'Laços humanos e vínculos empresariais provam que confiança e cooperação valem a pena', diz Lula na Coreia
Em encontro empresarial, presidente apresenta possibilidades de investimentos asiáticos no Brasil
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que a ampliação da cooperação econômica entre Brasil e Coreia do Sul pode abrir um novo ciclo de prosperidade compartilhada, ao participar do encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Coreia do Sul, realizado nesta segunda-feira (23), em Seul.
O encontro reuniu autoridades e representantes de 230 empresas brasileiras e sul-coreanas, além de lideranças de setores estratégicos como tecnologia, economia criativa, alimentos, açúcar e álcool, indústria farmacêutica, agricultura e pecuária. O governo brasileiro apresentou oportunidades de investimentos asiáticos no país, incluindo exportação de carne, cosméticos, fármacos e parcerias no setor aeroespacial.
Em seu discurso, Lula ressaltou o simbolismo político do momento e a importância do diálogo entre diferentes segmentos da sociedade. “Minha viagem a Seul não estaria completa sem participar deste fórum empresarial. É simbólico que nossos países sejam hoje liderados por dois presidentes oriundos da classe operária. O diálogo permanente entre governantes, trabalhadores e empregadores é o principal pilar de uma economia forte e inclusiva”, declarou.
O presidente também mencionou debates internos no Brasil sobre a jornada de trabalho. “Estamos discutindo, no Brasil, o fim da chamada jornada seis por um, para assegurar que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal. A tecnologia nos permitiu atingir níveis inimagináveis de produtividade. É hora de pensar no bem-estar das pessoas”, acrescentou.
Ao tratar das relações bilaterais, Lula enfatizou a confiança mútua como base para a expansão dos negócios. “A relação entre o Brasil e a República da Coreia, dois países ligados por fortes laços humanos e vínculos empresariais, é a prova de que a confiança e a cooperação valem a pena. Tenho certeza de que este fórum gerou muitas oportunidades de negócios que contribuirão para construir um futuro de prosperidade para brasileiros e coreanos”, afirmou.
Exportação de carne bovina e agronegócio
A competitividade do agronegócio brasileiro foi destacada como um dos principais ativos na relação com a Coreia do Sul. Lula lembrou o desempenho recorde da produção nacional. “Nos últimos anos, o Brasil se consolidou como o celeiro do mundo. Em 2025, tivemos a maior safra da história, com 350 milhões de toneladas de grãos. Somos uma potência agrícola e temos orgulho de contribuir para a segurança alimentar do planeta.”
O presidente manifestou interesse em ampliar o acesso da carne bovina brasileira ao mercado sul-coreano. “O bulgogi, tradicional churrasco coreano, combina com uma carne de qualidade como a brasileira. Estamos prontos para avançar nos procedimentos sanitários necessários para que o Brasil esteja no prato do cidadão coreano”, assegurou. Ele acrescentou: “Isso também permitirá que os maiores frigoríficos do mundo, que são brasileiros, se instalem e invistam aqui na Coreia”.
Diversificação econômica e investimentos
Lula defendeu a diversificação da base produtiva como resposta a um cenário internacional marcado por tensões comerciais. “Mas a resiliência de um país, especialmente em tempos de turbulência global e de retorno do protecionismo, depende da diversificação da sua base econômica e das suas relações comerciais. Vemos na República da Coreia um parceiro estratégico para atingir esses dois objetivos”, afirmou.
O presidente observou que empresas sul-coreanas já possuem presença consolidada no Brasil. “O Brasil é o maior destino de investimentos coreanos na América Latina há anos. Empresas como Samsung, Hyundai e LG estão presentes em lares brasileiros. A Coreia já é o quarto maior investidor asiático no país, com estoque de investimentos de nove bilhões de dólares. Esse volume tem potencial para crescer”, destacou.
Ele também citou programas federais voltados à atração de investimentos estrangeiros, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Nova Indústria Brasil (NIB), o Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) e o Plano de Transformação Ecológica. “Todas elas oferecem condições vantajosas para investidores estrangeiros interessados em trazer inovações tecnológicas e soluções sustentáveis. Dispomos de segurança jurídica e estabilidade econômica, política e social”, afirmou.
