Templo de Lótus em Nova Déli simboliza unidade espiritual e diálogo entre religiões
Construção em forma de flor aberta tornou-se um dos maiores marcos arquitetônicos da Índia e expressa fé baseada na harmonia
247 – Em meio ao dinamismo urbano de Nova Déli, ergue-se uma das construções religiosas mais emblemáticas da Índia contemporânea: o Templo de Lótus, conhecido mundialmente por sua arquitetura em forma de flor aberta. Inaugurado em 1986, o templo pertence à Fé Bahá’í e tornou-se símbolo de unidade espiritual, diálogo inter-religioso e igualdade entre todos os seres humanos.
Projetado pelo arquiteto iraniano Fariborz Sahba, o edifício foi concebido como uma flor de lótus em plena abertura — imagem profundamente enraizada na cultura indiana. O templo não é dedicado a uma única tradição religiosa. Pelo contrário, representa um espaço de oração aberto a pessoas de todas as crenças, sem distinção.
A flor de lótus como símbolo espiritual
A escolha da lótus não é apenas estética. Na tradição indiana, a flor carrega forte significado simbólico. Associada à pureza, à renovação e ao despertar espiritual, a lótus cresce em águas turvas, mas emerge intacta e luminosa na superfície.

Esse simbolismo — a capacidade de florescer acima das adversidades — ecoa valores compartilhados por diversas tradições espirituais do subcontinente. No hinduísmo, a lótus está ligada a divindades como Lakshmi e Brahma. No budismo, representa iluminação. No contexto do Templo de Lótus, a imagem reforça a ideia de transcendência das divisões e da busca por uma consciência universal.
Ao adotar esse símbolo, a Fé Bahá’í estabelece uma ponte com a cultura indiana e afirma sua mensagem central: a unidade da humanidade.
Arquitetura que traduz espiritualidade
O Templo de Lótus é composto por 27 pétalas de mármore branco, organizadas em três camadas, formando nove lados — número que, na tradição bahá’í, simboliza completude e unidade. A estrutura é cercada por espelhos d’água que reforçam a sensação de leveza e contemplação.
O espaço interno é amplo, sem imagens, ícones ou altares específicos. Não há púlpitos nem hierarquia clerical. O silêncio é parte essencial da experiência. Leituras podem ser feitas a partir de textos sagrados de diferentes religiões, mas não há sermões ou rituais exclusivos.
Essa sobriedade arquitetônica dialoga com os princípios da Fé Bahá’í, fundada no século XIX por Bahá’u’lláh, na antiga Pérsia. A religião sustenta que todas as tradições espirituais compartilham uma origem comum e que a humanidade vive um processo progressivo de revelação divina.
Fé, igualdade e unidade global
A Fé Bahá’í defende explicitamente a igualdade entre homens e mulheres, a superação do preconceito racial e religioso, a harmonia entre ciência e espiritualidade e a necessidade de instituições globais capazes de promover a paz.
O Templo de Lótus tornou-se a principal Casa de Adoração Bahá’í do sul da Ásia e uma das mais visitadas do mundo. Milhões de pessoas passam por suas portas anualmente — muitas movidas pela curiosidade arquitetônica, outras pela busca de recolhimento.
Em um país marcado por extraordinária diversidade religiosa — hinduísmo, islamismo, sikhismo, cristianismo, budismo, jainismo e outras tradições — o templo se apresenta como espaço neutro, onde nenhuma fé é superior à outra.
Um monumento contemporâneo da Índia plural
Desde sua inauguração, o Templo de Lótus consolidou-se como um dos cartões-postais de Nova Déli. Sua presença na paisagem urbana expressa uma Índia moderna que dialoga com o mundo e reafirma sua pluralidade espiritual.
A arquitetura ousada e minimalista contrasta com templos históricos esculpidos em pedra ou complexos religiosos milenares. Ainda assim, a construção conecta-se profundamente com a tradição simbólica indiana ao escolher a lótus como metáfora central.
O edifício demonstra como a espiritualidade pode ser traduzida em linguagem arquitetônica contemporânea, sem perder densidade simbólica.
Silêncio como linguagem comum
Diferentemente de muitos templos tradicionais, o Templo de Lótus não privilegia rituais específicos. O silêncio é o elemento central. Ele funciona como linguagem universal capaz de acolher pessoas de diferentes origens.
Em tempos de polarização e conflitos identitários, o espaço propõe uma experiência de contemplação despojada, na qual a arquitetura conduz à introspecção.
Assim como a flor que emerge limpa das águas turvas, o templo sugere a possibilidade de superação das divisões humanas por meio da consciência compartilhada.
Ao abrir suas portas a todos, sem distinção, o Templo de Lótus reafirma uma mensagem que ecoa além da Índia: a unidade não exige uniformidade, mas respeito mútuo, diálogo e reconhecimento da dignidade comum de todos os povos.


