Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Na Índia, Lula reforça protagonismo do Sul Global

Presidente amplia cooperação com Narendra Modi em inteligência artificial e terras raras em meio a tensões comerciais com os Estados Unidos

Presidente Lula durante reunião restrita com o Primeiro-Ministro da República da Índia, Narendra Modi (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou uma visita oficial à Índia à frente de uma das maiores delegações brasileiras já enviadas ao país asiático, composta por 11 ministros e centenas de empresários. A agenda marca a segunda viagem de Lula à Índia neste mandato e ocorre em um momento de reconfiguração das alianças globais. As informações foram publicadas pela revista Foreign Policy.

A aproximação entre Brasília e Nova Déli faz oarte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento das chamadas potências médias diante da instabilidade no cenário internacional. A publicação destaca que, no ano passado, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi esteve no Brasil e na Argentina, reforçando a reciprocidade diplomática entre os dois países.

Brasil e Índia compartilham participação em diversos fóruns multilaterais, mas, segundo especialistas ouvidos pela Foreign Policy, a relação bilateral historicamente ficou aquém do potencial. Hari Seshasayee, estudioso das relações entre Índia e América Latina, afirmou à revista que a Índia mantém há anos uma política de “vizinhança em primeiro lugar”. Ele observou que, ao contrário do que faz em relação à África, Nova Déli não promove cúpulas regulares com países latino-americanos nem elaborou um documento estratégico específico para a região, como fizeram China e União Europeia.

Embora o comércio e os investimentos indianos na América Latina tenham crescido na última década, o movimento foi impulsionado sobretudo pelo setor privado. Esse cenário, no entanto, começa a mudar. Desde que retornou ao Palácio do Planalto, em 2023, Lula intensificou a aproximação com parceiros asiáticos — movimento acelerado após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impor algumas das tarifas mais elevadas contra produtos brasileiros e indianos, levando os dois países a buscar maior diversificação de parcerias.

Às vésperas da viagem, a Embraer assinou acordo para fabricar aeronaves na Índia. O Ministério da Saúde também anunciou novos recursos para importar componentes indianos destinados a hospitais inteligentes baseados em inteligência artificial. A cooperação em terras raras e tecnologia digital figura entre os principais eixos das conversas bilaterais.

Em Nova Déli, Lula participou de uma cúpula global sobre inteligência artificial e defendeu que os benefícios da tecnologia alcancem os países do Sul Global, além da necessidade de regulamentação para conter efeitos nocivos, como a desinformação. O governo federal já lançou um plano nacional de ação em IA, enquanto o Congresso se prepara para votar um marco regulatório nas próximas semanas.

O debate interno, porém, não é consensual. Ronaldo Lemos, fundador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e um dos autores do Marco Civil da Internet, afirmou à Foreign Policy que o projeto brasileiro tende a enfatizar excessivamente a regulação, o que pode comprometer oportunidades econômicas. Segundo ele, se aprovado como está, o plano “causaria estagnação significativa no setor de inovação em inteligência artificial”. Lemos também apontou que a proposta dedica pouca atenção à formação educacional em larga escala e à requalificação profissional, área na qual o Brasil poderia aprender com a experiência indiana.

Representantes do governo brasileiro sustentam que o desenho atual busca equilibrar estímulo à inovação com mecanismos de proteção contra riscos tecnológicos. A presença de Lula no fórum internacional amplia a visibilidade do debate e pode abrir espaço para novas parcerias estratégicas. Após a Índia, o presidente segue para a Coreia do Sul, outro polo tecnológico que sinalizou interesse em elevar o nível da relação bilateral com o Brasil.

O cenário latino-americano retratado pela Foreign Policy também inclui outros desdobramentos políticos relevantes. No Peru, o Congresso destituiu o presidente José Jerí e nomeou José María Balcázar como mandatário interino até julho, quando um novo chefe de Estado, eleito em abril, assumirá o cargo. Trata-se do oitavo presidente peruano em uma década. Jerí foi alvo de questionamentos após vir à tona que teria se reunido com um empresário chinês detentor de contrato público sem registrar oficialmente o encontro. Também ressurgiram denúncias de estupro de 2024, que ele nega.

A sucessão frequente de presidentes mantém a economia relativamente estável, mas aprofunda a crise institucional. Juanita Goebertus, da Human Rights Watch, declarou que “a democracia do Peru está desmoronando” e que “as constantes mudanças de presidente são apenas a ponta do iceberg em um país onde o Congresso legisla frequentemente em favor do crime organizado, juízes e promotores temem retaliações por fazer seu trabalho, e grupos criminosos estão se expandindo”.

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