Gurudwara Bangla Sahib em Nova Déli simboliza fé, igualdade e serviço comunitário na Índia
Templo sikh na capital indiana expressa tradição espiritual baseada na paz, na justiça social e na fraternidade entre religiões
247 – No coração de Nova Déli, a poucos quilômetros dos centros políticos da Índia, o Gurudwara Bangla Sahib ergue-se como um dos principais símbolos da tradição sikh e como expressão concreta de uma espiritualidade fundada na igualdade, no serviço comunitário e na convivência pacífica entre diferentes crenças. Com sua cúpula dourada refletida nas águas do grande tanque sagrado, o templo é diariamente visitado por milhares de pessoas — sikhs e não sikhs — que buscam oração, acolhimento e alimento.
Mais do que um espaço religioso, o gurudwara representa um projeto civilizatório que marcou profundamente a história indiana. Desde o século XV, quando o sikhismo foi fundado por Guru Nanak no Punjab, os sikhs se consolidaram como uma comunidade comprometida com a justiça social, a superação das divisões de casta e a defesa da dignidade humana.
Um templo aberto a todos
O Gurudwara Bangla Sahib é um dos mais importantes da Índia. Construído no local onde viveu o oitavo guru sikh, Guru Har Krishan, o templo é associado a episódios históricos de cuidado com a população durante surtos de doenças em Déli no século XVII. A tradição recorda que o jovem guru ajudou doentes e vulneráveis, reforçando a dimensão humanitária da fé sikh.
Como todo gurudwara, o Bangla Sahib é aberto a qualquer pessoa, independentemente de religião, nacionalidade, gênero ou condição social. Ao entrar, todos devem cobrir a cabeça e retirar os sapatos, simbolizando respeito e humildade. No salão principal, o Guru Granth Sahib — o livro sagrado que é considerado o Guru eterno dos sikhs — ocupa lugar central, sob um dossel, onde é lido e entoado em forma de cânticos devocionais.
Um dos aspectos mais marcantes do templo é o langar, a cozinha comunitária que serve gratuitamente milhares de refeições todos os dias. Voluntários trabalham de forma organizada no preparo e na distribuição dos alimentos. Todos se sentam no chão, lado a lado, em fileiras, sem distinção de classe ou posição social.
Essa prática concreta traduz um dos pilares do sikhismo: a igualdade radical entre os seres humanos. Em uma sociedade historicamente marcada pelo sistema de castas, o gesto de compartilhar a mesma refeição no mesmo espaço assume forte significado social e político.
Sikhismo e igualdade social
O sikhismo nasceu em um contexto de tensões religiosas entre hindus e muçulmanos no norte da Índia. Guru Nanak propôs uma mensagem centrada na unidade de Deus, na rejeição ao sectarismo e na defesa da fraternidade universal. Desde sua origem, a tradição sikh condenou a discriminação por casta e gênero.
A instituição do langar, por exemplo, tornou-se uma ferramenta prática de enfrentamento às hierarquias sociais. Mulheres sempre tiveram participação ativa na comunidade sikh, tanto na vida religiosa quanto na organização social.
Ao longo dos séculos, os dez gurus sikhs consolidaram uma comunidade estruturada não apenas espiritualmente, mas também politicamente. No final do século XVII, o décimo guru, Guru Gobind Singh, criou a Khalsa, ordem que reforçou a identidade coletiva e a defesa da liberdade religiosa diante de perseguições.
Essa combinação entre espiritualidade e compromisso com a justiça moldou a presença sikh na história indiana. A comunidade tornou-se conhecida tanto por sua disciplina quanto por seu senso de responsabilidade social.
Promotores da paz e da convivência inter-religiosa
Apesar de episódios históricos de conflitos e perseguições, os sikhs mantiveram como princípio a defesa da liberdade religiosa — não apenas para si, mas para todos. Esse traço marcou sua atuação ao longo da história da Índia.
Durante o período colonial britânico, sikhs participaram de movimentos políticos e militares, mas também contribuíram para o fortalecimento de estruturas comunitárias autônomas. Após a independência da Índia, em 1947, e especialmente durante a traumática Partição que dividiu Índia e Paquistão, o Punjab foi palco de violência generalizada. Mesmo nesse contexto, instituições sikhs desempenharam papel relevante no acolhimento de deslocados e na assistência humanitária.
Nas últimas décadas, em diferentes crises nacionais — enchentes, pandemias, catástrofes naturais — gurudwaras de todo o país organizaram redes de solidariedade para fornecer alimentos, abrigo e cuidados médicos. O princípio do seva, o serviço voluntário desinteressado, tornou-se marca reconhecida da comunidade.
Em Nova Déli, o Gurudwara Bangla Sahib é frequentemente lembrado por sua atuação em momentos de emergência, ampliando a produção do langar para atender milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Uma minoria com influência nacional
Os sikhs representam cerca de 2% da população indiana, mas exercem influência significativa na vida política, econômica e cultural do país. O Punjab, estado onde se concentra a maioria da comunidade, tem papel estratégico na agricultura indiana, sendo conhecido como um dos principais celeiros do país.
Sikhs também ocuparam posições de destaque na história política contemporânea da Índia. O economista Manmohan Singh, por exemplo, foi primeiro-ministro entre 2004 e 2014, período de crescimento econômico e ampliação de políticas sociais.
Ao mesmo tempo, a comunidade enfrentou momentos difíceis, como a violência de 1984, após o assassinato da então primeira-ministra Indira Gandhi. Os episódios de perseguição contra sikhs naquele período deixaram marcas profundas na memória coletiva. Ainda assim, lideranças religiosas e civis enfatizaram a importância da reconciliação e da estabilidade institucional.
Espiritualidade ativa no espaço público
O Gurudwara Bangla Sahib, com sua arquitetura imponente e atmosfera de serenidade, sintetiza essa tradição de espiritualidade ativa. A música devocional ecoa no salão principal enquanto, nos bastidores, centenas de voluntários descascam legumes, amassam pães e distribuem refeições.
A combinação entre oração e trabalho comunitário traduz uma concepção de fé que não se restringe ao espaço litúrgico. Para os sikhs, a vida espiritual deve caminhar junto com a responsabilidade social.
Em um mundo marcado por desigualdades crescentes e tensões religiosas, o exemplo dos gurudwaras — e particularmente do templo em Nova Déli — projeta uma mensagem de convivência, hospitalidade e compromisso com o bem comum.
Ao abrir suas portas todos os dias para qualquer pessoa que ali chegue, o Gurudwara Bangla Sahib reafirma uma tradição que atravessa séculos: a defesa da igualdade, da dignidade humana e da paz como fundamentos indispensáveis para a construção de uma sociedade justa.


