"Não é hora" de acabar com a escala 6x1, diz Paulo Skaf
Presidente da Fiesp defende negociação coletiva e diz que mudança pode reduzir produtividade e ampliar informalidade no Brasil
247 - Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), voltou ao comando da entidade em janeiro e tem como uma de suas principais bandeiras o debate sobre mudanças na jornada de trabalho no Brasil. Em entrevista, ele criticou a proposta de extinção da escala 6x1 — seis dias de trabalho para um de descanso — e alertou para possíveis impactos negativos na economia.
As declarações foram concedidas à revista Veja, em edição publicada na sexta-feira (20). Skaf afirmou que a discussão sobre a jornada de trabalho precisa ser conduzida com cautela e fora de períodos eleitorais, para evitar decisões precipitadas.
Segundo ele, a diversidade dos setores produtivos exige flexibilidade. “A escala tem muito a ver com as características de cada setor — saúde, comércio, agricultura, indústria. Ninguém é contra discutir o assunto, mas isso não pode ocorrer no calor de um ano eleitoral”, disse. O dirigente acrescentou que mudanças rígidas podem limitar opções dos trabalhadores: “Você pode estar impedindo alguém de trabalhar de uma forma que lhe convenha para ganhar mais”.
Skaf também demonstrou preocupação com a possibilidade de aumento da informalidade. “Endurecer as regras do emprego com carteira é um convite à migração para a informalidade”, afirmou, ao mencionar experiências internacionais. Ele destacou que o Brasil possui cerca de 45 milhões de trabalhadores formais e número semelhante em atividades informais.
Ao comentar pesquisas que indicam apoio popular à redução da jornada, o presidente da Fiesp adotou tom crítico: “Querer ganhar o mesmo trabalhando menos é como chamar mais gente para o churrasco sem comprar mais carne”. Para ele, a medida pode comprometer a produtividade nacional, já considerada baixa.
Na avaliação de Skaf, o caminho mais adequado seria o fortalecimento da negociação coletiva entre empresas e trabalhadores. “Sim, pela negociação. É o que é moderno. O espírito da reforma trabalhista era exatamente este: menos legislação e mais negociação”, afirmou. Ele alertou ainda que a rigidez legal pode gerar distorções: “Reduzir horas trabalhadas nem sempre beneficia as pessoas, além de gerar aumento de preços”.
Além do debate trabalhista, Skaf abordou a situação econômica do país, destacando o impacto dos juros elevados sobre empresas. “Trabalhar com juros básicos três vezes maiores que a inflação e juros reais seis vezes mais altos não é sustentável”, declarou. Segundo ele, o cenário tem levado ao aumento de recuperações judiciais.
O dirigente também criticou o que considera excesso de gastos públicos e seus efeitos sobre a economia. “O governo deveria ser mais responsável com os gastos. A dívida do governo brasileiro está em torno de 10 trilhões de reais. E é crescente”, afirmou, ao apontar que o custo dos juros pressiona a atividade produtiva.
Sobre o cenário internacional, Skaf avaliou que a alta do petróleo pode impactar o Brasil, especialmente devido à dependência de importações de diesel. Ainda assim, defendeu a redução da taxa de juros interna, mesmo diante de possíveis pressões inflacionárias.
No campo político, o presidente da Fiesp reafirmou sua posição liberal. “Quero menos Estado, menos imposto, menos estatização, mais concorrência, mais modernidade, mais tecnologia, mais negociação e menos engessamento”, disse. Ele também declarou apoio a candidatos alinhados a essa visão: “Eu vou torcer para que a visão liberal ganhe e tenhamos um novo governo no ano que vem”.
Skaf afirmou que não pretende disputar cargos eletivos neste momento, destacando que sua prioridade é a atuação à frente da Fiesp. “Retornei à Fiesp e estou feliz aqui. É um privilégio presidir uma das entidades mais conceituadas do mundo, de forma voluntária, sem remuneração”, afirmou.
Por fim, ele comentou críticas ao Judiciário e ao Supremo Tribunal Federal (STF), apontando preocupações com segurança jurídica. “Estamos passando uma fase com bastante desconforto em relação ao Judiciário, em especial ao Supremo Tribunal Federal”, disse, defendendo mudanças institucionais e maior previsibilidade nas decisões.


