Nicolelis alerta para riscos da IA e critica data centers no Brasil
Neurocientista afirma que avanço sem debate público ameaça soberania, educação, trabalho, democracia e infraestrutura nacional
247 - O neurocientista Miguel Nicolelis afirmou que a expansão da inteligência artificial, dos data centers e do poder das big techs representa uma ameaça à soberania nacional, à democracia, à educação e à autonomia do pensamento humano, em entrevista ao Giro das Onze, do Brasil 247. Segundo ele, o avanço dessas tecnologias sem debate público e sem um projeto nacional pode aprofundar formas de dependência econômica, vigilância social e submissão política.
Nicolelis antecipou reflexões de seu novo livro e classificou o atual ciclo de expansão da inteligência artificial como parte de um processo mais amplo de concentração de poder. Para o cientista, o problema não está apenas nas ferramentas tecnológicas, mas no modelo de negócios e na ideologia que sustentam sua adoção acelerada por governos, empresas, tribunais, universidades e sistemas educacionais.
“É a primeira vez na história onde nós criamos algo que pode colocar o nosso futuro em perigo, prevenindo a nós de saber como criar esse futuro por nós mesmos”, afirmou, ao comentar a perda de autonomia humana diante de sistemas digitais que passam a intermediar decisões, pesquisas e relações sociais.
Para o neurocientista, a inteligência artificial tem sido apresentada como um caminho inevitável, mas esse discurso encobre interesses econômicos e políticos. Ele afirmou que as grandes empresas do setor tentam transformar a IA em uma infraestrutura indispensável para governos e indivíduos, criando dependência contínua de plataformas privadas.
“Eles usam o usuário comum, uma pessoa física, para propagar o mito de que esse é um futuro irreversível, que todo mundo vai ter que usar IA para tudo”, declarou.
Riscos para a Justiça e para a democracia
Nicolelis dedicou parte da entrevista a criticar o uso de sistemas automatizados em áreas sensíveis, como Justiça, saúde e concessão de crédito. Segundo ele, tecnologias baseadas em inteligência artificial podem reproduzir preconceitos e decisões opacas, sem que a sociedade saiba quais critérios estão sendo utilizados.
“No momento que você delega para um sistema que carrega dentro de si todos os preconceitos e todos os baias de quem o criou, que é uma das grandes denúncias do momento atual”, afirmou.
Ele citou casos nos Estados Unidos em que softwares usados por tribunais e órgãos públicos teriam apresentado viés contra afro-americanos e hispânicos. Na avaliação do cientista, esse tipo de delegação tecnológica fragiliza estruturas democráticas.
“Você começa a demolir a estrutura jurídica, política, econômica de qualquer democracia”, disse.
Nicolelis também criticou a ideia de que sistemas de inteligência artificial seriam mais objetivos do que juízes. Para ele, essa visão ignora a complexidade da decisão humana e o fato de que algoritmos não são neutros. “Você não pode reduzir isso a um algoritmo”, afirmou.
Crítica aos data centers no Brasil
Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica ao avanço dos grandes data centers no Brasil. Nicolelis diferenciou a infraestrutura digital necessária para a internet e para a proteção de dados nacionais dos chamados hyperscale data centers, voltados a operações massivas de inteligência artificial.
“O que nós estamos falando é dos hyper scale data centers, data centers de IA”, disse. Segundo ele, esses empreendimentos envolvem outra escala de consumo de água, energia e recursos naturais.
Para o neurocientista, o Brasil corre o risco de importar um modelo já contestado em outros países. Ele afirmou que comunidades nos Estados Unidos têm reagido à instalação desses centros por causa de impactos como ruído, calor, uso intensivo de água, consumo de energia e ocupação de terras.
Nicolelis criticou a crença de que a instalação dessas estruturas traria transferência de tecnologia ao país. “Não tem nenhuma. Zero”, afirmou. Ele também disse que a chegada desses empreendimentos não garante geração expressiva de empregos nem controle nacional sobre dados.
