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Brasil desperdiça energia renovável e enfrenta paradoxo, diz Jean Paul Prates

Ex-presidente da Petrobras avalia que sistema interligado não acompanha avanço da geração distribuída

Jean Paul Prates e energia eólica offshore (Foto: Divulgação)

247 - O avanço da energia renovável no Brasil tem revelado um cenário contraditório: parte significativa da eletricidade gerada por fontes limpas deixa de ser aproveitada. O fenômeno ocorre em meio ao crescimento acelerado da energia solar e eólica, que passou a gerar excesso de oferta e riscos à estabilidade do sistema elétrico.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates explicou que, em 2025, o país deixou de utilizar cerca de 20% da energia proveniente dessas fontes. Segundo ele, o problema está relacionado ao descompasso entre expansão da geração e capacidade de absorção da rede.

Excesso de energia e cortes na produção

O mecanismo adotado para evitar falhas no sistema é o chamado “curtailment”, que consiste na interrupção parcial da geração. A medida é necessária para impedir apagões quando há sobrecarga.

“Muita gente devolve energia através da distribuidora para o sistema. E isso gera esse estouro de oferta durante períodos do dia, justamente no período do pico do sol, entre normalmente dez horas da manhã e quatro da tarde”, afirmou Prates.

Ele detalha que, diante da impossibilidade de controlar milhares de pequenos geradores, o sistema aciona grandes usinas para reduzir a produção. “Ele liga para o mais fácil, ele liga para o gerador grande e diz: ‘amigão, desliga a sua planta eólica, desliga a sua planta solar agora, porque você está estourando aqui a oferta de energia no sistema’”, disse.

Geração distribuída pressiona sistema

O crescimento da geração distribuída, como painéis solares instalados em residências, é apontado como um dos fatores centrais. Segundo o especialista, esses sistemas já ultrapassam 44 gigawatts de capacidade instalada no país.

Apesar de reduzirem o consumo direto da rede, eles também devolvem energia excedente, o que aumenta a oferta total em momentos de pico. Esse volume adicional não foi plenamente considerado no planejamento energético.

Impacto econômico e revisão de subsídios

Os cortes na produção afetam diretamente a viabilidade de projetos. Em alguns casos, até 80% da geração de uma usina pode ser interrompida. “Ele tem um corte ali de expectativa no fluxo de caixa do projeto que torna o projeto ao longo do tempo inviável, impagável”, afirmou Prates.

O modelo de incentivos também é alvo de críticas. Segundo ele, consumidores que não possuem sistemas próprios acabam arcando com parte dos custos. “Uma das categorias que está realmente pagando a conta de cara é o consumidor que não tem geração distribuída”, disse.

Falta de armazenamento agrava cenário

Entre as soluções, o especialista destaca a necessidade de investir em baterias e modernizar a rede elétrica. No entanto, ele criticou a demora em políticas públicas voltadas ao armazenamento de energia.

“O Ministério de Minas e Energia [...] adiou os leilões de baterias, alegando problemas de terminologia e de definição regulatória”, afirmou.

Ao mesmo tempo, ele observa a ampliação de fontes não renováveis. “O fato é que o governo fez vários leilões para colocar em marcha termoelétricas a gás natural, termoelétricas a carvão de novo”, disse.

Nordeste pode liderar nova fase industrial

O potencial de energia limpa no Nordeste é visto como oportunidade estratégica. Segundo Prates, a região pode atrair indústrias em busca de energia barata e abundante.

“Em menos de dez anos você vai conhecer um movimento migratório, corporativo, industrial para a nossa região”, afirmou. Ele também menciona o desenvolvimento de uma “siderúrgica verde de verdade, eletrificada, sem combustão alguma”.

Eletrificação e transporte público

A eletrificação é apontada como caminho para ampliar os benefícios sociais da transição energética. Segundo o ex-presidente da Petrobras, o país pode avançar até a gratuidade no transporte público.

“É possível [...] prover ao cidadão brasileiro, em menos também de 40 anos, tarifa zero em transporte público para todo o Brasil”, afirmou.

Críticas ao modelo de transição energética

Prates também questiona a ênfase em biocombustíveis. Para ele, essas fontes são apenas parte do processo.

“Biocombustíveis não é a etapa final da transição energética, ele é parte disso”, afirmou.

Ele reforça que o futuro está na eletrificação. “O combustível de futuro é eletromobilidade, é eletricidade, óbvio. Não é à toa que a China pulou essa etapa”, disse.

Petrobras e expansão internacional

No cenário internacional, Prates defende a ampliação das parcerias da Petrobras, especialmente diante da alta dos preços do petróleo.

Ele citou a cooperação com o México na exploração do golfo do México. “A Petrobras [...] pode de fato contribuir para o México, pode descobrir coisas importantes para o Brasil e pode desenvolver uma parceria interessante”, afirmou.

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