Brasil busca protagonismo industrial verde na Feira de Hannover
Como país parceiro oficial da maior feira de inovação do mundo, Brasil aposta em energias renováveis, eletromobilidade e indústria conectada
247 – O Brasil chega à Feira de Hannover de 2026, na Alemanha, com a ambição de se apresentar ao mundo não apenas como potência agrícola, mas como ator relevante da indústria do futuro, ancorada em energias renováveis, mobilidade elétrica e inovação tecnológica. Segundo reportagem da Deutsche Welle, o país é um dos principais destaques da Hannover Messe neste ano e ocupa a posição de parceiro oficial do evento, realizado entre 20 e 24 de abril.
A estratégia brasileira é clara: transformar a vitrine da maior feira de inovação industrial do planeta em plataforma para reforçar sua imagem como referência em indústria verde, conectada e preparada para os desafios da transição energética global. A presença do país ocorre em meio a um cenário internacional marcado por instabilidade geopolítica, insegurança energética e desaceleração econômica, fatores que tornam ainda mais relevante a tentativa brasileira de se posicionar como alternativa segura e competitiva.
Brasil quer ampliar sua imagem como potência industrial
Ao participar da feira com mais de 300 empresas, apoiadas pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil), o Brasil busca mostrar musculatura em setores considerados estratégicos para a nova economia global.
A representante da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Patricia Gomes, resumiu essa intenção em declaração à DW: "Queremos mostrar que o país não é só uma potência agrícola, mas também um player global para a técnica industrial".
A fala sintetiza uma mudança de narrativa que o Brasil tenta consolidar no exterior. Em vez de ser visto apenas como fornecedor de commodities e produtos primários, o país procura afirmar sua capacidade de desenvolver tecnologia industrial, ampliar sua base fabril e ocupar espaço nas cadeias globais ligadas à descarbonização da economia.
Segundo Patricia Gomes, a proposta brasileira é destacar o país como exemplo internacional de uma indústria sustentável e moderna, apta a combinar competitividade com responsabilidade ambiental. Essa mensagem ganha força justamente num evento que reúne cerca de 4 mil empresas de 60 países, incluindo gigantes como Amazon Web Services, Bosch, Siemens, SAP, Microsoft, Huawei e Accenture.
Eletromobilidade e energia estão no centro da aposta
Um dos principais trunfos levados pelo Brasil à Hannover Messe é sua evolução no campo da eletromobilidade. O país já é apontado como referência latino-americana tanto no avanço dos veículos elétricos quanto na expansão da infraestrutura de recarga inteligente.
De acordo com os dados citados pela reportagem, o Brasil encerrou 2025 com 224 mil veículos elétricos registrados, número que representa crescimento de cerca de 40% em relação ao ano anterior. O dado reforça a percepção de que o mercado brasileiro vem se consolidando como um polo promissor para investimentos em mobilidade limpa.
Essa aposta dialoga diretamente com um dos eixos centrais da Feira de Hannover em 2026: a busca por eficiência energética e por novas tecnologias voltadas ao setor de energia. Em um mundo impactado por conflitos, instabilidades logísticas e pressões sobre o abastecimento, o tema da segurança energética passou a ocupar o centro das decisões de governos e empresas.
A porta-voz da feira, Onuora Ogbukagu, explicou à DW a centralidade desse debate ao afirmar: "Diante da situação geopolítica atual, as discussões sobre fornecimento, resiliência de infraestrutura e soluções alternativas de energia tornaram-se ainda mais relevantes". Segundo ela, a segurança energética tornou-se definitivamente uma prioridade global.
Acordo Mercosul-União Europeia entra no radar da indústria
Outro fator que amplia a importância da presença brasileira na feira é a entrada em vigor, em 1º de maio, do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia. A expectativa é de que o novo marco impulsione especialmente o setor de máquinas e equipamentos, uma das áreas mais diretamente ligadas à Hannover Messe.
A representante da Associação Alemã da Indústria de Máquinas e Equipamentos (VDMA), Yvonne Heidler, afirmou à DW: "Esperamos que o setor de máquinas e equipamentos seja um dos principais beneficiados pelo acordo".
Segundo ela, as exportações alemãs de máquinas para os quatro países do Mercosul podem saltar dos atuais 3,5 bilhões de euros para até 5 bilhões de euros até 2040. Esse cenário sugere que a integração comercial poderá ampliar o intercâmbio industrial, facilitar investimentos e acelerar parcerias tecnológicas entre empresas europeias e sul-americanas.
Para o Brasil, esse novo contexto pode representar uma oportunidade dupla: de um lado, atrair mais investimentos e tecnologia; de outro, ampliar a inserção de sua indústria em mercados mais sofisticados, num momento em que a reindustrialização e a transição ecológica ganham peso crescente no debate econômico global.
Cenário internacional adverso pressiona expectativas
As perspectivas positivas em torno da participação brasileira e da possível dinamização do comércio com a Europa, no entanto, convivem com um ambiente internacional carregado de incertezas.
