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Microsséries chinesas ganham impulso global à medida que o setor entra em expansão

A verdadeira exportação cultural da China vai além do retorno econômico, aponta analista

Uma equipe de filmagem grava uma microssérie em Chengdu, na província de Sichuan, no sudoeste da China. (Foto: Sichuan Daily)

247 - As microsséries chinesas registraram um forte aumento de popularidade nos últimos anos. Após expandirem gradualmente seu público e mercado domésticos, elas agora avançam no exterior, atraindo um número crescente de espectadores em todo o mundo. Com capital, criadores e plataformas investindo intensamente no formato, ele vem se tornando o novo motor de crescimento da indústria de conteúdo, destaca reportagem do Diário do Povo nesta quarta-feira (11). 

Um relatório divulgado durante a Cúpula de Wuzhen da Conferência Mundial da Internet de 2025, realizada em Wuzhen, na província de Zhejiang, no leste da China, estimou em 662 milhões o número de usuários de microsséries no país, com receitas de mercado superiores a 50 bilhões de yuans (US$ 7,23 bilhões) — ultrapassando a bilheteria doméstica de cinemas.

Até dezembro de 2024, os usuários já passavam diariamente tanto tempo em aplicativos dedicados a microsséries quanto em serviços de mensagens instantâneas, segundo um relatório de 2025 sobre a indústria chinesa de áudio e vídeo na internet. O público também é muito mais amplo do que sugerem os estereótipos: pessoas com 50 anos ou mais representam quase 30% do total, enquanto usuários entre 40 e 49 anos somam outros 19,7%.

Uma equipe de filmagem grava uma microssérie em Chengdu, na província de Sichuan, sudoeste da China. (Foto/Sichuan Daily)

Lyu Fan, pesquisador associado e diretor do escritório audiovisual do Centro de Mídia Convergente da Universidade de Pequim, atribui a popularidade das microsséries à sua forte adaptação aos hábitos modernos de consumo. À medida que o vídeo curto se tornou o principal modo de consumo de mídia, o público passou a se acostumar com estímulos narrativos intensos e recompensas emocionais em pouco tempo. Construídas para o consumo em dispositivos móveis e com enredos densos, as microsséries se encaixam perfeitamente em uma era de atenção fragmentada.

Mais de 80 mil empresas atuam atualmente no setor, incluindo companhias de literatura online, redes multicanais e empresas tradicionais de cinema e televisão. Um ecossistema completo de produção foi formado, abrangendo desenvolvimento de roteiros, filmagem, marketing, distribuição e monetização, com cada etapa tornando-se cada vez mais especializada.

O impulso internacional também chama atenção. No primeiro trimestre de 2025, aplicativos chineses de microsséries foram baixados mais de 270 milhões de vezes em todo o mundo. Em março daquele ano, o número de aplicativos do gênero em plataformas estrangeiras chegou a 237 — quase quatro vezes mais que um ano antes. Downloads e usuários ativos cresceram significativamente na América do Norte, no Sudeste Asiático e no Oriente Médio.

Plataformas internacionais de streaming também passaram a observar o modelo de negócios das microsséries. Algumas lançaram versões localizadas no exterior, incorporando legendas multilíngues e dublagem, enquanto modelos de pagamento por episódio e assinaturas começam a ganhar espaço nos mercados internacionais.

Mas exportar modelos de negócios é apenas o primeiro passo. A verdadeira exportação cultural vai além do retorno econômico. Seu valor social é ainda mais relevante, afirmou Lyu. A questão central é se as microsséries conseguem usar narrativas vívidas e concretas para superar divisões culturais, gerar compreensão e criar identificação entre públicos de origens muito diferentes, oferecendo uma janela mais autêntica para a China contemporânea.

No longo prazo, a consolidação das microsséries no exterior dependerá da qualidade do conteúdo. “Globalizar-se não pode significar servir ‘fast food cultural’”, afirmou Fang Xiaotian, professor da Faculdade de Jornalismo e Comunicação da Universidade Minzu da China. Para ele, as microsséries representam uma ferramenta narrativa mais leve, que abre novas possibilidades para compartilhar as histórias da China com o mundo.

O chamado modelo “microssérie plus”, que combina microsséries com turismo, cultura, varejo e outros setores, tem apontado um novo caminho nos últimos anos.

Em julho de 2025, a microssérie de fantasia The War for a Stolen Tradition tornou-se um exemplo inicial dessa tendência. A produção gira em torno da Ópera Nuo, forma tradicional de teatro chinês marcada pelo uso de máscaras e reconhecida como patrimônio cultural imaterial nacional. Traduzida para 12 idiomas e distribuída em diversos países e regiões pela plataforma internacional Stardust TV, a série aproximou o público global de uma forma artística tipicamente chinesa.

A produção reforça um ponto central: a qualidade do conteúdo continua sendo a base de qualquer expansão internacional bem-sucedida. Somente quando a cultura se torna a alma da narrativa — e a internacionalização deixa de ser apenas uma estratégia comercial para se tornar uma ponte de intercâmbio cultural — as microsséries poderão realmente servir como veículo para levar histórias e modelos criativos chineses ao mundo, afirmou Fang.

A inteligência artificial também reduziu significativamente as barreiras de produção. Estimativas do setor indicam reduções de custos entre 30% e 90% nas etapas centrais da produção.

Em fevereiro de 2026, a Administração Nacional de Rádio e Televisão da China anunciou planos para introduzir regulamentações sobre o desenvolvimento e a gestão das microsséries e implementar plenamente a iniciativa “microssérie plus”. O órgão regulador também informou que trabalhará para estimular o consumo de serviços, manter padrões de conteúdo, promover concorrência justa no mercado e fomentar um ambiente industrial saudável e bem organizado.

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