'Acordo Mercosul-UE é a resposta do multilateralismo ao isolamento', diz Lula em artigo
Em texto publicado em 27 jornais europeus e do Mercosul, presidente afirma que parceria cria a maior área de livre comércio do mundo
Subtítulo: Em texto publicado em 27 jornais europeus e do Mercosul, presidente afirma que parceria cria a maior área de livre comércio do mundo e cobra implementação rápida para benefícios chegarem à população
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Acordo de Parceria Mercosul–União Europeia é “a resposta do multilateralismo ao isolamento” em um contexto de avanço do unilateralismo e de barreiras comerciais na economia global. A avaliação está em artigo assinado por Lula e divulgado na sexta-feira (16), na véspera da cerimônia de assinatura do pacto, prevista para este sábado (17), em Assunção, capital do Paraguai.
A informação foi publicada pela Agência Gov, que registrou que o artigo saiu em 27 jornais europeus e do Mercosul e apresentou o acordo como um instrumento de integração entre os dois blocos econômicos, após mais de 25 anos de negociações.
No texto, Lula critica a lógica das disputas comerciais entre potências e associa o acordo a um movimento de defesa do multilateralismo. “Contra a lógica das guerras comerciais que segregam economias, empobrecem nações e aumentam a desigualdade, Mercosul e União Europeia assinam amanhã um dos acordos mais amplos do século XXI”, escreveu.
O presidente também sustenta que o comércio internacional não deve ser visto como uma disputa em que um lado necessariamente perde para o outro. “O acordo cria a maior área de livre comércio do mundo. Não existe economia isolada. O comércio internacional não é um jogo de soma zero. Todos querem crescer, e a nova parceria irá criar oportunidades mútuas de emprego, geração de renda, desenvolvimento sustentável e progresso econômico”, afirmou Lula no artigo.
Segundo a Agência Gov, o acordo integra uma estratégia de ampliação da rede de pactos comerciais do Brasil e do Mercosul. O texto destaca que a parceria amplia o acesso de produtos sul-americanos ao mercado europeu, com a eliminação de tarifas sobre aproximadamente 95% dos bens importados pela União Europeia, em diferentes prazos.
Ao dimensionar o alcance do tratado, Lula afirma que os 31 países envolvidos no acordo somam cerca de 720 milhões de cidadãos e reúnem um PIB conjunto superior a 22 trilhões de dólares. Para o presidente, a parceria deverá ampliar o acesso mútuo a “mercados estratégicos”, com regras “claras, previsíveis e equilibradas”.
O artigo também indica que a harmonização de regras e padrões tende a impulsionar investimentos e cadeias produtivas. “Ao remover barreiras comerciais e estabelecer padrões regulatórios comuns, os investimentos, as exportações e as cadeias produtivas se multiplicarão nos dois lados do Atlântico”, escreveu Lula, ao defender que existe “uma complementaridade comercial robusta” entre as economias da América do Sul e da Europa.
O presidente sustenta ainda que a versão aprovada do acordo contempla salvaguardas sociais e ambientais. No texto, ele afirma que o pacto “resguarda os interesses de setores vulneráveis, garante a proteção ambiental, promove valores compartilhados como a democracia e os direitos humanos, fortalece os direitos dos trabalhadores e preserva o papel do Estado como indutor estratégico do desenvolvimento econômico e social”.
Apesar do tom de celebração, Lula enfatiza que a assinatura não encerra a agenda de disputas e exigências em torno do tratado. “A assinatura, no entanto, constitui só um primeiro passo. Amanhã começa uma nova fase de cobrança para a implementação ágil e transparente do que foi pactuado”, escreveu. Em seguida, ele propõe um critério direto para medir resultados: “O sucesso real do acordo será medido pela velocidade com que os seus benefícios alcançarem as prateleiras dos mercados, o campo, as fábricas e os bolsos dos cidadãos”.
Ao listar os potenciais beneficiados, o presidente menciona que a abertura de mercados pode atingir “inúmeros setores”, da bioeconomia à indústria de alta tecnologia, e alcançar desde pequenos e médios agricultores até empresas de diferentes portes. Ele afirma ainda que consumidores europeus e sul-americanos poderão ter acesso a produtos mais diversificados e com preços menores, enquanto produtores ganhariam novos mercados.
O artigo amplia o sentido político do acordo e o apresenta como resposta ao avanço do extremismo e do protecionismo. Para Lula, a interdependência “é uma necessidade e uma realidade”, e a cooperação entre blocos seria decisiva tanto para a paz quanto para enfrentar os efeitos da mudança do clima. Ele afirma que, em um cenário de crescente unilateralismo, o acordo demonstra que “outra governança mundial é possível, mais ativa, representativa, inclusiva e justa”.
Nesse contexto, Lula relaciona o pacto a uma agenda de fortalecimento de instituições multilaterais, citando a reforma da Organização Mundial do Comércio e do Conselho de Segurança da ONU. Para o presidente, Mercosul e União Europeia demonstram, “na prática”, que o multilateralismo segue “atual e imprescindível”, ao oferecer uma alternativa ao caminho da intimidação e do conflito.