Segundo pesquisa do Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de Munique (Ifo), mencionada pela DW, 78,6% das empresas na Alemanha relataram em março dificuldades para avaliar a evolução futura de seus negócios. O dado mostra o grau de cautela que domina o ambiente econômico europeu.
Klaus Wohlrabe, responsável pelos estudos do instituto, afirmou que a guerra no Irã elevou de maneira perceptível a insegurança na economia alemã. A incerteza é ainda maior na indústria, onde o índice chega a 87,7%, de acordo com o Ifo. O quadro reflete não apenas o impacto direto do conflito, mas também os efeitos combinados da crise global de preços e das tensões no mercado de energia.
Esse ambiente tem reduzido projeções de crescimento em várias regiões do mundo. Entre as cinco maiores economias globais — Estados Unidos, China, Alemanha, Japão e Índia — apenas a Índia registrou expansão superior a 6%, enquanto a China cresceu acima de 4%, mas já em ritmo menor do que no ano anterior.
Brasil cresce menos, mas mantém margem de proteção
O Brasil também não figura entre as economias de crescimento mais acelerado. Segundo o Banco Central, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve avançar apenas 1,6% em 2026, após crescimento de 2,3% no ano passado.
Ainda assim, há sinais de resiliência. Nesta semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para cima a previsão para a economia brasileira em 2026, elevando a projeção de 1,6% para 1,9%. A avaliação do organismo internacional é que o país dispõe de condições para amortecer parte dos efeitos da crise internacional, sobretudo por causa de suas reservas internacionais e de sua posição como grande exportador de energia.
Essa combinação de moderação no crescimento com relativa capacidade de proteção ajuda a explicar por que o Brasil tenta aproveitar a Hannover Messe para reforçar sua imagem de parceiro confiável em setores ligados à transição energética e à indústria de base tecnológica.
Empresas transformam a presença brasileira em vitrine concreta
A participação do Brasil na feira não se resume ao discurso institucional. Ela também se materializa no desempenho de empresas que se beneficiam diretamente do avanço da eletromobilidade e da infraestrutura de energia.
Entre os exemplos citados pela reportagem estão as alemãs Harting, especializada em soluções de conectividade e equipamentos de recarga, e SEW Eurodrive, líder mundial em tecnologia de acionamentos, além da brasileira WEG, que atua tanto na fabricação de motores elétricos quanto em sistemas de recarga. As três participam da Feira de Hannover, reforçando o elo entre inovação industrial e transformação energética.
Outro caso de destaque é o da ROMI, maior fabricante brasileira de máquinas-ferramenta. A empresa registrou crescimento de cerca de 8% e consolidou uma presença relevante na Alemanha. Das 13 unidades de produção do grupo, duas já operam em território alemão.
A inserção internacional da companhia ganhou novo peso em 2012, quando a ROMI adquiriu a alemã Burkhardt+Weber, sediada em Reutlingen. A operação passou a simbolizar uma via de mão dupla: não apenas a exportação de produtos brasileiros, mas a capacidade de empresas do país se integrarem de maneira mais estruturada ao coração industrial europeu.
O presidente da ROMI, Luiz Cassiano Rosolen, resumiu esse movimento com ironia e orgulho ao declarar à DW: "Tenho certeza de que os colegas na Alemanha gostam da ideia de serem um pouco brasileiros".
Em seguida, reforçou a importância da empresa alemã no grupo ao afirmar que, na sede brasileira, há orgulho de ter sob o guarda-chuva da companhia aquilo que ele definiu como o "Porsche entre os fabricantes de máquinas".
Lula participa da abertura ao lado do chanceler alemão
A abertura da Hannover Messe contará com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz. A participação conjunta dos dois chefes de governo dá peso político à presença brasileira e amplia o alcance diplomático do evento.
Lula e Merz já haviam se encontrado anteriormente durante a COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025. Na ocasião, a passagem do líder alemão pela capital paraense foi breve, e uma declaração posterior sobre sua satisfação em retornar à Alemanha causou desconforto diplomático. O episódio, contudo, foi minimizado posteriormente por ambos.
Agora, a presença dos dois na abertura da feira aponta para um esforço de reposicionamento das relações bilaterais num momento em que o Brasil tenta combinar política externa ativa, fortalecimento industrial e inserção estratégica em temas centrais da agenda global.
Feira de Hannover vira palco de uma disputa por relevância
A edição de 2026 da Hannover Messe expõe algo maior do que a simples participação de empresas e governos em uma grande vitrine internacional. O que está em jogo é a disputa por protagonismo na reorganização industrial do mundo.
Ao se apresentar como parceiro oficial da maior feira de inovação do planeta, o Brasil tenta mostrar que pode ocupar um papel mais ambicioso na economia internacional. A aposta em energia limpa, mobilidade elétrica, conectividade industrial e capacidade produtiva integrada a mercados estratégicos faz parte dessa construção.
Em meio a guerras, incerteza econômica e competição tecnológica cada vez mais intensa, o recado brasileiro é o de que o país quer ser visto não apenas como fornecedor de recursos naturais, mas como protagonista de uma nova fase industrial. A Hannover Messe, neste contexto, transforma-se em vitrine, teste e oportunidade para essa ambição.


