Governo Lula vê resistência dos EUA e reduz expectativas em negociações sobre tarifas
Negociações seguem pelos canais oficiais, mas auxiliares do governo avaliam que Washington mantém postura rígida sobre a sobretaxa de 25%
247 - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que os Estados Unidos têm demonstrado sinais de pouca flexibilidade nas negociações para evitar a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. A informação foi publicada originalmente pela jornalista Jussara Soares, da CNN Brasil, em meio às tratativas diplomáticas que antecedem uma decisão considerada estratégica para a relação comercial entre os dois países.
A definição sobre a aplicação das tarifas deverá ocorrer até 15 de julho. Antes disso, em 6 de julho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) promoverá uma audiência pública em Washington para debater a disputa comercial envolvendo Brasil e Estados Unidos.
Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como pré-candidato do partido à Presidência da República, se inscreveu para participar da audiência com direito a cinco minutos de fala, o governo brasileiro decidiu manter sua estratégia de negociação por meio dos canais diplomáticos e técnicos já estabelecidos. A orientação da gestão Lula é evitar a politização do tema e concentrar esforços nas discussões comerciais oficiais.
A avaliação de integrantes do governo é que a participação de Flávio Bolsonaro no evento pode transformar a audiência em um espaço de disputa política. Nos bastidores, auxiliares do presidente entendem que o senador busca reduzir o desgaste causado por declarações feitas em julho do ano passado, quando elogiou a sobretaxa anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na ocasião, Flávio afirmou que “patriotas de verdade” deveriam agradecer ao líder norte-americano pela medida.
Apesar de ter se inscrito para a audiência, o senador informou ao USTR que defenderá posição contrária à aplicação de tarifas sobre produtos brasileiros e também se manifestará contra eventuais medidas relacionadas ao Pix. Segundo o documento apresentado às autoridades americanas, ele defenderá uma solução negociada para o impasse comercial.
O governo brasileiro, por sua vez, não pretende participar da audiência pública. De acordo com a avaliação da administração federal, essa fase da investigação conduzida pelo USTR é direcionada principalmente ao setor privado e à sociedade civil, não sendo o espaço adequado para a atuação direta do Executivo brasileiro.
Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, as conversas para tentar evitar a sobretaxa continuam ocorrendo diretamente entre os governos dos dois países, modelo adotado desde o início da crise comercial. Ainda assim, integrantes da equipe presidencial admitem que as chances de reverter a medida diminuíram nas últimas semanas.
A percepção é que as recomendações mais recentes do USTR reproduzem argumentos já apresentados na investigação aberta contra o Brasil, mesmo após os esclarecimentos encaminhados por autoridades brasileiras. Entre os pontos considerados mais sensíveis pelo governo estão os questionamentos americanos relacionados ao sistema de pagamentos Pix e aos indicadores de desmatamento.
Apesar do cenário considerado desfavorável, a orientação dentro do governo é manter as negociações técnicas até a decisão final. O receio, segundo fontes envolvidas nas discussões, é que fatores políticos acabem influenciando a definição das autoridades americanas.
Em entrevista à CNN Brasil, o empresário e jornalista Paulo Figueiredo antecipou parte do conteúdo que deverá ser apresentado por Flávio Bolsonaro na audiência. Segundo ele, o senador afirmará que o presidente Lula “está cavando as tarifas com objetivo eleitoral e que elas não cumprem os objetivos”.
Ainda de acordo com Figueiredo, o parlamentar sustentará que “há outras medidas que podem ser tomadas, mais efetivas, que não punem a sociedade, mas os autores”.
O documento de inscrição enviado por Flávio Bolsonaro ao USTR também sugere que um eventual “governo brasileiro reformista” teria maior alinhamento com as posições defendidas por Washington. O texto afirma ainda que haveria espaço para negociações de “boa fé” em temas como comércio digital, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento.



