligadas ao esquema, além de menções a um suposto compartilhamento de aeronave entre Weverton e o lobista. Integrantes da CPI também apontam relações entre empresas ligadas ao senador e um contador que prestava serviços para firmas de Antunes, além do apoio do parlamentar à indicação de André Fidelis para a diretoria de Benefícios do INSS, cargo que ele ocupava quando foi preso em novembro.

Weverton Rocha ocupa uma cadeira no Senado pelo Maranhão desde 2018, quando foi eleito com 34,91% dos votos válidos, com apoio do então governador Flávio Dino, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal. Em 2022, concorreu ao governo do estado e foi derrotado por Carlos Brandão (PSB), candidato apoiado por Dino.

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