Guimarães diz que Alcolumbre quer recompor relação com Lula
Ministro afirma que presidente do Senado está aberto ao diálogo e aposta na votação da PEC do fim da escala 6x1
247 - O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), demonstra disposição para recompor a relação política com o presidente Lula. Segundo Guimarães, Alcolumbre não deve criar obstáculos à tramitação da PEC que acaba com a escala 6x1, uma das principais apostas do governo para o próximo período.
As declarações foram dadas em entrevista ao jornal O Globo. De acordo com o ministro, o governo trabalha para levar a proposta ao plenário do Senado até outubro.A PEC do fim da escala 6x1 é tratada pelo Planalto como uma pauta social de forte apelo popular e também como um tema de peso político na campanha à reeleição de Lula. Para Guimarães, a aprovação da proposta na Câmara representou uma derrota expressiva para a oposição bolsonarista.
“Aplicamos uma enorme derrota ao bolsonarismo. É o tema que mais terá peso nesse próximo período, mais de 70% da população é favorável.”
O ministro afirmou que a prioridade agora é garantir a votação no Senado. “O esforço agora é para votar no Senado, e acho que não vamos ter dificuldade. O Hugo Motta (presidente da Câmara) já conversou com o Davi (Alcolumbre). Nós vamos conversar.”
Na avaliação de Guimarães, o texto deveria seguir diretamente para o plenário do Senado, sem novas etapas que possam atrasar a tramitação.“Do jeito que está o texto, o ideal seria levar direto para o plenário. Vai depender do Davi, porque a oposição quer retardar.”
O ministro afirmou que o governo buscará um entendimento para evitar que a proposta fique parada no Senado. Para ele, a relevância nacional do tema impede que divergências políticas recentes contaminem a tramitação da PEC.
“Acho que não. Não se pode interditar a discussão de um tema nacional como esse.”
Guimarães disse que atua ao lado do presidente da Câmara, Hugo Motta, para construir uma solução que permita acelerar a votação.“Eu e o Hugo (Motta) estamos trabalhando para buscar um encaminhamento que permita a votação imediata, sem protelamento no Senado.”
A relação entre Lula e Alcolumbre ficou abalada após a derrota do advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado pelo presidente para o Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente do Senado foi apontado como um dos responsáveis pelo revés sofrido pelo governo na Casa.
Guimarães, no entanto, procurou reduzir o peso do episódio e afirmou que a política deve ser conduzida por meio de diálogo. Questionado sobre como convencer Alcolumbre a pautar a PEC diretamente no plenário, o ministro respondeu de forma direta.
“A política não é feita de chateação e mau olhar. É o diálogo.”
Segundo Guimarães, Alcolumbre está aberto a uma reaproximação com o Palácio do Planalto.
O ministro afirmou que conversa com o presidente do Senado quase todos os dias e disse que o tom tem sido de reconstrução da relação institucional. “Está. Muito. Eu falo com ele quase todo dia.”
Ao relatar o que tem ouvido de Alcolumbre, Guimarães afirmou que o presidente do Senado deseja conversar diretamente com Lula para superar o desgaste recente.“Ele diz, reiteradamente: quer sentar com o presidente e recompor a relação. É isso.”
Sobre a disposição de Lula para esse encontro, Guimarães disse que o presidente ainda avalia o tema, em meio a uma agenda intensa. O ministro afirmou que a campanha à reeleição terá três eixos centrais: apresentar entregas do governo, explorar temas da conjuntura e discutir propostas para o futuro.
“Está avaliando. O presidente teve uma agenda muito frenética nesses dias.” Guimarães disse que acompanhou todas as campanhas de Lula e afirmou ver, neste momento, um volume incomum de ações a serem apresentadas pelo governo.
“Eu vivi todas as campanhas do presidente, mas nessa, em especial, nunca vi tanta coisa para ser mostrada.”
Segundo ele, a campanha deve combinar balanço de gestão, temas atuais e debate programático. “Essa campanha vai ter três grandes eixos. Um é mostrar tudo que foi feito e que está sendo entregue.”
“Outro é mostrar os temas que fazem parte da conjuntura, em que a 6x1 é a mais relevante. A terceira é a disputa propriamente dita, em que é preciso falar de futuro.” Guimarães também afirmou que levantamentos internos do governo indicam que o fim da escala 6x1 pode impactar positivamente a aprovação da gestão Lula.
Segundo ele, a proposta tem alcance especial entre mulheres e jovens.“Nossos levantamentos internos indicam isso. O país todo estava acompanhando. E atinge principalmente mulheres e jovens.”
Ao comentar críticas de que a tramitação da proposta teria motivação eleitoral, o ministro comparou a situação com medidas adotadas pelo governo Jair Bolsonaro em 2022, durante a disputa presidencial.
“Tudo que (o governo) faz dizem que é questão eleitoral. Lembre-se, o Bolsonaro disputou a eleição em 2022 e, em agosto, aumentou o Bolsa Família.” Guimarães rebateu a tese de que o governo deveria deixar de agir por causa das críticas da oposição.
“Eles vão dizer que é eleitoral, mas vamos parar o país?” O ministro também criticou Flávio Bolsonaro e afirmou que o governo se reorganizou politicamente após a derrota de Jorge Messias no Senado.
