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Mundo vive era de imprevisibilidade e aceleração da História, diz Celso Amorim

Assessor especial do presidente Lula afirma na UFRJ que o colapso das regras internacionais empurra o planeta do “cosmos” ao “caos”

Celso Amorim (Foto: Roque de Sá/Agência Senado)

247 – O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que o mundo atravessa uma fase marcada pela “imprevisibilidade” e pela “aceleração da História”, em um cenário de guerras, erosão do direito internacional e enfraquecimento do sistema multilateral. A avaliação foi feita durante a palestra “O Brasil e o cenário internacional para 2026: desafios e oportunidades”, realizada na UFRJ e transmitida ao vivo pelo canal da ADUFRJ no YouTube, que também retransmitiu o encontro em parceria com outros veículos.

Na abertura, representantes da associação docente destacaram a preocupação com a escalada de conflitos geopolíticos e com seus efeitos sobre a vida política interna, mencionando o ambiente eleitoral de 2026, episódios de pressão da extrema direita sobre universidades e a defesa da reeleição do presidente Lula. Amorim, ao tomar a palavra, afirmou que falar de relações internacionais “num dia como hoje” é qualitativamente diferente de debater a guerra como hipótese, porque o planeta vive um momento em que crises se encadeiam e se transformam rapidamente.

“A maior característica dos nossos tempos”

Ao iniciar sua exposição, Amorim sintetizou sua leitura do período: “A maior característica dos nossos tempos é essa imprevisibilidade e aceleração da História”. Segundo ele, o ritmo das mudanças tornou o cenário global mais instável, a ponto de temas que pareciam centrais poucos dias antes perderem espaço diante de novas rupturas. Para o diplomata, a velocidade com que acontecimentos se sobrepõem amplia o risco de decisões precipitadas, escaladas militares e descontrole.

Ele também comparou a conjuntura atual com episódios históricos que viveu ou acompanhou de perto, como a crise dos mísseis em Cuba, observando que, apesar da gravidade daquele momento, havia um tema dominante e interlocutores que dialogavam. Hoje, na avaliação apresentada, múltiplas frentes se conectam, criando um ambiente de tensão permanente, com consequências difíceis de medir.

Do “cosmos” ao “caos”: erosão das regras e crise do direito internacional

Um dos eixos centrais da palestra foi a degradação do arcabouço institucional do pós-1945. Amorim lembrou que, com todas as falhas e assimetrias, existia um conjunto de regras e organismos — Nações Unidas, mecanismos econômicos e normas de comércio — que estruturavam disputas e ajudavam a conter arbitrariedades. O que ele enxerga agora é o movimento inverso: “o que nós estamos assistindo hoje não é uma evolução do caos pro cosmos, mas é uma evolução do cosmos para o caos”.

No mesmo raciocínio, Amorim criticou a ideia de que líderes substituam o direito internacional por critérios subjetivos. Ele mencionou a gravidade de um chefe de Estado declarar que não seguirá normas, mas “a própria moralidade”, advertindo que essa postura empurra o sistema para a lógica bruta da força e torna o ambiente global menos previsível e mais perigoso.

Também ao tratar de disputas tarifárias e conflitos econômicos, Amorim afirmou que o dano não é apenas pontual para países ou setores atingidos. Para ele, o maior risco está na desorganização geral e no enfraquecimento das regras internacionais que serviam de referência, ainda que imperfeitas, para a vida econômica global.

Multipolaridade não é “quintal”: BRICS e soberania

Ao abordar o debate estratégico, Amorim distinguiu multipolaridade de áreas de influência. Ele disse ver uma “confusão proposital” entre reconhecer a existência de vários centros de poder e aceitar que cada potência tenha seu “quintal”, em que faria valer sua vontade. Para o diplomata, essa ideia é incompatível com a soberania de países como o Brasil, que buscam autonomia e rejeitam intervenções externas.

Nesse ponto, ele ressaltou o papel do BRICS como instrumento importante para um mundo multipolar, justamente por reunir países de diferentes regiões e não se organizar a partir de um desenho territorial de influência. Amorim afirmou que o Brasil teve papel fundamental na criação do grupo e citou que, já no discurso de posse de Lula em 2003, havia uma diretriz de incentivar relações entre grandes países em desenvolvimento.

Mas, para ele, multipolaridade só produz estabilidade se vier acompanhada de multilateralismo. Ou seja: não basta haver mais de um polo de poder — é necessário que existam normas, regras e instituições respeitadas. Amorim defendeu uma multipolaridade “multilateral”, capaz de reduzir arbitrariedades e aumentar as chances de que regras sejam observadas.

Tecnologia, minerais críticos e projeto nacional

Amorim também citou desafios estruturais que combinam economia, soberania e disputas tecnológicas. Sobre inteligência artificial, afirmou que ela não pode ser tratada apenas como tema técnico, pois envolve escolhas políticas, modelos de desenvolvimento e domínio de sistemas.

Ao falar de minerais críticos e terras raras, descreveu posições em disputa no Brasil: a visão de vender rapidamente; a de exportar com algum grau de beneficiamento; e uma terceira perspectiva, alinhada à tradição de um “projeto nacional”, segundo a qual o país deve definir antes suas necessidades estratégicas — para produzir bens de maior valor agregado, dominar cadeias tecnológicas e proteger interesses nacionais em áreas sensíveis.

Diplomacia, paz e o papel da universidade em 2026

No encerramento, Amorim reforçou a defesa da paz e do diálogo como fundamentos da diplomacia. Ele afirmou que a convivência entre nações com interesses divergentes só é possível com negociação permanente e criticou a tendência contemporânea de abandonar mecanismos multilaterais.

Na rodada de perguntas, ao ser provocado sobre temas específicos, Amorim observou que muitas decisões dependem de múltiplos órgãos do Estado e de pressões que extrapolam escolhas individuais. Ainda assim, insistiu que a busca por saídas humanitárias e por canais de negociação não pode ser descartada, mesmo quando o ambiente internacional parece caminhar para a desordem.

A palestra na UFRJ projetou, assim, para 2026 um cenário global de alto risco, com guerras contaminando agendas decisivas e com a erosão de regras que antes serviam como referência mínima. Para Amorim, o desafio brasileiro é atuar para reconstruir o multilateralismo, fortalecer uma multipolaridade sem “quintais” e manter o diálogo como instrumento para impedir que o “cosmos” internacional se transforme definitivamente em “caos”.

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