Minerais estratégicos e semicondutores
A cooperação na área de minerais críticos foi apresentada como eixo estratégico da parceria. “A Coreia é o segundo maior produtor mundial de semicondutores e detém parcela significativa do mercado de baterias. O Brasil possui minerais críticos que são insumos essenciais para as cadeias de produção de eletrônicos e veículos elétricos. É um parceiro confiável em um cenário em que a arbitrariedade está se tornando a regra”, disse Lula.
Ele acrescentou que o país busca agregar valor à produção mineral. “O papel de meros exportadores de matérias-primas não condiz com nosso potencial. Buscamos parcerias que nos permitam agregar valor e produzir tecnologia de ponta em solo brasileiro.”
Indústria, educação e desenvolvimento
Ao comparar trajetórias econômicas, o presidente destacou o avanço sul-coreano nas últimas décadas. “O Brasil tem muito a aprender com a República da Coreia. Nos anos sessenta, o PIB per capita coreano equivalia a menos da metade do brasileiro. Hoje, é três vezes maior. Até a década de oitenta, a produção industrial do Brasil era maior do que a da Coreia. Hoje, este país é um dos principais polos tecnológicos do mundo”, afirmou.
Ele avaliou que políticas públicas foram determinantes nesse processo. “Nenhum país que chegou atrasado à corrida industrial conseguiu subir a escada do desenvolvimento sem políticas públicas robustas. A experiência coreana prova que elevar a escolaridade da população é um investimento valioso. Demonstra, além disso, que um crescimento sustentado depende de uma economia variada e sofisticada, capaz de absorver mão-de-obra qualificada”, declarou.
Fármacos, vacinas e setor aeroespacial
Na área da saúde, Lula mencionou o potencial de cooperação em pesquisa e inovação. “A República da Coreia tem ampliado sua pesquisa e desenvolvimento na área de saúde. O Brasil está avançando na construção de seu laboratório de biossegurança Órion, o único do mundo conectado a um acelerador de partículas. Isso nos permitirá buscar soluções para doenças, desenvolver métodos de diagnóstico e prevenir epidemias”, disse.
Segundo ele, instituições como a Fiocruz já ampliam parcerias com o país asiático. “Esperamos que, em breve, possamos fabricar conjuntamente novas vacinas, fármacos e insumos médicos”, projetou.
No campo aeroespacial, Lula citou a colaboração com a empresa Innospace no Centro de Lançamento de Alcântara. “Juntos, também podemos dar importantes saltos científicos. A start-up coreana Innospace está ajudando a fazer do Centro de Lançamento de Alcântara um novo polo aeroespacial. Tenho certeza de que o Brasil logo terá o privilégio de ver um foguete sul-coreano em plena operação”, afirmou. Ele acrescentou que o diálogo entre as agências espaciais inclui compartilhamento de dados de satélites e projetos de exploração lunar.
Comércio bilateral e novo acordo
A corrente de comércio entre Brasil e Coreia do Sul soma cerca de 11 bilhões de dólares, abaixo do recorde de quase 15 bilhões registrado em 2011. Para Lula, o patamar atual não corresponde ao porte das duas economias. “O intercâmbio atual não está à altura de duas economias do tamanho do Brasil e da Coreia. Por isso, celebramos um acordo de cooperação comercial e integração produtiva, com foco no fortalecimento da cooperação industrial, tecnológica e agrícola”, afirmou.
O acordo, segundo o presidente, também prevê fortalecimento de cadeias de suprimentos resilientes e seguras, além de iniciativas em minerais estratégicos, indústrias sustentáveis e audiovisual. Ele informou que os ministérios dos dois países passarão a se reunir regularmente para aprofundar as relações econômicas.
Lula ainda destacou a atuação da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), que inaugurou um novo escritório internacional em Nova Délhi durante a missão presidencial à Índia e mantém representações em cidades estratégicas na América, Europa, Ásia, África e Oriente Médio, ampliando a busca por oportunidades para produtos brasileiros no mercado sul-coreano.




