PF amplia presença na Amazônia e cria três novas delegacias para enfrentar facções e crimes ambientais
Novas unidades serão instaladas em Tefé, Humaitá e Itaituba, áreas estratégicas para combate ao tráfico de drogas e ao garimpo ilegal
247 - A Polícia Federal (PF) está reforçando sua atuação na Amazônia com a criação de três novas delegacias em municípios considerados estratégicos para o enfrentamento do crime organizado e dos delitos ambientais. As unidades serão instaladas em Tefé e Humaitá, no Amazonas, e em Itaituba, no Pará, regiões apontadas por órgãos de inteligência como importantes corredores para o tráfico de drogas, o garimpo ilegal e outras atividades criminosas.
A iniciativa ocorre em meio ao avanço de organizações criminosas na Amazônia, cenário que tem preocupado autoridades de segurança pública e especialistas devido à crescente integração entre diferentes modalidades de crimes na região.
De acordo com investigações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e análises de especialistas, o Comando Vermelho (CV) é atualmente uma das principais facções com presença na Amazônia, mantendo conexões com narcotraficantes colombianos e ampliando sua influência sobre rotas estratégicas utilizadas para o transporte de drogas e mercadorias ilegais.
Segundo o delegado Renato Madsen Arruda, coordenador-geral de Proteção da Amazônia, Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico e Cultural da PF, a delegacia de Tefé deverá desempenhar papel central nas ações contra o crime organizado, especialmente no combate ao tráfico de drogas.
Localizada às margens do rio Solimões, Tefé é considerada uma área estratégica por integrar uma das principais rotas utilizadas para o transporte de entorpecentes na Amazônia. Além disso, relatórios produzidos pela Abin em conjunto com a Direção Nacional de Inteligência da Colômbia (DNI), divulgados no fim de 2025, apontam o município como peça importante na logística ligada ao garimpo ilegal de ouro.
Os documentos indicam que Tefé e o município vizinho de Coari funcionam como centros de abastecimento para operações clandestinas de mineração, principalmente por meio do transporte de combustíveis e outros insumos destinados a áreas de extração ilegal. Parte do ouro retirado em regiões próximas à fronteira com a Colômbia também seria comercializada diretamente nesses municípios, sem registros formais.
Outra parcela da produção, segundo o levantamento, segue para centros de comercialização e regularização fraudulenta do minério. Um dos principais pontos citados é Itaituba, no sudoeste do Pará, onde o ouro extraído ilegalmente pode ser inserido no mercado formal por meio da emissão de notas fiscais irregulares ou fraudulentas.
A cidade paraense, conhecida nacionalmente como “cidade pepita”, é considerada um dos principais polos de extração e comércio de ouro do país. Sua posição geográfica reforça sua relevância estratégica: o município é cortado pela BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA), além da Rodovia Transamazônica (BR-230), uma das principais vias de integração da região Norte.
Os órgãos de inteligência do Brasil e da Colômbia também identificaram indícios de que Itaituba seja utilizada como ponto de partida para o transporte aéreo de ouro para outros estados brasileiros e até para o exterior. As operações envolveriam o uso de pistas regulares, estruturas clandestinas e aeródromos não autorizados localizados em áreas próximas.
Já Humaitá, terceira cidade contemplada com uma nova delegacia da PF, foi escolhida por sua localização estratégica em uma região marcada pela presença de unidades de conservação, terras indígenas e intensa atividade mineral. O município está situado próximo ao trecho final da Transamazônica e é atravessado pela BR-319, rodovia que conecta Manaus a Porto Velho.
Ao justificar a escolha da cidade, Arruda destacou sua importância geográfica e ambiental. “Humaitá é um arco de grande relevância e interesse estratégico, com muitas unidades de conservação, terras indígenas, áreas protegidas federais e o rio Madeira, que tem muita extração de ouro”, afirmou.
Investigação é essencial para desarticular organizações criminosas
Para especialistas, o fortalecimento da presença da Polícia Federal na Amazônia pode gerar impactos que vão além das operações ostensivas e da repressão imediata aos crimes.
A diretora de Pesquisa do Instituto Igarapé, Melina Risso, avalia que as novas delegacias poderão ampliar a capacidade de investigação e contribuir para o desmonte das estruturas financeiras e logísticas das organizações criminosas.
“A operação policial, para situação de crise e de emergência, é importante para interromper o fato, mas ela não desestrutura a organização criminosa”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, o trabalho investigativo aprofundado é fundamental para garantir responsabilização efetiva dos envolvidos. “A chegada das delegacias é muito importante porque reforça a capacidade de fazer o esclarecimento desses crimes em todas as suas dimensões, com um inquérito policial que consiga levar a um processo de condenação, porque eles são crimes que tendem a ser mais complexos”, disse.
Risso destaca ainda que os crimes ambientais geralmente estão associados a uma série de outras infrações, o que amplia a gravidade das ações criminosas. “Se a gente olhar só a pena do crime ambiental, ela é muito pequena. O conjunto de crimes associados para fazer com que a estrutura gere lucro é fundamental no crime ambiental. E é na composição das penas desses diferentes crimes que você consegue gerar uma condenação com um tamanho de pena grande”, explicou.
Entre os delitos frequentemente ligados à exploração ilegal de recursos naturais estão falsificação documental, corrupção de agentes públicos, lavagem de dinheiro e fraude em processos de fiscalização.
Convergência entre diferentes atividades criminosas
A Polícia Federal também observa o crescimento de um fenômeno conhecido como “convergência criminal”, caracterizado pela cooperação entre grupos que atuam em atividades ilícitas distintas, mas compartilham recursos e estruturas para ampliar seus lucros.
Segundo Arruda, há exemplos claros dessa dinâmica na Amazônia, especialmente envolvendo traficantes de drogas e garimpeiros ilegais. “Percebemos ali um compartilhamento de meios logísticos para crimes distintos”, afirmou.
Para viabilizar o funcionamento das novas unidades, a PF já iniciou a aquisição de veículos, equipamentos e infraestrutura operacional. O efetivo das delegacias deverá ser composto por policiais federais que concluirão sua formação nos próximos meses na Academia Nacional de Polícia.



