Mulheres e evangélicos desafiam aliados de Flávio Bolsonaro e Lula
Pesquisas divulgadas em abril apontam que disputas estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul refletem obstáculos nacionais
247 - Pesquisas Genial/Quaest divulgadas em abril apontam que disputas estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul refletem obstáculos nacionais enfrentados pelos campos políticos ligados ao presidente Lula e ao senador Flávio Bolsonaro. Os dados mostram que candidatos mais à direita têm desempenho mais forte entre homens, mas encontram maior dificuldade no eleitorado feminino, enquanto nomes associados ao campo lulista enfrentam resistência maior entre eleitores evangélicos.
As informações foram publicadas por O Globo. Segundo o levantamento citado pelo jornal, os recortes por gênero e religião nas pesquisas para governador indicam que as disputas locais reproduzem tendências mais amplas da política nacional, com impactos diretos sobre as estratégias eleitorais dos principais grupos em competição.
Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparece com vantagem expressiva entre os homens. Nesse segmento, ele registra 44% das intenções de voto, contra 23% de Fernando Haddad (PT). Entre as mulheres, porém, a distância diminui de forma significativa: Tarcísio marca 33%, enquanto Haddad chega a 30%, configurando empate técnico dentro da margem de erro.
O cenário paulista ilustra uma das principais dificuldades de candidatos identificados com a direita. Embora mantenham forte apoio masculino, esses nomes tendem a apresentar desempenho inferior entre eleitoras, segmento que pode ter peso decisivo em disputas majoritárias.
No Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) lidera em diferentes segmentos, mas também apresenta variação importante conforme o recorte religioso. Entre católicos, Paes alcança 38% das intenções de voto. Já entre evangélicos, grupo ao qual vem fazendo acenos políticos, o desempenho cai para 28%.
Ainda no Rio, o presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL), aliado de Flávio Bolsonaro, registra diferença acentuada entre homens e mulheres. Segundo a pesquisa, ele tem 13% entre eleitores homens, mais que o dobro dos 6% obtidos entre eleitoras.
Paraná e Rio Grande do Sul repetem diferenças por gênero
No Paraná, o senador Sergio Moro (PL) aparece à frente na disputa pelo governo estadual nos dois recortes de gênero, mas também apresenta desempenho desigual. Entre homens, Moro registra 44% das intenções de voto. Entre mulheres, o índice cai para 31%.
O principal adversário de Moro na pesquisa, Requião Filho (PDT), apresenta movimento inverso. Ele alcança 21% entre mulheres e 14% entre homens, desempenho que reforça a tendência de maior competitividade de candidatos do campo progressista no eleitorado feminino.
No Rio Grande do Sul, a disputa aparece mais equilibrada. Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL) estão tecnicamente empatados no primeiro turno. A diferença, nesse caso, também se expressa no recorte por gênero: Juliana lidera entre mulheres, com 21%, contra 16% de Zucco. Entre homens, o candidato do PL aparece numericamente à frente, com 27%, ante 26% da adversária.
Especialista aponta peso das pautas sociais
A cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas, avalia que a preferência de parte das eleitoras por nomes mais à esquerda está relacionada tanto a fatores culturais quanto à dificuldade da direita de dialogar com demandas específicas desse público.
“Historicamente, as mulheres foram associadas a áreas como cultura, educação e assistência social, como se tivessem uma aptidão natural para esses campos. A própria sociedade delega a elas o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência, por exemplo. Isso faz com que parte do eleitorado feminino identifique em candidatos de esquerda uma maior sensibilidade para essas pautas. É uma percepção que se naturalizou ao longo do tempo. Além disso, o voto feminino tende a ser mais crítico, e muitas vezes as propostas da direita não dialogam diretamente com as demandas e prioridades dessas eleitoras”, avalia.
Na pré-campanha, Flávio Bolsonaro tem buscado ampliar sua comunicação com o público feminino para evitar repetir a alta rejeição registrada por Jair Bolsonaro entre mulheres na eleição presidencial de 2022. Naquele pleito, pesquisas apontaram rejeição superior a 60% do eleitorado feminino ao então presidente.
Segundo O Globo, Flávio passou a usar dados de segurança pública como argumento para afirmar que, durante o governo de seu pai, as mulheres eram “mais protegidas”.
Lula tenta recompor pontes com evangélicos
Do outro lado, Lula tem feito movimentos em direção ao eleitorado evangélico, segmento que aderiu majoritariamente a Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais. Em fevereiro, o presidente afirmou que “90% dos evangélicos recebem benefícios sociais do governo”, em uma tentativa de aproximar a agenda social do Planalto desse público.
A relação, no entanto, sofreu desgaste após o desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio. A escola homenageou Lula neste ano e levou à avenida a ala “Neoconservadores em conserva”, com famílias representadas dentro de latas, algumas delas com adereços de referência religiosa.
Para o cientista político Josué Medeiros, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a dificuldade do PT com evangélicos não começou no atual governo. Ele lembra que a erosão dessa relação teve início ainda em 2010, na primeira campanha presidencial de Dilma Rousseff (PT), quando o tema do aborto passou a ser explorado eleitoralmente por adversários.
“Até então o evangélico tendia a votar em Lula, em uma convergência com o eleitorado mais periférico e de menor renda, alinhado à agenda social que marcou seus governos”, explica Medeiros.
“Depois (hoje senadora) Damares Alves se aproximou de Jair Bolsonaro para fazer oposição ao governo no Congresso. Desde então, essa inflexão se aprofundou e se consolidou, formando o cenário atual, em que entre 60% e 70% do eleitorado evangélico tende a votar em candidatos de direita à Presidência”, afirma.
Os levantamentos indicam que as campanhas estaduais devem ser atravessadas por disputas que vão além das agendas locais. A capacidade de dialogar com eleitoras e evangélicos tende a influenciar a construção de alianças, a comunicação pública e o posicionamento dos candidatos ligados aos principais polos políticos do país.


