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Armínio diz que Banco Central demorou a agir no Banco Master

Ex-presidente do BC afirma que sinais de risco eram antigos, cita alertas do FGC e aponta possível interferência política no entorno do caso

Armínio Fraga (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil 247)

247 – O economista Armínio Fraga, que presidiu o Banco Central entre 1999 e 2002, afirmou que as investigações envolvendo o Banco Master indicam atraso da autoridade monetária e falhas na fiscalização. As declarações foram dadas em entrevista à coluna Painel S.A., da Folha de S.Paulo, em meio ao aprofundamento das apurações sobre a instituição e ao debate sobre o papel do BC, da CVM e de outros órgãos no acompanhamento de operações financeiras de maior opacidade.

Com experiência em intervenções bancárias nos primeiros anos do Plano Real — período em que, segundo ele, o BC lidou com casos como Bamerindus e Banestado — Armínio sustenta que o problema não poderia ter surgido de forma repentina. Na sua avaliação, o tamanho do rombo sugere que havia sinais antigos e repetidos, o que exigiria uma resposta mais rápida do supervisor do sistema.

Alertas, “rádio-corredor” e o tamanho do rombo

Ao ser questionado se o BC demorou a atuar, Armínio respondeu de forma direta, apontando que o que veio à tona até agora sustenta essa hipótese.

"O que vem aparecendo sugere que sim, que se atrasou e que houve também algum problema na fiscalização, na atuação do BC como supervisor e fiscalizador do sistema. A hipótese de que ele chegou atrasado na bola é amparada pelo tamanho do buraco. Ninguém constrói um buraco desse tamanho da noite para o dia. E ela é baseada nos repetidos avisos que o próprio FGC [Fundo Garantidor de Créditos] fez e na rádio-corredor do mercado. Estava todo mundo falando disso, não era um assunto novo de jeito nenhum."

A tese de Armínio combina a dimensão temporal do problema com a circulação de alertas. Para ele, o próprio mercado já comentava o caso há muito tempo, e os avisos do FGC reforçariam que não se tratava de um episódio inesperado.

De “gestão temerária” à captação agressiva

Sobre o tipo de falha na atuação do regulador, Armínio diz que ainda é difícil identificar com precisão. Mesmo assim, descreve uma sequência que, na visão dele, deveria ter ligado sinais de alerta na supervisão desde cedo.

"É difícil dizer. Eu vejo a seguinte sequência e com as datas ainda por preencher: surge esse banco com uma gestão que, em algum momento, talvez desde sempre, deveria ser chamada de gestão temerária. O Banco Central tinha que ficar de olho nisso. Trata-se de uma instituição que, aparentemente, logo no início montou uma carteira de ativos de alto risco. A partir de um determinado momento, ficou muito claro que eles tinham também uma estratégia de captação agressiva. E, mais adiante, várias notícias na imprensa mostraram mecanismos de tirar dinheiro do banco, usando fundos e tudo mais. Ali começa então o espaço das fraudes que estão sendo investigadas agora. Mas tenho confiança na capacidade do BC de aprender com o caso, tomar providências e sair maior do que entrou."

Ao relacionar uma carteira de alto risco e uma captação “agressiva” à criação de espaço para possíveis fraudes, Armínio sinaliza que o caso envolve não apenas um erro pontual, mas uma evolução de práticas que teria se acumulado ao longo do tempo.

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