PF aponta que Vorcaro também comandou esquema em parceria com operadores do jogo do bicho
O grupo, segundo a investigação, teria vínculos com operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais.
247 - A Polícia Federal apontou que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria contado com um braço operacional no Rio de Janeiro para ameaçar, constranger e vigiar pessoas consideradas desafetas ou contrárias aos interesses do banco. O grupo, segundo a investigação, teria vínculos com operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais.
As informações são do jornal O Globo e constam da decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a sexta fase da Operação Compliance Zero. No despacho, Mendonça relata que a PF identificou dois núcleos operacionais vinculados, em tese, à organização criminosa atribuída a Daniel Vorcaro: “A Turma”, voltada a intimidações presenciais e obtenção de dados sigilosos, e “Os Meninos”, dedicado a ataques cibernéticos e monitoramento telemático ilegal.
De acordo com a decisão, o núcleo “A Turma” seria responsável por ações presenciais de intimidação, coerção, levantamentos clandestinos, obtenção de informações protegidas por sigilo e acessos indevidos a sistemas governamentais. A investigação afirma que esse braço operacional era acionado para atender comandos vindos do núcleo central da organização.
No Rio de Janeiro, a PF atribui a Manoel Mendes Rodrigues papel de liderança local dentro da estrutura. Ele é descrito na decisão como “operador do jogo do bicho” e apontado como integrante da “Turma”, com função de comandar um braço regional composto por pessoas ainda não totalmente identificadas, aptas a acompanhá-lo em ameaças presenciais a mando de Daniel Vorcaro.
Segundo a decisão de Mendonça, a autoridade policial considerou plausível inferir que esse braço local era formado por operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais. O ministro registrou que essa composição conferia especial gravidade ao papel atribuído a Manoel, descrito como elo entre o comando central da organização e a força local usada para intimidação física e constrangimento direto de alvos.
Um dos episódios citados pela PF teria ocorrido em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, em 4 de junho de 2024. Conforme a investigação, após acionamento de Daniel Vorcaro, integrantes da “Turma” se deslocaram até a Marina Bracuhy para ameaçar Luis Felipe Woyceichoski, então comandante da embarcação usada pelo banqueiro.
Na sequência, segundo a decisão, o grupo teria ido ao Hotel Nacional Inn para intimidar Leandro Garcia, ex-chefe de cozinha apontado como desafeto de Vorcaro. A PF afirma que o caso demonstraria atuação concreta do subnúcleo carioca em ações presenciais de pressão e ameaça.
A investigação também cita mensagens nas quais Daniel Vorcaro teria encaminhado documentos de Luis Felipe a Felipe Mourão e determinado que fosse feito “levantamento de tudo” e que “teriam que ir pra cima”. Ainda conforme o relato da decisão, Vorcaro também teria ordenado levantamento de dados de Leandro Garcia e de familiares dos dois alvos.
Em resposta, Felipe Mourão teria encaminhado áudios de Marilson Roseno informando que os levantamentos estavam em andamento. A decisão registra ainda que foi questionado qual seria o tipo de ação determinada: acompanhamento, monitoramento ou abordagem direta.
Para Mendonça, o conjunto de elementos descrito pela PF indica que o subnúcleo do Rio atuava a partir de ordens concretas do núcleo central. Na avaliação registrada na decisão, Manoel Mendes Rodrigues aparece, em tese, como um dos executores locais dessas determinações.
Os relatos de vítimas e testemunhas também foram usados pela PF para vincular Manoel às supostas ameaças presenciais. Segundo a decisão, Luis Felipe Woyceichoski relatou ter sido ameaçado de morte por cerca de sete homens e afirmou que um dos interlocutores se identificou como Manoel, amigo de Daniel Vorcaro, que “mexia com jogo do bicho”.
Leandro Garcia também teria descrito abordagem semelhante, com a presença de Felipe Mourão e de um homem identificado como “Manoel/Emanuel”. Já Tatiana Dantas Carta, então chefe de comissários de bordo da embarcação Solar I, afirmou ter sido abordada por seis a sete homens que procuravam por Luis Felipe.
A Polícia Federal também informou ter realizado procedimento de reconhecimento com base nas descrições físicas fornecidas por Leandro Garcia. De acordo com a decisão, após analisar fotografias, o ex-chefe de cozinha afirmou com elevado grau de certeza que uma das imagens correspondia a Manoel Mendes Rodrigues.
Outro ponto destacado pela investigação foi o fluxo de comunicações entre integrantes da suposta estrutura. No intervalo entre a noite de 2 de março de 2026 e a noite de 3 de março de 2026, às vésperas da terceira fase ostensiva da Operação Compliance Zero, Felipe Mourão e Manoel Mendes teriam trocado 58 mensagens de WhatsApp.
A PF também apontou que Marilson Roseno, policial federal aposentado e indicado como liderança operacional da “Turma”, teria se reunido com Felipe Mourão em um veículo. No mesmo contexto, teriam ocorrido contatos telefônicos com Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, e, depois, com Manoel Mendes. Para a autoridade policial, essa sequência indicaria tratativas envolvendo os principais integrantes do núcleo.
Na decisão, André Mendonça afirma que a liderança local atribuída a Manoel é particularmente grave porque projeta a atuação da organização para além do círculo imediato de Marilson e dos policiais federais identificados. Segundo o ministro, esse desdobramento territorializado teria potencial uso de força privada ou paramilitar em favor dos interesses da família Vorcaro.
O despacho também destaca que Manoel aparece, nesta fase da investigação, como responsável por disponibilizar mão de obra intimidatória e presença física no Rio de Janeiro, servindo como instrumento de coerção para a organização criminosa.
A decisão afirma que a “Turma” teria feito levantamentos de dados pessoais e familiares, cogitado acompanhamento, monitoramento de telefone e “conversa com a mesma língua”. Para a PF, o conjunto indicaria preparação, mobilização e disponibilidade para ação imediata contra pessoas que detinham informações sensíveis ou contrariavam interesses de Daniel Vorcaro.
Ao resumir a suspeita contra Manoel Mendes Rodrigues, Mendonça registrou que ele teria desempenhado papel de executor presencial e articulador territorial do núcleo “A Turma”. Segundo a decisão, a atuação envolveria liderança de braço local no Rio, mobilização de quatro a seis pessoas para ameaças, participação nas intimidações em Angra dos Reis e uso de sua posição vinculada ao jogo do bicho como instrumento de pressão física e moral.
A sexta fase da Operação Compliance Zero foi autorizada no contexto das apurações sobre o Banco Master. No mesmo despacho, Mendonça decretou prisões preventivas e medidas cautelares contra investigados apontados como integrantes, financiadores, colaboradores ou agentes de apoio dos núcleos “A Turma” e “Os Meninos”.
Segundo o ministro, o acervo descrito pela PF aponta para uma organização criminosa sofisticada, com braços presencial, policial-informacional, financeiro e tecnológico. Para Mendonça, as medidas eram necessárias diante da gravidade concreta dos fatos, da contemporaneidade da atuação investigada, do risco de reiteração dos ilícitos e do potencial de embaraço às investigações.



