Extrema-direita atua como “orquestra de solistas”, diz Afonso de Albuquerque
Professor analisa julgamento de Eduardo Bolsonaro no STF, disputa interna no bolsonarismo e desafios do campo democrático em 2026
247 - O professor Afonso de Albuquerque afirmou, no Giro das Onze desta terça-feira (16), que a extrema direita brasileira vive uma disputa interna por protagonismo, marcada pela dificuldade de construir uma candidatura unificada contra Lula. Para ele, o bolsonarismo atua como uma “orquestra de solistas”, na qual todos disputam o papel principal, em meio ao julgamento de Eduardo Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal.
Durante o programa apresentado por Gustavo Conde, Afonso analisou a ação penal contra Eduardo Bolsonaro, acusado de atuar nos Estados Unidos para intimidar o Judiciário brasileiro, e relacionou o caso à fragmentação da direita, ao enfraquecimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e à disputa eleitoral de 2026.
Ao comentar o julgamento, Afonso afirmou que o caso envolve duas dimensões. “O primeiro é o que vai ser julgado, que é a coação. O segundo é a traição”, disse. Segundo ele, Eduardo Bolsonaro explicitou suas ações políticas nos Estados Unidos e produziu elementos que podem ser usados contra si mesmo. “O Eduardo tem essa qualidade de produzir provas contra si mesmo, de maneira aberta. O que ele fala está dito, não é interpretação”, afirmou.
Afonso avaliou que o episódio também fragiliza a tentativa da extrema direita de se apresentar como defensora dos símbolos nacionais. Segundo ele, desde as manifestações de 2013, 2014 e 2015, setores bolsonaristas se apropriaram da bandeira do Brasil e da camisa da seleção. No entanto, a ida de Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos, associada a pressões contra o Brasil, teria abalado essa narrativa. “Agora a ida do Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos e conspirando ativamente contra o Brasil, com ameaças militares, inclusive com a tarifa, esse discurso começa a perder força”, declarou.
O professor relacionou esse movimento ao ambiente da Copa do Mundo e disse que a bandeira nacional voltou a circular de maneira menos vinculada ao bolsonarismo. Para ele, a associação de Eduardo ao trumpismo também cria um problema político adicional, em um momento de desgaste internacional de Donald Trump.
No cenário eleitoral, Afonso afirmou que a extrema direita enfrenta um processo de fragmentação. “A lógica da extrema direita é uma lógica muito de solistas. É uma orquestra na qual todo mundo quer ser o solista da orquestra”, afirmou. Ele avaliou que esse comportamento dificulta a construção de uma candidatura única contra Lula e fortalece disputas internas entre grupos de direita.
Segundo Afonso, Flávio Bolsonaro não está necessariamente posicionado apenas para vencer a eleição, mas também para impedir que outro nome da direita ocupe o espaço principal da extrema direita. “O Flávio não está ali para ganhar a eleição. O Flávio está ali para impedir que outro ganhe da extrema direita”, disse. Para ele, o antipetismo segue sendo o principal eixo de sustentação desse campo, mas já não oferece uma proposta suficiente para o país.
Afonso também criticou a capacidade política de Flávio Bolsonaro, afirmando que ele não apresenta carisma nem propostas capazes de ampliar sua base. Ao tratar da possibilidade de ações de desestabilização durante a campanha, o professor disse que a extrema direita costuma atuar para além das regras institucionais. Ainda assim, defendeu que o campo democrático não deve agir movido pelo medo, pois, em sua avaliação, a reação defensiva em 2018 ajudou a dar protagonismo a Jair Bolsonaro.
Para Afonso, o contexto atual é diferente daquele que permitiu a ascensão de Bolsonaro. Ele afirmou que o ciclo da Lava Jato, os ataques às instituições e a cobertura da grande mídia criaram uma excepcionalidade que não se repete da mesma forma. O professor disse ainda que as instituições brasileiras se fortaleceram diante da ameaça representada pela extrema direita e que o STF compreende os riscos de uma nova ascensão desse campo.
O professor também analisou os obstáculos da esquerda para ampliar sua representação na Câmara dos Deputados. Para ele, faltou historicamente uma política mais eficiente de seleção de quadros e construção de maioria. Afonso apontou ainda o peso das verbas públicas distribuídas no período de Arthur Lira na presidência da Câmara como fator de fortalecimento de candidaturas de direita.
Ainda assim, ele avaliou que a divisão interna da direita pode abrir espaço para um desempenho melhor do campo progressista, especialmente se Lula consolidar vantagem na disputa presidencial. Segundo Afonso, candidatos a deputado e senador tendem, na reta final, a se aproximar do nome visto como favorito.