“Basicamente sem nenhuma geração de empregos de monta, sem nenhum tipo de transferência de tecnologia”, declarou.
Redata e soberania digital
Nicolelis também fez críticas ao Redata, programa voltado à atração de investimentos em data centers. Para ele, a proposta deveria ser retirada da pauta e reavaliada antes de avançar.
“Se houvesse qualquer coerência no discurso do governo federal, esse projeto tinha que ser retirado, removido da votação no Senado e reavaliado”, afirmou.
O cientista defendeu que o Brasil desenvolva uma estratégia própria para a indústria digital, sem subordinação automática às grandes corporações estrangeiras. Segundo ele, o país precisa discutir publicamente que tipo de infraestrutura deseja construir e quais interesses devem orientar essa política.
“Nós temos que ter uma estratégia, um plano nacional da indústria digital, não atrelado necessariamente a nenhuma dessas empresas”, disse.
Nicolelis afirmou ainda que a simples presença física de data centers no território brasileiro não garante que os dados do país permaneçam sob controle nacional. “Os dados não vão ficar aqui, pode dar certo”, declarou, em tom crítico.
Para ele, o debate sobre soberania digital precisa envolver cientistas, universidades, especialistas em tecnologia, juristas e a sociedade civil. O problema, segundo o neurocientista, é que decisões estratégicas vêm sendo tomadas sob influência de uma visão tecnocrática.
“O Brasil acha que tecnologia é ciência”, afirmou.
Educação e perda de capacidade cognitiva
Questionado sobre o uso de grandes modelos de linguagem por estudantes, Nicolelis afirmou que já existem sinais preocupantes de terceirização de atividades cognitivas. Ele disse que práticas como usar inteligência artificial para escrever trabalhos, resumir textos e interpretar conteúdos podem comprometer habilidades fundamentais.
“Nós temos máquinas escrevendo papers que são revisados por máquinas para serem lidos por máquinas”, afirmou, ao criticar o uso da IA na produção científica.
Para o neurocientista, a adoção indiscriminada dessas ferramentas pode prejudicar a formação de estudantes e pesquisadores. Ele afirmou que leitura, escrita, síntese, interpretação e análise são competências que dependem de exercício constante.
“No limite nós vamos perder a capacidade de pensar por nós mesmos”, disse.
Nicolelis também comparou a dependência da inteligência artificial a uma bengala cognitiva. Segundo ele, uma geração acostumada a delegar tarefas intelectuais básicas pode se tornar menos capaz de produzir conhecimento de forma autônoma.
O cientista defendeu, no entanto, que há usos legítimos de ferramentas computacionais. Para ele, a estatística e a análise de grandes conjuntos de dados podem ser úteis à ciência, desde que não substituam a inteligência humana.
“O uso útil é o uso da estatística”, afirmou.
Em seguida, completou: “O que eu deploro e vou continuar deplorando é a substituição do ser humano em qualquer capacidade, seja intelectual ou física”.
Modelo de negócios das big techs
Nicolelis afirmou que o verdadeiro modelo de negócios das empresas de inteligência artificial não está baseado apenas em assinaturas individuais, mas no acesso a recursos públicos, contratos governamentais e grandes volumes de capital financeiro.
“O business plan dessas empresas não é ganhar dinheiro com assinaturas de usuários individuais”, disse.
Segundo ele, essas companhias buscam vender a ideia de que governos e sociedades precisam aderir imediatamente à IA para não ficarem para trás. O cientista afirmou que esse discurso cria pressão política e econômica sobre países como o Brasil.
Para Nicolelis, há também uma dimensão geopolítica na disputa. Ele disse que empresas norte-americanas usam a competição com a China como justificativa para ampliar investimentos, captar recursos e flexibilizar regras. Na avaliação dele, o modelo chinês de inteligência artificial teria características distintas, mais voltadas a aplicações práticas e custos menores.
