PF revela esquema que unia Grupo Fictor e Comando Vermelho em fraudes bancárias
Investigação aponta uso de empresas de fachada e estrutura financeira para lavagem de dinheiro e prejuízos milionários a bancos
247 - A Polícia Federal (PF) identificou um esquema estruturado de fraude bancária e lavagem de dinheiro que teria ligação direta entre o Grupo Fictor e integrantes do Comando Vermelho, segundo investigação revelada nesta semana. De acordo com os investigadores, a organização utilizava um sistema sofisticado baseado em empresas de fachada, contabilidade fraudada e cooptação de funcionários de instituições financeiras.
As informações foram divulgadas pelo portal G1. Segundo a PF, as investigações tiveram início em 2024, após a identificação de indícios de um modelo profissional de fraude com ramificações no setor financeiro e conexões com o crime organizado do Rio de Janeiro.
Estrutura criminosa e atuação integrada
De acordo com a investigação, o Grupo Fictor exercia papel central no esquema, funcionando como o núcleo financeiro das operações ilegais. A organização injetava recursos para simular fluxos de caixa, estruturava empresas fictícias e operava mecanismos destinados a enganar instituições financeiras.
A PF afirma que células do Comando Vermelho utilizavam a mesma estrutura para lavar dinheiro oriundo do tráfico de drogas. Os recursos ilícitos eram inseridos no sistema financeiro por meio de empresas de fachada e contabilidade manipulada, sendo posteriormente convertidos em bens de luxo e criptoativos, dificultando o rastreamento.
Para os investigadores, o compartilhamento dessa estrutura evidencia a existência de um “ecossistema criminoso” envolvendo empresários, operadores financeiros e facções criminosas.
Modelo baseado em empresas fictícias
O esquema operava a partir de seis pilares principais: criação em massa de empresas fictícias, uso de “laranjas”, contabilidade fraudada, movimentação artificial de dinheiro, participação de funcionários de bancos e inadimplência planejada.
As empresas eram abertas com características padronizadas e chegavam a cumprir obrigações fiscais iniciais para aparentar regularidade. Em seguida, documentos contábeis como DRE e declarações fiscais eram manipulados para simular alto faturamento.
Paralelamente, o grupo promovia movimentações financeiras artificiais — como pagamentos cruzados e transferências internas — criando um histórico bancário inflado. Esse cenário levava instituições financeiras a conceder crédito elevado, permitindo a circulação de valores ilícitos sem suspeitas imediatas.
Participação de funcionários de bancos
A PF aponta que o esquema só funcionava com a participação direta de funcionários de instituições financeiras. Gerentes bancários inseriam dados falsos nos sistemas internos, facilitando operações fraudulentas e a liberação de crédito com base em informações manipuladas.
O modelo era planejado para durar entre um ano e um ano e meio. Após esse período, as empresas eram abandonadas, deixando dívidas e dificultando a recuperação dos valores. Instituições como Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Safra teriam sofrido prejuízos milionários.
Operação Fallax e medidas judiciais
A chamada Operação Fallax foi deflagrada pela Polícia Federal com o cumprimento de 43 mandados de busca e apreensão e 21 de prisão preventiva em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. A Justiça Federal também determinou o bloqueio de bens até o limite de R$ 47 milhões.
As fraudes investigadas podem ultrapassar R$ 500 milhões, segundo a PF. Além disso, houve autorização para quebra de sigilo bancário e fiscal de 33 pessoas físicas e 172 jurídicas.
Os investigados poderão responder por organização criminosa, estelionato qualificado, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, corrupção ativa e passiva e crimes contra o sistema financeiro nacional, com penas que podem superar 50 anos de prisão.
Alvos e manifestações das defesas
Mandados foram cumpridos contra o CEO da Fictor, Rafael Góis, e o ex-sócio Luiz Rubini. A defesa de Góis informou que apenas um celular foi apreendido e declarou:
"Foi realizada hoje diligência de busca e apreensão na residência de Rafael Góis, CEO da Fictor, no âmbito de investigação conduzida pela Polícia Federal. Apenas o seu celular foi apreendido. Tão logo sua defesa tenha acesso ao conteúdo da investigação, serão prestados os esclarecimentos necessários às autoridades competentes, com o objetivo de elucidar os fatos"
Já a defesa de Luiz Rubini afirmou que não teve conhecimento prévio do processo e que irá se manifestar posteriormente.
Impacto financeiro e crise no grupo
Após a liquidação do banco ligado ao grupo, a Fictor enfrentou uma crise reputacional, com resgates de cerca de R$ 2 bilhões por investidores. A situação levou ao pedido de recuperação judicial das empresas Fictor Holding e Fictor Invest.
Posicionamento da Caixa
Em nota, a Caixa Econômica Federal destacou sua atuação no combate a fraudes e colaboração com autoridades. O banco afirmou:
"A CAIXA informa que atua permanentemente em cooperação com os órgãos de segurança pública e de controle, especialmente a Polícia Federal, no combate a fraudes bancárias, estelionatos e crimes de lavagem de dinheiro. A operação deflagrada é resultado direto de investigações conduzidas pelas autoridades competentes, com base em informações e comunicações realizadas pelo banco no curso regular dos mecanismos de monitoramento e notificação de indícios suspeitos"
A instituição também ressaltou seu compromisso com a integridade e a transparência, além de afirmar que adota políticas rigorosas para prevenção de crimes financeiros.

