Banco Master inflava receitas com empréstimos sem quitação, diz investigação
Operações de crédito não eram pagas e alimentavam fundos com rentabilidade artificial, reforçando suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro
247 - Investigação conduzida pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal aponta que o Banco Master estruturou operações de crédito que não resultavam em pagamento efetivo de parcelas, mas produziam receitas apenas contábeis. Segundo os investigadores, os empréstimos eram concedidos a empresas que não quitavam juros nem amortizações, enquanto os recursos circulavam por fundos de investimento ligados à gestora Reag, criando a aparência de rentabilidade elevada sem lastro real, relata o jornal O Globo.
Logo após a liberação dos empréstimos, quase a totalidade dos valores era transferida, em questão de minutos, para fundos administrados pela Reag. Posteriormente, o dinheiro retornava ao próprio banco por meio de aplicações financeiras, fechando um circuito que levantou suspeitas de gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais.
Documentos do inquérito mostram que os contratos de crédito tinham prazos de carência sistematicamente prorrogados às vésperas do início previsto para o pagamento. Na prática, conforme registrado pelos investigadores, “não houve efetivo pagamento de juros nem amortizações”, o que reforçou a tese de que as receitas declaradas não correspondiam a entradas reais de recursos.
Para rastrear o caminho do dinheiro, a área de supervisão do Banco Central solicitou ao Banco Master, em julho de 2024, comprovações sobre a capacidade de um dos fundos beneficiados honrar eventuais pedidos de resgate. Também foram exigidos controles sobre o acompanhamento dos projetos que deveriam ser financiados pelos empréstimos e sobre os valores já liberados a cada cliente. Em resposta, o banco afirmou que os esclarecimentos deveriam ser prestados pela Reag, administradora dos fundos.
Esse posicionamento chamou a atenção dos técnicos do Banco Central, que apontaram uma “falta de adequado acompanhamento das operações estruturadas”. Já a Reag informou que os fundos abastecidos com recursos do Master tinham, em sua maioria, ativos vinculados a papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), considerados de baixo valor pelo mercado. A gestora declarou ainda que poderia garantir liquidez mensal de até R$ 1 bilhão para resgates, por meio do fundo Gold Style.
A análise do Banco Central, porém, identificou que o fundo citado não possuía ativos líquidos suficientes para sustentar essa promessa. Para a autoridade monetária, o conjunto de constatações evidenciou o descumprimento de regras legais relacionadas ao gerenciamento de risco de crédito em operações estruturadas.
Um documento do Banco Central enviado ao MPF reforça que as transações entre o Master e a Reag envolveram uma “reavaliação indevida de ativos”, permitindo que fundos de investimento registrassem uma rentabilidade classificada como extraordinária. O caso mais emblemático envolve um empréstimo de R$ 459 milhões concedido à Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, empresa comandada por uma ex-funcionária da Reag.
Segundo a investigação, assim que recebeu os recursos, a Brain Realty transferiu o montante para o Fundo Brain Cash, criado pela Reag apenas 20 dias antes e que tinha patrimônio inicial de R$ 15 mil. Cerca de uma hora e meia depois, R$ 450 milhões foram enviados ao Fundo D Mais, também ligado à gestora e detentor de papéis do Besc em sua carteira. Três minutos após essa operação, o Fundo D Mais repassou o mesmo valor ao FIDC High Tower para liquidar parte da compra desses ativos.
De acordo com os investigadores, o FIDC High Tower reavaliou os papéis de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, o que resultou em uma rentabilidade registrada de 10.502.205% em 2024. Para efeito de comparação, no mesmo período, a principal criptomoeda do mundo teve valorização próxima de 120% em dólar, enquanto o ouro acumulou alta de 61,6% em reais.
A Polícia Federal também apura a suspeita de que, após circularem pelas estruturas administradas pela Reag, os recursos tenham retornado ao Banco Master por meio da compra de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principal instrumento de captação da instituição no mercado. Diante desses indícios, foi deflagrada nesta quarta-feira uma operação para cumprir mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Master, e a João Carlos Mansur, fundador da Reag.
A gestora de recursos também figura entre os alvos da Operação Carbono Oculto, realizada em setembro do ano passado, que investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Pelo menos três fundos administrados pela Reag — Hans 95, Reag Growth e Anna FIC — que mantiveram relações com o Banco Master aparecem na lista de investigados, sob suspeita de realizarem repasses financeiros em alta velocidade.
Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro contestou as conclusões da investigação. Em nota, afirmou que as alegações “não correspondem aos fatos” e declarou que “o Banco Master era submetido a auditorias independentes, supervisão permanente e a rotinas de fiscalização contínua”. O comunicado acrescenta que a defesa segue colaborando com as autoridades e confia que o avanço das apurações afastará premissas “sem sustentação técnica ou documental”. A Reag, por sua vez, não respondeu aos questionamentos, mas tem negado irregularidades e sustenta que qualquer associação ilícita “não consta de nenhum documento oficial, denúncia ou manifestação das autoridades competentes”.


