Jaques Wagner deve se afastar da liderança do Senado, diz Jeferson Miola
Analista afirma que operação da PF sobre Banco Master envolve problema individual e não deve contaminar Lula nem o PT
247 - O analista político Jeferson Miola afirmou nesta quinta-feira (18) que o senador Jaques Wagner deve se afastar da liderança do governo no Senado após ser alvo de busca e apreensão em nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas relacionadas ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro.
As declarações foram feitas ao programa Giro das Onze, da TV 247, transmitido pelo YouTube. Para Miola, a apuração da PF (Polícia Federal) deve ser tratada com seriedade, sem rejeição prévia, porque se baseia em relatório produzido a partir de elementos colhidos nos dispositivos eletrônicos de Vorcaro.
Miola afirmou que a discussão deve partir do fato de que há uma investigação formal em curso, e não apenas especulações políticas. “Nós não estamos aqui falando de vazamento de delação ou de delação, nós estamos falando de apuração da Polícia Federal”.
Segundo o analista, o mesmo critério aplicado às investigações que envolvem figuras da direita e do centrão deve valer para Wagner. “Vale o critério, aquela régua adotada em relação, por exemplo, às investigações sobre o Ciro Nogueira e tudo que está sendo revelado sobre ele tem que valer sobre o Jaques Wagner”.
Problema individual, não do governo
Miola ressaltou que as suspeitas contra Wagner não devem ser atribuídas ao governo Lula nem ao PT como organização. Para ele, trata-se de uma questão individual, ainda a ser esclarecida pelo senador. “Em nenhuma hipótese, em nenhuma hipótese, o que o Jaques Wagner eventualmente está sendo acusado hoje atinge o governo Lula ou atinge o PT”.
O analista sustentou que o escândalo envolvendo Daniel Vorcaro tem raízes principalmente no campo bolsonarista e em setores da direita. Ainda assim, alertou que a permanência de Wagner na liderança do governo pode criar um risco político desnecessário. “Tem uma hipótese de acabar contaminando o governo, a bancada do PT no Senado e o próprio PT. Qual é? É a manutenção do Jaques Wagner na liderança do governo no Senado”, afirmou. “Isso não pode”.
Defesa de afastamento imediato
Miola defendeu que Wagner se licencie do cargo de líder do governo no Senado para se dedicar à própria defesa. Segundo ele, essa seria uma decisão de preservação política do governo, do PT e do próprio senador. “Tem que haver essa coerência e conceder ao Jaques Wagner o direito dele se licenciar do cargo na liderança do Senado e se dedicar integralmente ao esclarecimento desses fatos”.
Para o analista, se Wagner não tomar a iniciativa, caberá ao governo pedir sua saída da função. “Caso ele não faça isso, eu entendo que o governo estará obrigado a pedir ao Jaques Wagner que ele deixe o posto, porque é muito difícil para o governo manter o Jaques Wagner no posto à luz desse relatório da Polícia Federal”.
Miola afirmou ter lido as 31 páginas do relatório citado no programa e classificou o conteúdo como preocupante. Segundo ele, o documento não trata apenas de Wagner, mas também de outras pessoas mencionadas na apuração. “Eu li as 31 páginas, não é só sobre o Jaques Wagner, tem várias outras pessoas ali”.
PF e republicanismo
Ao comentar a ação da PF, Miola disse que a operação mostra, ao menos neste momento, que a instituição não está atuando com viés ideológico. Ele destacou que a investigação alcançou o líder do governo no Senado, o que enfraquece a tese de perseguição exclusiva a bolsonaristas. “Esta fase da Compliance Zero, que foi desencadeada hoje pela Polícia Federal, autorizada pelo STF, mostra que a Polícia Federal não está tendo um viés ideológico”.
Ainda assim, Miola disse não ter uma confiança irrestrita na atuação de todos os setores da Polícia Federal. Segundo ele, há agentes com posições políticas que podem tentar instrumentalizar cargos públicos. “Eu não tenho a certeza de que a Polícia Federal permanentemente preserve os seus princípios de uma polícia judiciária isenta, imparcial e correta”.
Pressão sobre Alcolumbre e Hugo Motta
Miola também avaliou que a investigação sobre o Banco Master deve avançar sobre outras figuras políticas mencionadas no debate público, incluindo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o presidente da Câmara, Hugo Motta.
Sobre Alcolumbre, ele afirmou que já há elementos públicos que merecem apuração, especialmente a relação com o instituto de previdência do Amapá que aplicou recursos em fundos ligados ao Banco Master. “O que se sabe é que ele é padrinho do presidente do Instituto de Previdência Pública dos Servidores Públicos do Estado do Amapá, que destinou R$ 500 milhões para os fundos fraudulentos do Daniel Vorcaro, que se transformaram em pó”.
Em relação a Hugo Motta, Miola disse que o episódio envolvendo pedido de empréstimo a Vorcaro para uma cunhada do deputado também precisa ser investigado. “É imperativo que ele seja investigado, porque vai se encontrar muita coisa do personagem”.
Impacto no Congresso e nas eleições
Miola avaliou que a crise envolvendo o Banco Master pode abalar o Poder Legislativo caso avance sobre figuras centrais do Congresso. Para ele, a eleição para o Senado será decisiva para o governo Lula, porque definirá a correlação de forças na próxima legislatura. “A eleição para o Senado, depois da eleição presidencial, é a mais importante”.
Segundo Miola, episódios como o escândalo Master e os ataques dos Estados Unidos ao Brasil podem influenciar o ambiente eleitoral, sobretudo em disputas majoritárias, nas quais os candidatos ficam mais expostos ao escrutínio público. “A eleição majoritária do Senado deixa muito mais expostos esses personagens, os seus vínculos”.
Para o analista, o governo deve agir com rapidez para impedir que um caso individual seja usado para atingir Lula, o PT ou a bancada governista no Senado. “O governo não pode proceder da mesma maneira, sob pena de importar um prejuízo enorme que vai ser a vinculação do governo através do seu líder no Senado Federal com o escândalo Master”.