O neurocientista citou o exemplo da DeepSeek, que, segundo ele, teria desenvolvido modelos mais eficientes e baratos. “Um bando de moleque que nunca saiu da China, que nunca foi estudar no MIT, todos formados pelas universidades chinesas criaram um modelo mais eficiente, mais barato e não cobram nada para você usar”, afirmou.
Vigilância, controle e dependência
Outro ponto destacado por Nicolelis foi o risco de a inteligência artificial se tornar uma ferramenta de vigilância em escala inédita. Ele afirmou que, se empresas passarem a controlar o acesso à inteligência como um serviço pago, poderão também concentrar informações sobre a vida, o trabalho e o pensamento das pessoas.
“Se você elimina o pensamento crítico, se você elimina a inteligência orgânica e se você prove os caras acesso a tudo que você produz, seus e-mails, seus artigos, seus livros, basicamente você cria o maior sistema de dominação, controle e vigilância da história”, disse.
Para o cientista, esse cenário seria “o sonho de qualquer ditadura”. Ele afirmou que o controle sobre dados pessoais, produção intelectual, plataformas de comunicação e infraestrutura digital pode reduzir drasticamente a autonomia dos cidadãos.
Nicolelis também criticou a ideia de substituir computadores pessoais por dispositivos dependentes da nuvem. Segundo ele, esse modelo ampliaria a dependência dos usuários em relação às empresas que controlam servidores, plataformas e capacidade de processamento.
Ciência brasileira e projeto nacional
Ao falar sobre ciência no Brasil, Nicolelis afirmou que o país tem talento humano e uma ampla rede pública universitária, mas carece de um projeto nacional capaz de transformar esse potencial em desenvolvimento soberano.
“O Brasil tem uma das maiores, se não a maior, eu acho que é a maior nesse momento, rede pública universitária do mundo”, afirmou.
Segundo ele, pesquisadores brasileiros são sufocados por múltiplas funções, falta de financiamento estável e ausência de prioridades estratégicas. Nicolelis disse que o país precisa tratar ciência como elemento central da política nacional, e não como tema secundário subordinado a interesses burocráticos.
“A minha visão é de usar a ciência para engrandecimento da sociedade, da vida humana e da civilização humana”, declarou.
O neurocientista também afirmou que não aceitaria assumir cargo público de direção na área científica. Para ele, sua visão de ciência entraria em choque com a lógica tecnocrática predominante.
“Se convidado, não aceitarei. Se eleito não assumirei”, disse, citando a frase atribuída ao general William Sherman.
Ao responder a uma mensagem sobre soberania científica e tecnológica, Nicolelis afirmou que o Brasil tem capacidade humana para construir alternativas próprias.
“Tem um Santos Dumont em cada esquina do Brasil. O problema é que o Santos Dumont precisa de um aeroporto para decolar”, declarou.
Democracia em crise
Na parte final da entrevista, Nicolelis relacionou o avanço das big techs à crise global da democracia representativa. Segundo ele, jovens em diferentes países perdem a confiança de que podem ser ouvidos pela classe política, abrindo espaço para projetos tecnocráticos e autoritários.
“A democracia representativa tá morrendo no mundo todo porque as camadas de jovens estão perdendo a esperança que eles podem ser ouvidos pela classe política”, afirmou.
Para o cientista, as grandes corporações de tecnologia tentam ocupar esse vazio com a promessa de eficiência, previsibilidade e controle. Ele classificou esse projeto como uma ameaça à diversidade das nações e das culturas.
“Esse é o projeto global desses caras, instituir uma monarquia tecnocrática global, onde não existem nações, não existem governantes locais, não existem culturas locais, porque tudo vai ser homogeneizado segundo o plano deles”, disse.
Nicolelis encerrou sua análise defendendo que inovação e progresso só têm sentido quando servem à melhoria da vida humana, e não apenas à geração de lucro privado.
“O progresso, a inovação só vale a pena, só é real quando ele beneficia a condição humana”, afirmou.



