Flávio Bolsonaro usou jatinhos de empresários em viagens com a família para Flórida e Rio de Janeiro
Registros do terminal executivo de Brasília apontam deslocamentos em aeronaves ligadas a empresários e ao advogado Willer Tomaz ao longo de 2025
247 – O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) realizou ao menos duas viagens com a família, em 2025, em jatinhos emprestados por empresários, segundo informações publicadas pelo jornal Estado de S. Paulo com base em documentos e relatos obtidos pela reportagem. Os registros indicam deslocamentos para a Flórida e para o Rio de Janeiro em aeronaves particulares.
De acordo com a apuração do jornal Estado de S. Paulo, uma das viagens ocorreu na primeira hora do dia 1º de maio de 2025, quando Flávio embarcou para a Flórida ao lado da esposa e do advogado Willer Tomaz. A viagem teria ocorrido em um avião executivo de longo alcance registrado em nome de uma empresa dos donos da União Química, laboratório químico-farmacêutico sediado em São Paulo.
Os documentos do Aeroporto de Brasília, segundo a reportagem, mostram que Flávio Bolsonaro e sua esposa entraram no terminal executivo às 23h37 do dia 30 de abril de 2025, uma quarta-feira, véspera do feriado de 1º de maio. No mesmo horário, também houve o registro de ingresso de Willer Tomaz. Pouco depois, às 0h26, uma aeronave particular partiu com destino à Flórida.
Ainda segundo os registros citados pela reportagem, o avião utilizado nesse deslocamento é da fabricante Bombardier, classificado como jato executivo de longo alcance e com capacidade para 13 passageiros. O jornal informou também que o escritório de Willer Tomaz já atuou em processos judiciais para a empresa proprietária da aeronave. Procurado pelo Estado de S. Paulo, um dos sócios da empresa dona do avião, Fernando Marques, não retornou ao contato telefônico feito pela reportagem.
A segunda viagem mencionada ocorreu em 1º de abril de 2025. Conforme os documentos obtidos pelo jornal, Flávio Bolsonaro entrou no terminal executivo de Brasília às 16h acompanhado da esposa e das duas filhas. Menos de dez minutos depois, um jatinho particular pertencente a uma empresa ligada a Willer Tomaz decolou rumo ao Rio de Janeiro.
Nesse caso, a aeronave descrita na reportagem é um Cessna modelo 550 Bravo, com capacidade para até oito passageiros. O uso de aviões privados em deslocamentos de caráter pessoal reacende questionamentos sobre a relação entre agentes públicos e empresários ou pessoas com interesses junto ao poder, sobretudo quando não há esclarecimento objetivo sobre o custeio das viagens.
O jornal Estado de S. Paulo informou ainda que os documentos do terminal executivo registram outras três entradas de Flávio Bolsonaro para viagens em aeronaves particulares. No entanto, segundo a reportagem, não foi possível identificar, nesses casos, nem o destino dos voos nem quais aeronaves foram utilizadas.
Figura conhecida nos bastidores de Brasília, Willer Tomaz mantém interlocução com parlamentares de diferentes correntes políticas. Além da atuação na advocacia, ele possui empresas em outros ramos. Sua aproximação com Flávio Bolsonaro ocorreu durante o período em que Jair Bolsonaro ocupava a Presidência da República, mas seu trânsito político não se limita ao campo bolsonarista.
A reportagem também lembra que Willer é sócio do ex-procurador Eugênio Aragão, nome identificado politicamente com o PT. Em outro episódio de sua trajetória, o advogado chegou a ser preso pela Polícia Federal depois de ter sido delatado por Joesley Batista, sob acusação de tentativa de corrupção de um procurador. Posteriormente, porém, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região rejeitou a denúncia por falta de provas. Em depoimento posterior, Joesley recuou da acusação e declarou que não o contratou com o objetivo de influenciar autoridades públicas.
Questionado sobre as viagens, Flávio Bolsonaro confirmou que os deslocamentos tiveram caráter privado, mas não esclareceu quem arcou com os custos dos voos. Em nota, afirmou: “O senador Flávio Bolsonaro mantém relação de amizade com o advogado Willer Tomaz, assim como suas famílias, sem qualquer vínculo profissional ou comercial. Diferentemente de Lula, que utiliza aviões de amigos que têm empresas reguladas pelo governo, os voos tiveram caráter privado, com finalidade pessoal e familiar, não havendo qualquer contrapartida, favorecimento ou relação com a administração pública”.
Willer Tomaz também se manifestou por meio de nota. Segundo ele, “O advogado Willer Tomaz esclarece que os voos mencionados tiveram caráter estritamente privado, realizados no contexto de relação pessoal de amizade entre as partes. Os deslocamentos foram de natureza exclusivamente pessoal e familiar, sem qualquer vínculo comercial, prestação de serviços ou contrapartida de qualquer natureza”.
As explicações apresentadas por ambos insistem no caráter pessoal das viagens e na ausência de contrapartidas. Ainda assim, o caso chama atenção porque envolve um senador da República, aeronaves vinculadas a empresários e um advogado com forte circulação política em Brasília. Em situações como essa, a transparência sobre custos, cessão de uso e eventuais vínculos de interesse é elemento central para o escrutínio público.
O episódio também amplia o debate sobre o uso de benefícios privados por agentes públicos ou por políticos em posição de destaque nacional. Embora Flávio Bolsonaro sustente que não houve favorecimento nem relação com a administração pública, os documentos revelados pela reportagem colocam em evidência a proximidade com empresários e operadores influentes da capital federal, num contexto em que relações pessoais e poder político frequentemente se entrelaçam.


