Fórum da embaixada dos EUA em São Paulo sobre minerais críticos pode antecipar assuntos do encontro Lula-Trump
Evento em março reunirá mineradoras e governo e pode refletir eventual reunião com o presidente dos Estados Unidos
247 - Um fórum sobre minerais críticos organizado pela embaixada dos Estados Unidos em São Paulo, previsto para terça-feira (18 de março), pode indicar o tom de um possível encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caso a reunião bilateral ocorra antes do evento. A informação foi publicada pelo jornal Valor Econômico.
De acordo com a reportagem, fontes ouvidas sob reserva afirmam que o conteúdo das discussões deverá dialogar com eventuais entendimentos firmados entre os dois chefes de Estado. A viagem de Lula aos EUA é esperada para a primeira quinzena de março, mas ainda não há confirmação oficial da data do encontro com Trump.
Os minerais críticos — entre eles as terras raras, cuja maior reserva mundial fora da China está no Brasil — tornaram-se estratégicos na disputa global por cadeias produtivas ligadas à transição energética, tecnologia avançada e defesa. A expectativa é que o tema integre a pauta de uma eventual conversa entre Lula e o presidente dos Estados Unidos.
Segundo relatos colhidos pela publicação, o fórum contará com a presença de mineradoras brasileiras e estrangeiras com projetos no país, além de representantes de ministérios como o de Minas e Energia (MME), que foram convidados. Uma das fontes afirmou: “Com certeza, vai ter o teor do encontro deles [se o fórum acontecer depois]”. A mesma fonte acrescentou: “Por enquanto, o governo brasileiro não pode falar nada, principalmente o MME, enquanto Lula não definir a estratégia [sobre minerais críticos] e decidir se irá entrar nesse grupo dos EUA”.
O grupo mencionado é a aliança global sobre minerais críticos anunciada pelos Estados Unidos no início de fevereiro. A iniciativa já envolve negociações com Japão, México, Argentina e União Europeia e é interpretada como um movimento para estruturar uma cadeia de fornecimento de terras raras menos dependente da China, que responde por 69% da produção global e 91% do refino desses elementos.
O interesse norte-americano nas reservas brasileiras está relacionado à possibilidade de reduzir a dependência das importações chinesas. Atualmente, o Brasil possui apenas uma mina de terras raras em operação comercial — a da Mineração Serra Verde, em Goiás — enquanto outros empreendimentos ainda estão em fase pré-operacional.
Outra fonte ouvida pelo Valor avaliou que a organização do evento indica expectativa positiva quanto ao encontro presidencial. “A atitude da embaixada é otimista. Eles estão esperando realmente que o encontro aconteça na primeira quinzena [de março] e, se eles estão marcando o evento para o dia 18, é realmente para dar os últimos nós do que for decidido lá em cima”, afirmou. Em seguida, ponderou: “Agora, tudo pode acontecer em relação a Lula e Trump”.
Quatro fontes relataram à publicação os preparativos do fórum, sendo que uma delas informou que a agenda está sendo organizada pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). A Terra Brasil Minerals confirmou ter recebido convite para participar. Já Eduardo Duarte, presidente da companhia, que planeja explorar terras raras em Minas Gerais em projeto integrado à produção de fertilizantes, declarou que espera que o encontro avance em “bases de cooperação equilibrada”, com estabilidade de mercado e ganhos para ambos os países.
O setor acompanha ainda possíveis desdobramentos financeiros. Neste mês, a Mineração Serra Verde anunciou financiamento de US$ 565 milhões — cerca de R$ 2,9 bilhões — concedido pelo DFC, o banco de desenvolvimento dos Estados Unidos. A operação abre caminho para que a instituição se torne acionista minoritária da empresa. A canadense Aclara Resources, que desenvolve projeto de terras raras também em Goiás, recebeu compromisso de US$ 5 milhões do DFC para estudo de viabilidade.
Em nota ao Valor, a embaixada dos Estados Unidos confirmou que o fórum está sendo planejado para março, em parceria com o Citi, a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), o Ibram e o Brazil-U.S. Business Council. Segundo o comunicado, o objetivo é manter “foco no grande potencial de cooperação entre EUA e Brasil no desenvolvimento de minerais críticos”.
Para a Amcham Brasil, um eventual entendimento entre Lula e o presidente dos Estados Unidos pode influenciar o ambiente das discussões. O diretor de relações governamentais e políticas da entidade, Fabrízio Panzini, afirmou: “Se os dois [Lula e Trump] tiverem acordado alguma coisa, já que os EUA têm feito acordos bilaterais em minerais críticos com a Austrália, com o Japão, com o México, com planos de ação, o evento já aconteceria com um pano de fundo, de apoio governamental, que dá fôlego para a agenda”.
Panzini acrescentou que a entidade trabalha para fortalecer o ambiente de investimentos no país. “Para que o país seja um destino de investimento para transformação mineral e agregue valor aqui dentro”, disse.
Procurados pelam reportagem, Ibram, MME e Brazil-U.S. Business Council não se manifestaram. O Citi confirmou participação na organização do evento.


