PF indicia chefe da ANM por mineração ilegal em MG
Investigação aponta uso de recuperação ambiental como fachada para extração irregular de minério na Serra do Curral
247 - A Polícia Federal indiciou o diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mauro Sousa, sob suspeita de participação em uma associação criminosa voltada à exploração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Minas Gerais. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a investigação afirma que planos de recuperação ambiental teriam sido usados como fachada para viabilizar a extração, o beneficiamento e a comercialização irregular de minério.
De acordo com a PF, Sousa teria se valido do cargo público para favorecer interesses privados da Empabra Green Metals, empresa investigada por lavra irregular, usurpação mineral e infrações ambientais. Procurado, o diretor-geral da ANM afirmou que irá se manifestar quando tiver acesso à íntegra do relatório, o que, segundo ele, ainda não ocorreu. Sousa comanda a agência desde 2022.
Ao todo, 51 pessoas foram indiciadas em dois inquéritos ligados às operações Rejeito e Parcours, conduzidas pela superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais. Além de Sousa, a lista inclui outro diretor da ANM, Caio Trivelatto; o ex-assessor do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), Pablo César de Sousa; e o empresário Lucas Kallas, ligado ao setor de mineração.
A defesa de Kallas afirmou, em nota, ter confiança na demonstração de inocência do empresário. “Lucas não tem relação com a empresa investigada desde 2017 e, antes disso, havia sido apenas investidor”, declarou. Já Pablo César de Sousa disse que não comentaria o mérito do caso neste momento, mas afirmou que sempre pautou sua atuação pública e profissional pela ética. A reportagem original informou que não havia conseguido contato com Trivelatto até a publicação.
O núcleo da apuração envolve a Mina Granja Corumi, em Belo Horizonte. Para os investigadores, instrumentos formalmente destinados à recuperação ambiental e ao fechamento de mina teriam sido desviados de sua finalidade para encobrir uma atividade minerária irregular e economicamente organizada.
No relatório, a Polícia Federal afirma que as provas indicam “a transformação de um dever de recuperação ambiental em atividade minerária profissional, economicamente orientada, com divisão de tarefas e mecanismos de captura institucional”. A corporação também sustenta que “as alegações de recuperação ambiental foram utilizadas como suporte formal para viabilizar extração, beneficiamento, logística e comercialização de minério em desconformidade com os limites jurídicos”.
Anotações apreendidas durante a investigação apontam que os envolvidos buscavam obter lucro de até R$ 2,3 bilhões com a chamada “monetização do minério”, expressão usada para se referir à extração ilegal de recursos minerais da Serra do Curral.
Segundo a PF, Mauro Sousa mantinha uma relação “próxima, frequente e informal” com representantes da empresa investigada. O relatório cita mensagens interceptadas e registros de 61 telefonemas realizados entre 2023 e 2025. Para os investigadores, esse contato revelaria uma “relação incompatível com a impessoalidade esperada entre o dirigente máximo da agência e o empresário do setor regulado, com tratativas pessoais e acompanhamento privilegiado de temas internos da ANM”.
A investigação aponta ainda que Sousa teria antecipado informações internas da agência a empresários, encaminhado demandas à área técnica, feito considerações prévias sobre minutas da empresa e atuado como facilitador do grupo dentro da ANM. Além de integrar suposta associação criminosa, ele também deverá responder por advocacia administrativa e tráfico de influência.
Lucas Kallas foi indiciado sob a acusação de ter comandado a extração irregular de minério entre 2014 e 2018, período em que teria gerido a mina antes de deixar o negócio. A PF atribui a ele crimes como lavagem de dinheiro, corrupção ativa e tráfico de influência. O relatório menciona, entre os indícios, o pagamento do plano de sócio-torcedor de um funcionário da ANM, tratado pela investigação como propina.
Já Caio Trivelatto, também diretor da ANM, é apontado pela Polícia Federal como alguém que teria atuado para atender interesses de empresários investigados. Segundo o relatório, ele teria influenciado atos normativos e decisões administrativas com o objetivo de favorecer mineradores.
As operações Rejeito e Parcours miram um esquema que, segundo a PF, teria combinado exploração mineral irregular, influência sobre órgãos públicos e uso de mecanismos ambientais como justificativa formal para atividades econômicas não autorizadas. O caso segue sob investigação em Minas Gerais.



