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Se Lula tiver a ousadia de sugerir uma mulher negra ao STF, vamos encher o Senado, diz Marcia Barbosa

Reitora da UFRGS defende indicação ao Supremo como medida de eficiência institucional, justiça histórica e proteção às mulheres na política

Sessão plenária do STF - 08/04/2026 (Foto: Antonio Augusto/STF)

247 - A reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Marcia Barbosa, afirmou nesta quarta-feira (6) que a indicação de uma mulher negra para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal provocaria uma forte mobilização social em Brasília. Em entrevista ao Giro das Onze, do Brasil 247, ela defendeu que o presidente Lula aproveite a nova disputa em torno da Corte para ampliar a diversidade no Judiciário e fortalecer a capacidade do STF de enfrentar temas como racismo, feminicídio, violência política de gênero e desigualdade social.

As informações são do Giro das Onze, do Brasil 247. “Se o presidente tiver a ousadia de sugerir uma mulher negra, nós vamos encher o Senado, tá? Isso eu prometo. Nós vamos ter não os corredores não vai dar para se mover naqueles corredores no dia da votação”, afirmou Marcia Barbosa.

Para a reitora, a presença de uma mulher negra no Supremo não deve ser vista apenas como reparação histórica, mas como fator de melhoria institucional. Segundo ela, decisões tomadas por grupos mais diversos tendem a ser mais eficientes, porque incorporam experiências sociais diferentes na análise de problemas complexos. “Se tu tem pessoas diferentes, com realidades diferentes, com cultura diferente, com vida diferente para resolver o mesmo problema, tu olha esse problema de diversos lados, tu tem melhores soluções”, disse.

Marcia afirmou que a diversidade precisa alcançar os espaços de comando, não apenas posições periféricas. Ela citou estudos sobre empresas e produção científica para sustentar que grupos com maior pluralidade na alta gestão são mais capazes de inovar e produzir respostas eficazes. “Tem justiça histórica embutida aí? Claro que tem justiça histórica, mas acima de tudo tem a capacidade de ter um sistema mais eficiente”, declarou.

A reitora também rebateu a ideia de que faltariam mulheres negras qualificadas para ocupar uma cadeira no STF. “Como se a gente não tivesse mulheres negras competentes. É óbvio que temos, olhem as listas, e elas tiveram que chegar lá passando por desafios muito maiores do que os homens brancos passaram”, afirmou.

Segundo Marcia, a ausência de pessoas negras no Supremo limita a compreensão da Corte sobre problemas que atravessam a vida nacional. Ela destacou que mulheres e mulheres negras vivenciam medos e formas de violência que muitas vezes não fazem parte da experiência cotidiana de homens brancos. “Nós mulheres temos medos cotidianos a fazer coisas simples, como subir um elevador tarde da noite com um colega de trabalho”, disse.

Para ela, essa vivência influencia a forma como temas jurídicos e sociais são percebidos. “Se aquele problema nunca fez parte da vivência dela, é muito difícil essa pessoa dar a relevância pro problema”, afirmou.

Marcia também defendeu que o STF deixe de ter Cármen Lúcia como única mulher na Corte. “Ser a única mulher da sala é horrível, gente. A gente precisa também ajudar a nossa ministra Cármen Lúcia a não ser a única mulher da sala”, disse. Segundo ela, a presença de uma segunda mulher poderia abrir espaço para novas concepções sobre o Brasil e fortalecer a resposta institucional à violência contra as mulheres.

A reitora relacionou a discussão à proteção de candidatas nas eleições. Ela lembrou que mulheres que disputam cargos públicos sofrem ameaças específicas, inclusive contra familiares. “As mulheres nas redes sociais e particularmente as mulheres que estão concorrendo a cargos públicos sofrem ameaças não somente a elas, elas sofrem ameaças com fotos da família, mostrando a tua filha saindo do colégio”, afirmou.

Marcia citou a proposta de criação de uma brigada de proteção às candidatas, mencionada pela ministra Cármen Lúcia em visita à UFRGS em 24 de abril. Para a reitora, um Supremo mais sensível a essa realidade pode contribuir para enfrentar a violência política de gênero. “A gente precisa proteger as nossas candidatas. E para conseguir isso, eu preciso ter um STF mais sensível a essa questão”, declarou.

Ela também afirmou que a eventual indicação precisa ocorrer antes do período eleitoral. “Essa votação será feita antes da eleição, porque nós somos metade da população brasileira, tá? E nós vamos fazer uma campanha importante para que o Senado vote antes da campanha eleitoral”, disse.

Marcia Barbosa defendeu que, no momento em que Lula indicar um nome, os setores favoráveis à presença de uma mulher negra no STF se unam em torno da escolhida, mesmo que ela não seja a favorita de todos. “No momento que saiu o nome, pode nem ser teu nome favorito, vamos todas apoiar, vamos gerar um distúrbio nas redes sociais, começar uma campanha que é para que vá a votação no Senado”, afirmou.

A reitora disse ainda que pretende manter a mobilização ativa. “Não pensem que vai passar uma semana ou duas, a gente vai esquecer esse assunto e vai brincar de outra coisa. Eu vou tá semanalmente relembrando a comunidade dessa luta”, declarou.

A defesa da diversidade, segundo Marcia, também orienta sua atuação na UFRGS. Ela lembrou que a universidade criou uma pró-reitoria de ações afirmativas e equidade, mesmo diante de resistências. “Criamos porque a gente acredita nessa potência que é a diversidade”, afirmou.

Para a reitora, a universidade pública não deve se isolar das grandes discussões nacionais. Ela afirmou que temas como ações afirmativas, combate à violência, democracia e igualdade fazem parte do papel social das instituições de ensino superior. “A universidade não pode estar isolada de todas as discussões que a gente tem no Brasil”, disse.

Marcia também vinculou a pauta da diversidade no STF à necessidade de uma sociedade menos violenta e mais igualitária. “Para que as ações afirmativas dentro da universidade, para eliminação da violência dentro da universidade funcione, eu preciso de uma sociedade brasileira menos violenta e uma sociedade brasileira mais igual”, afirmou.

Ao tratar do papel das universidades, a reitora disse que as instituições públicas precisam reagir aos ataques sofridos nos últimos anos com mais presença pública e defesa do conhecimento. “Acabou da gente ser quietinho, porque como a gente tá sendo atacado, tá na hora de contra-atacar. E o nosso contra-ataque é com a verdade, é mostrando o que a gente é capaz de produzir”, declarou.

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