Vorcaro pagava R$400 mil mensais a agentes para obter informações sigilosas da PF
Relatório da Polícia Federal indica que família Vorcaro financiava acesso a informações sigilosas por meio de policiais ativos e aposentados
247 - Uma investigação da Polícia Federal (PF) identificou um suposto esquema de obtenção de informações sigilosas envolvendo policiais federais da ativa e aposentados, financiado por Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. As informações foram reveladas pela Folha de São Paulo com base em relatório da corporação.
Segundo o documento, Henrique Vorcaro repassava mensalmente R$ 400 mil ao agente aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado pelos investigadores como responsável por estruturar uma rede interna de vazamento de dados sigilosos da PF. O objetivo seria garantir acesso antecipado a investigações em andamento e informações armazenadas em sistemas restritos da corporação.
De acordo com a apuração da Polícia Federal, Roseno utilizava pagamentos via Pix, presentes e gratificações de fim de ano para atrair servidores públicos ao esquema. Entre os envolvidos citados no relatório estão o agente da ativa Anderson Wander da Silva, a delegada Valéria Vieira Pereira da Silva e os policiais federais aposentados Sebastião Monteiro Júnior e Francisco José Pereira da Silva. Os investigadores também mencionam a participação de um terceiro agente da ativa cuja identidade não foi divulgada.
A PF sustenta que a rede permitia o acesso indevido a dados armazenados em sistemas internos, como o e-Pol, plataforma utilizada para registro e acompanhamento de inquéritos. Segundo a investigação, uma das consequências desse acesso teria sido a obtenção antecipada de um mandado de prisão expedido contra Daniel Vorcaro, posteriormente repassado a um site jornalístico.
A reportagem da Folha informou ter procurado Henrique Vorcaro, mas não recebeu resposta até a publicação da matéria. Marilson Roseno, que está preso preventivamente, também não se manifestou. A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não comentaria o caso.
Prisões e afastamentos autorizados pelo STF
Por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), foram expedidos mandados de prisão preventiva contra os policiais federais aposentados Sebastião Monteiro Júnior e Francisco José Pereira da Silva, conhecido como Chicão, além do agente da ativa Anderson Wander da Silva.
Na mesma operação, a delegada Valéria Vieira Pereira da Silva foi afastada de suas funções.
Como funcionavam os repasses
Segundo a Polícia Federal, os pagamentos destinados a Roseno eram formalmente registrados como prestação de serviços por meio da empresa Roseno & Ribeiro Gestão Empresarial Ltda. Parte dos recursos teria transitado pela King Participações, empresa ligada a Luiz Phillipi Mourão, funcionário de Daniel Vorcaro citado no relatório como “sicário”.
Os investigadores afirmam que os repasses a Mourão eram realizados por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.
Mensagens obtidas pela PF indicam cobranças feitas por Roseno após atrasos nos pagamentos. Em uma das conversas registradas no relatório, o policial aposentado escreveu:
“Estou segurando uma manda de búfalo [sic]. Não me deixe a deriva, por favor [sic]”.
Em resposta, Henrique Vorcaro afirmou que enviaria “imediatamente 400” a Roseno. O agente aposentado respondeu que o valor ideal seria R$ 800 mil, alegando que recebia apenas metade da quantia originalmente combinada.
Dias depois, em outra troca de mensagens, Henrique Vorcaro escreveu:
“No momento que estou é que preciso de vocês”.
Roseno respondeu:
“Nos ajude para podermos lhe ajudar, mestre”.
Na sequência, acrescentou:
“Recurso já chegou aí, tá faltando boa vontade [sic]”.
Ainda segundo a investigação, o contador de Roseno teria orientado mecanismos para ocultar a origem dos recursos, incluindo o uso de CPFs de terceiros para fracionar depósitos e reduzir a possibilidade de identificação pelos órgãos de controle.
A PF também aponta Erlene Nonato Lacerda como suposta intermediária utilizada por Roseno. O relatório menciona notas fiscais referentes a dois pagamentos de R$ 50 mil feitos por empresa ligada aos Vorcaro para Erlene. Ela também seria responsável por quitar despesas pessoais do policial aposentado.
Pagamentos e bônus a agente da ativa
O relatório da Polícia Federal descreve Anderson Wander da Silva como peça central para o acesso às informações internas. Os investigadores afirmam que Roseno dependia da atuação do agente para realizar consultas em sistemas corporativos.
De acordo com a PF, Wander acessou dados de investigações envolvendo Vorcaro e chegou a solicitar a um colega consultas relacionadas a informações de passaporte, a pedido de Roseno.
Além dos pagamentos mensais, o agente teria recebido benefícios extras. Em uma das mensagens reproduzidas no relatório, Roseno escreve:
“Mandar um presente pra filhota que passou no vestibular [sic]. Qual o Pix?”
A investigação identificou ainda uma transferência realizada para Wander em 31 de dezembro de 2025. Em um áudio analisado pela PF, o agente agradece o valor recebido. Para os investigadores, a movimentação é compatível com um bônus de fim de ano repassado por Daniel Vorcaro ao grupo identificado como “a Turma”.
Delegada teria acessado inquérito de interesse dos Vorcaro
A Polícia Federal afirma que a delegada Valéria Vieira Pereira da Silva também realizou consultas de interesse da família Vorcaro. Em fevereiro de 2024, ela teria acessado um inquérito envolvendo Henrique Vorcaro.
Segundo os investigadores, os documentos foram posteriormente encaminhados a Roseno por intermédio de seu marido, o policial aposentado Francisco José Pereira da Silva.
O relatório descreve que, após não conseguir determinados documentos por meio de Anderson Wander, Roseno informou que buscaria ajuda com “um colega”. Menos de uma hora depois, a delegada acessou os registros do inquérito. As informações teriam sido encaminhadas a Daniel Vorcaro no mesmo dia, em 23 de fevereiro de 2024.
Apesar das evidências apontadas pelos investigadores, o relatório afirma que não foram identificados pagamentos direcionados a Valéria ou Francisco. A PF ressalta, porém, que diversas mensagens trocadas com o casal foram apagadas.
Investigação cita recrutamento de agentes
Outro nome mencionado no relatório é o do policial federal aposentado Sebastião Monteiro Júnior. A PF o acusa de atuar no recrutamento de agentes da ativa para integrar o grupo responsável pelos vazamentos.
Em áudios interceptados, Roseno e Monteiro Júnior combinam encontros para discutir assuntos sensíveis em locais reservados. Em uma das gravações, Roseno afirma:
“Você sobe, mas a gente conversa lá, porque aqui tô com uma turma que pode atrapalhar (sic)”.
Segundo a Polícia Federal, imagens de câmeras de segurança confirmam a realização do encontro mencionado na conversa.



