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Lula alerta para emergência global da desigualdade e cobra taxação dos ricos na Cúpula do G20

Em discurso na África do Sul, presidente defende reforma da governança internacional e critica fluxo financeiro que penaliza países do Sul Global

G20 (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 - O presidente Lula participou neste sábado (22) da Cúpula de Líderes do G20, realizada em Joanesburgo, na África do Sul. Em seu discurso, Lula destacou a necessidade urgente de reformar a governança econômica global, combater a desigualdade estrutural e garantir crescimento inclusivo e sustentável.

Lula recuperou a história recente do G20, criticou os efeitos persistentes do neoliberalismo e alertou para o avanço do protecionismo, das tensões geopolíticas e das políticas de austeridade na economia global.

“A desigualdade extrema representa um risco sistêmico para todas as economias. 90% da população mundial vive em países com alta disparidade de renda”, afirmou o presidente, ao defender que os países do G20 incorporem a taxação dos super-ricos e adotem mecanismos inovadores de troca de dívida por desenvolvimento e ação climática.

Lula relembrou que esteve presente na primeira Cúpula de Líderes do G20, convocada em 2008 pelo então presidente dos Estados Unidos, George Bush, em meio à crise financeira global. Segundo ele, apesar de medidas que evitaram um “colapso de proporções catastróficas”, a resposta do sistema internacional foi “incompleta” e acabou aprofundando desigualdades.

O presidente disse que a trajetória global pós-crise seguiu “a receita de austeridade como um fim em si mesmo”, o que teria ampliado tensões geopolíticas e fragilizado países em desenvolvimento. “O próprio funcionamento do G20 como instância de diálogo e coordenação está ameaçado”, alertou.

Conflitos globais e impacto humanitário

O chefe de Estado brasileiro também mencionou os conflitos armados em curso, destacando os impactos da guerra na Ucrânia e da situação em Gaza sobre a segurança energética e alimentar mundial. “Conflitos como na Ucrânia e em Gaza, além das trágicas consequências humanas e materiais, produzem impactos significativos sobre a segurança energética e alimentar”, disse.

Ele lembrou ainda o agravamento da crise humanitária no Sudão e criticou respostas baseadas na ameaça do uso da força para os problemas sociais da América Latina e do Caribe.

Em um dos trechos mais contundentes do discurso, Lula apresentou dados sobre a disparidade entre os gastos globais com armamentos e a queda da ajuda ao desenvolvimento. “No ano passado, a economia mundial cresceu mais de 3%. Os gastos com armamentos aumentaram 9,4%. Mas a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento caiu 7%.”

Lula classificou como “eticamente inaceitável e economicamente insustentável” o peso da dívida sobre os países do Sul Global, afirmando que quase metade da população mundial vive em países que gastam mais com o serviço da dívida do que com saúde ou educação. O valor atual, segundo ele, chega a US$ 1,4 trilhão por ano.

O presidente anunciou o apoio do Brasil à proposta sul-africana de criação de um Painel Independente sobre Desigualdade, nos moldes do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). O objetivo seria recolocar a Agenda 2030 nos trilhos — que, sem financiamento, continuará sendo “uma declaração de boas intenções”.

Ele destacou a articulação entre a iniciativa brasileira Aliança contra a Fome e a Pobreza e o esforço sul-africano para tratar das dimensões macroeconômicas da segurança alimentar.


Ubuntu, reconciliação e mensagem final

Ao concluir o discurso, Lula evocou a filosofia africana do Ubuntu e a trajetória de líderes como Nelson Mandela e o arcebispo Desmond Tutu, destacando a importância da cooperação entre nações. “Nenhum país tem condições de prosperar em isolamento. As soluções que buscamos estão ao redor desta mesa”, afirmou.

O presidente encerrou com um agradecimento à acolhida do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa e reiterou a necessidade de fortalecer o G20 como instância de coordenação global.

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