Wellington Dias projeta ‘eleições mais fáceis que em 2022’
Ministro avalia cenário eleitoral, aponta falhas na comunicação do governo Lula e projeta disputa menos difícil apesar de desafios políticos
247 - A eleição presidencial de 2026 deve ser menos difícil que a de 2022, na avaliação do ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo. Mesmo reconhecendo problemas na comunicação do governo Lula e a necessidade de maior articulação política, o ministro demonstra otimismo ao analisar o cenário eleitoral e os desafios da atual gestão.
Dias afirmou que, apesar de dificuldades na pré-campanha, o governo possui bases sólidas para a disputa. Segundo ele, ainda é necessário aprimorar a forma como as ações do Executivo são apresentadas à população. “O que é que falta? Falta organizar a orquestra. A orquestra ainda tem instrumentos desafinados. Agora é afinar os instrumentos. Mas temos um bom repertório”, declarou.
O ministro, que também atua na articulação política do Nordeste, considera que o contexto atual é mais favorável do que o enfrentado por Lula em 2022, quando o petista venceu por margem estreita. Para Dias, a principal diferença está no fato de o grupo político agora ocupar o governo e contar com alianças mais estruturadas nos estados.
“Vamos lembrar que o presidente Lula foi eleito em 2022, uma eleição dificílima. Quando me falam sobre as dificuldades da eleição de 2026, eu digo: ‘Difícil mesmo foi 2022’”, afirmou. Ao ser questionado sobre a comparação, reforçou: “Eu digo que não. Em 22, nós tínhamos o fato de estar fora do governo”.
Ele também destacou a força de palanques regionais e lideranças políticas que devem apoiar a candidatura à reeleição. “Se você observar, a gente tem hoje nos Estados (...) um quadro de candidaturas muito mais potente do que em 22”, disse, citando nomes como Rodrigo Pacheco, Eduardo Paes e Fernando Haddad.
Comunicação e percepção pública
Apesar do otimismo, Dias reconhece que o governo enfrenta dificuldades para fazer com que suas ações sejam percebidas pela população. Segundo ele, não se trata apenas de falha institucional, mas de falta de engajamento mais amplo entre aliados e apoiadores.
“A comunicação não pode ser colocada apenas na responsabilidade de uma pessoa. (...) É necessário que em cada lugar, cada vereador, líder social, deputado, pré-candidato, prefeito (...) possa ter sintonia com aqueles pontos que a população valoriza”, afirmou.
O ministro também ressaltou que indicadores sociais positivos ainda não se traduziram em percepção popular. Ele citou dados internos que apontam a saída de mais de 30 milhões de pessoas da fome até 2025 e a geração de empregos concentrada entre beneficiários de programas sociais.
“93% dos novos empregos é o povo do Cadastro Único Social, do Bolsa Família”, disse. Ainda assim, avalia que esses avanços são ofuscados por fatores como o alto nível de endividamento da população e os juros elevados.
Economia, juros e endividamento
Na área econômica, Dias criticou a política monetária e apontou que a meta de inflação pode ter sido excessivamente rígida. “Eu acho que a gente exagerou na dose”, afirmou, defendendo uma transição mais gradual nos objetivos inflacionários.
Segundo ele, a manutenção de juros altos tem impacto direto na percepção econômica da população. “A renda cresceu (...). E por que a população não está percebendo isso? Porque esse ganho está sendo engolido pelos juros altos”, declarou.
O ministro ainda alertou para o nível de endividamento das famílias, que, segundo ele, atinge cerca de 81% da população, e classificou a situação como um risco para a economia.
Polarização e cenário político
Sobre o ambiente eleitoral, Dias avalia que a disputa seguirá polarizada. Ele mencionou o senador Flávio Bolsonaro como principal adversário e afirmou que outras candidaturas perderam espaço diante desse cenário.
“Na prática, é como se estivessem cristalizados dois campos”, afirmou. Para o ministro, a tendência é de manutenção dessa divisão política, o que pode favorecer uma definição mais clara do eleitorado.
Mesmo com pesquisas apontando equilíbrio em cenários de segundo turno, Dias acredita na possibilidade de vitória ainda na primeira etapa. “Em uma eleição que vai polarizar muito, a possibilidade de vitória do presidente Lula no primeiro turno é real”, disse.
Nordeste e estratégia eleitoral
Responsável por coordenar a campanha no Nordeste, Dias destacou a importância estratégica da região, tradicionalmente favorável ao PT, mas que tem apresentado sinais de perda de apoio.
Ele afirmou que os investimentos realizados desde 2023 podem influenciar positivamente o eleitorado. “Foi onde a fome e a pobreza mais cresceram e onde também são mais visíveis os investimentos feitos de 2023 para cá. Por isso, acho que também haverá um reconhecimento nas eleições”, declarou.
Pós-Lula ainda em aberto
Ao abordar o futuro político após Lula, que deve disputar sua última eleição presidencial em 2026, Dias reconheceu a dificuldade de sucessão dentro do campo político do PT.
“É um grande desafio. Nós estamos falando de um líder que é um dos maiores do Brasil e do mundo. Substituir um líder desses não será fácil”, afirmou.
Apesar disso, o ministro evitou antecipar nomes e reforçou que o foco atual está totalmente voltado para o processo eleitoral. “Apesar do meu otimismo, eu aprendi que nada de sapato alto, nada de ‘já ganhou’, muita humildade e muito trabalho”, concluiu.


