“Sicário” é apontado pela PF como executor de práticas violentas em grupo ligado a Daniel Vorcaro
Decisão do STF descreve monitoramento, extração ilegal de dados e planos de intimidação
247 – A Polícia Federal (PF) apontou Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido pelo apelido de “Sicário”, como peça central na engrenagem de uma organização atribuída ao banqueiro Daniel Vorcaro, com atuação que incluiria monitoramento de alvos, extração ilegal de dados em sistemas sigilosos e ações de intimidação física e moral. As informações constam de reportagem do G1, baseada em trechos da decisão que embasou mandados de prisão no caso.
Mourão foi preso em Minas Gerais nesta quarta-feira (4). À noite, a Secretaria de Saúde de Minas Gerais informou que a morte ainda não estava confirmada e que ele seguia em cuidados no CTI. Por volta das 21h45, segundo o relato, o hospital iniciava o protocolo para confirmação de morte cerebral.
O papel do “Sicário” e a “dinâmica violenta” descrita na decisão
De acordo com a investigação citada na reportagem, Mourão teria “papel central” e funcionaria como executor de ordens em uma estrutura que, nas conversas atribuídas ao grupo, mostraria uma “dinâmica violenta”. O material menciona que ele atuaria como longa manus — expressão usada no contexto jurídico para indicar um agente que age em nome de outra pessoa — na execução de práticas violentas atribuídas à organização.
O relatório mencionado também aponta “fortes indícios” de que Mourão receberia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro como remuneração pelos “serviços ilícitos”. Entre as atribuições descritas estariam tarefas de vigilância e coleta de dados, além de supostas ações de pressão e intimidação direcionadas a pessoas consideradas obstáculos ou ameaças aos interesses do grupo.
Monitoramento e intimidação: “A Turma” e a oferta de “dar sacode”
As mensagens reproduzidas no material investigativo, segundo a reportagem, mostram Mourão informando que monitorava um ex-funcionário e se oferecendo para acionar “A Turma” para intimidar pessoas. O conteúdo inclui troca de dados pessoais de alvos e orientações para levantar informações sobre um funcionário e um chefe de cozinha, com sugestão de intimidação para produzir efeito psicológico sobre terceiros.
Em um dos trechos citados, aparece a orientação: "O bom de dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar". A frase é apresentada como exemplo do tipo de abordagem discutida nos diálogos e do caráter coercitivo atribuído às ações planejadas.
A investigação, conforme relatado, trata essas conversas como evidência do método operacional do grupo: primeiro, mapear rotinas e coletar dados; depois, calibrar o grau de ameaça e escolher o alvo mais vulnerável para “assustar” os demais.
Ameaças contra empregada: “Tem que moer essa vagabunda”
Outro ponto destacado envolve ameaças dirigidas a uma empregada identificada como Monique. Segundo a reportagem, Vorcaro relata estar sendo ameaçado por ela e, em seguida, ordena que Mourão obtenha endereço e outros dados pessoais.
A mensagem atribuída a Vorcaro diz: "Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda". Na sequência, Mourão pergunta o que deveria ser feito, e recebe como resposta: "Puxa endereço tudo".
O trecho, descrito como parte do material analisado, reforça o que a decisão aponta como um padrão: a transformação de conflitos privados em operações de perseguição e intimidação, com uso de coleta de dados e ameaça de violência como instrumentos para resolver disputas.
Pressão contra jornalista e reação do jornal O Globo
A decisão citada também descreve diálogos sobre monitorar o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, após reportagens consideradas negativas. As conversas mencionadas indicariam intenção de levantar informações pessoais sobre o colunista e até planejar agressões físicas.
Entre os trechos reproduzidos, Vorcaro sinaliza que gostaria de "mandar dar um pau" no jornalista e "Quebrar todos os dentes. Num assalto". O caso ganhou resposta pública de O Globo, que divulgou nota repudiando “veementemente as iniciativas criminosas planejadas contra o colunista Lauro Jardim”, conforme apontado na decisão do ministro André Mendonça.
O episódio dá dimensão institucional ao caso: ao atingir um profissional de imprensa, o conteúdo descrito deixa de ser apenas um conflito interno e passa a configurar risco direto ao exercício do jornalismo e à liberdade de informação, com métodos típicos de intimidação e violência.
Prisões, suspeitas e acusações: sistemas sigilosos e organismos internacionais
A decisão atende a pedido da PF no âmbito de suspeitas de crimes contra o sistema financeiro, corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça. Além de Daniel Vorcaro, a operação teve como alvos Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro; Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”; e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.
O grupo também é acusado de realizar acessos indevidos a sistemas sigilosos, incluindo sistemas da própria Polícia Federal e do Ministério Público Federal, além de organismos internacionais como o FBI e a Interpol, para obtenção de dados protegidos. A suspeita, como relatado, amplia a gravidade do caso por envolver não apenas intimidação e violência, mas também a possível infiltração e uso ilegal de estruturas informacionais sensíveis.
O que dizem os citados
A defesa de Daniel Vorcaro negou as acusações e afirmou que o empresário "sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça." Os advogados acrescentaram que confiam que o "esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta".
Já a defesa de Fabiano Zettel informou que ele se entregou às autoridades e que está à disposição dos investigadores. As defesas dos demais citados, segundo a reportagem, ainda não haviam respondido aos contatos.
Um caso que expõe a mistura entre poder, vigilância e coerção
O conjunto de suspeitas descritas — monitoramento de alvos, coleta ilegal de dados, pressão psicológica e ameaças de agressão — aponta para um modelo de atuação em que recursos financeiros e acesso a informações sensíveis seriam mobilizados para impor medo e controle. A decisão citada na reportagem, ao destacar conversas e ordens atribuídas aos investigados, sugere que a violência não seria um desvio pontual, mas parte do modo de operação.
Enquanto as investigações avançam, o caso se consolida como um teste para a capacidade institucional de responsabilizar estruturas privadas que, segundo a PF, teriam atuado com métodos clandestinos e violentos — e, ao mesmo tempo, como alerta sobre o risco de instrumentalização de dados sigilosos e de práticas de intimidação contra trabalhadores e profissionais de imprensa.