“O Flávio Bolsonaro, quando o Messias foi derrotado, falou que o governo acabou. Quebrou a cara.” “Ele se enrolou no maior escândalo financeiro da história do Brasil. Da derrota do Messias para cá, o governo aprumou o passo nas medidas que tem anunciado.”
Guimarães também foi questionado sobre a decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas. Para o ministro, a medida não deve ter impacto eleitoral relevante. Ele afirmou, porém, que a decisão representa uma ameaça à soberania brasileira caso sirva de justificativa para algum tipo de interferência externa.
“Não acredito. Essa decisão é uma ameaça à soberania.”
“Ninguém pode invadir o Brasil a pretexto de combater o crime organizado. Por que o governo americano não incluiu nessa classificação os milicianos?” Guimarães disse que a cooperação internacional no combate ao crime organizado é bem-vinda, desde que respeite as instituições brasileiras.
“Ajudar o Brasil no combate às facções é bem-vindo, mas respeitando as regras e os caminhos do governo brasileiro.” Na entrevista, Guimarães afirmou que a disputa sobre o futuro será um dos pontos centrais da campanha.
Ele defendeu que o governo apresente seus resultados econômicos e sociais e criticou Flávio Bolsonaro, apontado como possível nome da oposição. “Colocamos o país de pé em todos os indicadores, econômicos e sociais.”
“O que o Flávio Bolsonaro tem a oferecer para o país, a não ser o único predicado dele, de filho do Bolsonaro? Não tem uma ideia sobre nada.” Guimarães também criticou a posição de Flávio Bolsonaro em relação à PEC do fim da escala 6x1.
“Quando deu uma ideia, foi dizer que era contra, que o país ia quebrar, se aprovasse a 6x1.” Para o ministro, um eventual segundo mandato de Lula deve combinar defesa do legado, esperança e novas propostas sociais.
“O segundo mandato tem que falar de esperança, além de jogar pesadíssimo em universalizar a escola de tempo integral e avançar mais ainda no combate ao feminicídio.”
Guimarães também defendeu uma revisão do presidencialismo de coalizão. Segundo ele, a experiência como líder e agora no ministério mostra que parte da base parlamentar nem sempre mantém identidade com as diretrizes programáticas do governo.
“Vamos ter que repensar o presidencialismo de coalizão.”
“A experiência que eu tive como líder e agora aqui é que muitas vezes a base não tem identidade com as diretrizes programáticas do governo. Eu sou da tese de que você tem que alinhar 100%.”
O ministro afirmou ser defensor das emendas parlamentares, mas sustentou que o governo deve exigir coerência política de quem integra a base. Para ele, não faz sentido que parlamentares recebam emendas e votem de forma sistemática contra o Planalto.
“Sou defensor das emendas. Porém, não pode ter emenda, o cara receber e ficar votando contra o governo.”
“Tem que exigir isso. Não votou, não tem emenda. Nós temos que fazer uma concertação.”
Guimarães avaliou que há sinais positivos de diálogo com partidos do centro.
Segundo ele, essas legendas têm conversado com o governo e demonstrado disposição para repactuar a relação em um eventual novo mandato.
“Estou vendo sinais muito positivos. Esses partidos do centro estão conversando muito comigo. E querem repactuar isso com o novo governo.” O ministro afirmou ainda que a candidatura da extrema direita perde força política.
“Aliás, acho até que pode ter muitas novidades daqui para a eleição. A candidatura da extrema direita está se esvaziando politicamente.” Guimarães avaliou que houve um gesto importante de partidos do centro na votação do fim da escala 6x1.
Ele citou União Brasil e PP como legendas que se movimentaram de forma relevante em uma pauta considerada estratégica para o governo. “Fizeram um gesto muito importante (na votação do fim da escala 6x1). Fazia tempo que eu não via o União Brasil e o PP fecharem questão para votar.”
Questionado se o gesto não teria sido apenas pontual, o ministro reconheceu que sim, mas ressaltou o peso político da votação.
“Sim, mas foi pontual numa questão estratégica para o governo.”
Para Guimarães, a tendência é que Flávio Bolsonaro fique politicamente isolado na disputa. O ministro afirmou que o senador não apresenta propostas consistentes para o país. “A tendência é o Flávio se isolar, porque ele não tem o que propor para o país.”
Ao falar sobre a agenda do Senado, Guimarães citou três prioridades que, em sua avaliação, deveriam avançar antes da eleição. A lista inclui minerais críticos, PEC da Segurança e fim da escala 6x1.
O ministro também defendeu que o governo evite a votação de pautas-bomba. No campo econômico, Guimarães criticou o atual patamar dos juros no Brasil. Questionado sobre Gabriel Galípolo no Banco Central, o ministro afirmou que o problema está no modelo de política monetária praticado no país.
“Na minha opinião, não é de governo, é inaceitável esse modelo de taxa de juros que temos no Brasil.”
“O que leva um BC a praticar alta taxa de juros é a inflação alta. Faz três anos que a inflação está sob controle.”
Para Guimarães, os juros elevados limitam a capacidade de expansão da economia brasileira.
“Esse é um problema que impede o crescimento mais robusto da economia.”
Ao longo da entrevista, Guimarães buscou transmitir a avaliação de que o governo superou o impacto político da derrota de Jorge Messias no Senado. Entre as prioridades do Planalto, a PEC do fim da escala 6x1 aparece como uma das principais apostas pela dimensão social, pelo apoio popular e pelo peso político no debate nacional.



