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Produtora de filme sobre Bolsonaro tentou captar R$ 8,6 milhões via Lei Rouanet

Sócia da Go Up buscou incentivos culturais para quatro projetos e obteve R$ 107 mil para espetáculo de balé

Ator Jim Caviezel interpretando Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução)
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247 - A empresária Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro (PL), tentou captar R$ 8,59 milhões por meio da Lei Rouanet para quatro projetos culturais, entre eles um festival associado à Marcha para Jesus. Apesar das autorizações, apenas uma iniciativa recebeu recursos: o espetáculo “Rute - o Ballet”, que levantou R$ 107 mil pela legislação de incentivo à cultura, segundo a Folha de São Paulo.

Os pedidos foram apresentados pelo Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina. A Lei Rouanet, que permite a empresas e pessoas físicas destinarem parte do Imposto de Renda a projetos culturais aprovados pelo governo, foi alvo recorrente de críticas de setores bolsonaristas nos últimos anos.

O tema voltou ao centro do debate após o site The Intercept Brasil revelar um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, pediu ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, recursos para bancar o filme “Dark Horse”, título que significa “azarão” em inglês.

Na ocasião, Flávio negou que o projeto tivesse ligação com dinheiro público ou incentivos culturais. “O que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet”, afirmou o senador, em nota divulgada no dia 13, após a publicação do áudio.

Lula critica financiamento buscado junto a Vorcaro

Na quinta-feira (21), o presidente Lula defendeu a Lei Rouanet e fez uma crítica às conversas envolvendo Flávio Bolsonaro e o dono do Banco Master. Lula afirmou que seu governo nunca procurou a “lei Daniel Vorcaro” para financiar artistas, em referência ao pedido de patrocínio feito pelo senador.

A reportagem informou que procurou Karina Gama por mensagem e por email, mas não recebeu resposta. O Instituto Conhecer Brasil também foi contatado e não retornou.

Pedidos foram apresentados entre 2015 e 2019

O Instituto Conhecer Brasil tentou captar recursos pela Lei Rouanet para projetos protocolados entre 2015 e 2019. O maior deles foi autorizado durante o governo Bolsonaro: R$ 5,9 milhões para shows ligados à Marcha para Jesus em 15 estados.

Apresentado no fim de 2019, o projeto previa atrair 3 milhões de pessoas, com apresentações de artistas de expressão nacional. A pandemia levou o governo a ampliar o prazo de captação até o fim de 2022, mas a entidade não conseguiu obter os recursos.

Karina aparecia como coordenadora-geral do chamado “festival itinerante”. No projeto, ela declarou atuar havia 20 anos no desenvolvimento de “planos e projetos estratégicos corporativos, sociais, culturais e econômicos para empresas e governos nacionais e internacionais que promovam o encontro e o intercâmbio de diferentes públicos”.

A única captação efetivada pelo Instituto Conhecer Brasil foi para “Rute - o Ballet”, projeto apresentado em 2019 e realizado no ano seguinte. O governo havia autorizado a busca por R$ 157 mil, mas o valor efetivamente obtido foi de R$ 107 mil.

A entidade também recebeu aval para captar recursos para o teatro “Turma do Smilinguido” e para a turnê da cantora Hadassah Perez. Cada uma das iniciativas tinha autorização para buscar cerca de R$ 1,2 milhão, mas os valores não foram levantados.

Produtora tem outras entidades ligadas a recursos públicos

Além da Go Up Entertainment, Karina Gama possui outras empresas ou entidades do setor cultural que receberam verbas públicas. O Instituto Conhecer Brasil firmou contrato com a Prefeitura de São Paulo, na gestão Ricardo Nunes (MDB), no valor de R$ 108 milhões, para fornecer internet wi-fi em comunidades de baixa renda.

O instituto também recebeu R$ 2 milhões em emendas parlamentares do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que é produtor e roteirista de “Dark Horse”. Karina já declarou que a contratação pela prefeitura ocorreu de forma regular e sem relação com o filme, assim como os recursos das emendas.

Ao justificar os repasses em publicação nas redes sociais, Frias mencionou sua passagem pela Secretaria Especial da Cultura. “Geri bilhões da Lei Rouanet à frente da Secretaria Especial da Cultura e saí do governo com as mãos limpas. Quem não se enriqueceu com bilhões certamente não iria se sujar pelos R$ 2 milhões que a imprensa agora tenta atribuir”, afirmou.

Deputados estaduais também destinaram R$ 700 mil a empresas e entidades ligadas à produtora.

PF apura possível uso de recursos enviados por Vorcaro

Vorcaro pagou R$ 61 milhões para a produção de “Dark Horse”. De acordo com o The Intercept Brasil, o valor total negociado entre o ex-banqueiro e a família Bolsonaro teria sido de R$ 134 milhões, mas não há comprovação de que todo o montante tenha sido repassado.

A PF suspeita que parte do dinheiro transferido por Vorcaro possa ter sido usada para custear despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, onde ele vive desde fevereiro de 2025. Flávio e Eduardo Bolsonaro negam essa hipótese.

Na semana passada, Flávio afirmou que a movimentação pode ser comprovada. “Tem como comprovar. O que eu pedi hoje foi para o fundo privado disponibilizar o contrato ou que houvesse a prestação de contas pela produtora no Brasil”, disse o senador.

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