Negociadores do Brasil relatam cansaço e ‘teimosia política’ dos EUA em negociações sobre tarifas
Fontes do governo afirmam que faltam argumentos econômicos para as tarifas dos EUA e dizem que negociações enfrentam resistência de caráter ideológico
247 – As negociações entre Brasil e Estados Unidos para tentar reverter as novas tarifas impostas a produtos brasileiros seguem em clima de pessimismo. Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo, em reportagem do blog da jornalista Míriam Leitão, negociadores brasileiros avaliam que há pouca perspectiva de mudança na posição americana a apenas 19 dias do encerramento do prazo concedido por Washington para que o Brasil apresente seus argumentos contra a taxação.
De acordo com a publicação, integrantes da equipe brasileira que participam das conversas atribuem o impasse a uma postura que classificam como de natureza política e ideológica por parte do governo dos Estados Unidos, atualmente presidido por Donald Trump. Na avaliação desses negociadores, os argumentos econômicos apresentados pelo Brasil vêm sendo reconhecidos nas reuniões bilaterais, mas não têm produzido efeitos práticos.
Um dos negociadores descreveu o momento como de desgaste crescente e afirmou que as discussões deixaram de seguir critérios considerados racionais.
"É muito cansativo. A gente argumenta, e eles dão razão nas conversas bilaterais. Então, parece haver uma teimosia de ordem política, de outra natureza. E o que você faz quando existe um viés ideológico? Porque está sendo ideológico, claramente. Não há argumento pragmático nem racional para essa política externa dos Estados Unidos em relação ao Brasil. Não faz nenhum sentido o que está acontecendo. Esse é o ponto. Usamos todos os argumentos, mas eles respondem com outros artifícios. Então é muito cansativo. Essa é a verdade", relatou
Segundo a fonte ouvida pelo blog, o principal problema é que a justificativa utilizada pelos Estados Unidos para ampliar sua política tarifária não se aplica à relação comercial com o Brasil. O negociador lembra que a estratégia protecionista americana foi apresentada com base no déficit comercial dos EUA em relação à China, situação que, segundo ele, não encontra paralelo nas trocas comerciais entre brasileiros e americanos.
Ao explicar essa diferença, o representante brasileiro ressaltou que, na relação bilateral, é o Brasil quem registra déficit comercial, principalmente devido às compras de produtos e serviços de maior valor agregado provenientes dos Estados Unidos.
"Os Estados Unidos começam a impor essas tarifas no novo mandato de Trump, basicamente com o argumento do desequilíbrio comercial com a China. Dizem que vão elevar tarifas sobre os produtos chineses para reduzir as importações de bens e serviços. Ok, entendi a lógica do Trump. Não estou dizendo que concordo. Mas, quando você olha para a relação Brasil-Estados Unidos, somos nós que estamos tirando dinheiro brasileiro, comprando dólares para adquirir medicamentos, serviços de computação em nuvem e tecnologia dos americanos. Enquanto isso, os Estados Unidos mandam dinheiro para comprar café, suco de laranja e carne do Brasil. Ou seja, nós é que temos déficit nessa relação", disse.
Na mesma declaração, o negociador argumentou que a lógica utilizada por Washington para justificar sua política comercial em relação à China não se sustenta quando aplicada ao Brasil.
"É como se, nessa comparação, o Brasil ocupasse o lugar dos Estados Unidos na disputa com a China, e os Estados Unidos ocupassem o lugar da China. A própria régua americana não serve para medir essa relação. É um absurdo”, completou.



