Brasil supera os EUA e se torna maior produtor de carne bovina
Avanços em produtividade, confinamento e genética impulsionam o país e mudam o equilíbrio do mercado mundial de carne
247 - O Brasil alcançou uma posição inédita no mercado global de proteínas animais ao ultrapassar os Estados Unidos como o maior produtor mundial de carne bovina. Estimativas de mercado indicam que o desempenho brasileiro em 2025 superou as projeções iniciais em centenas de milhares de toneladas, contribuindo para aliviar a oferta global e conter pressões mais intensas sobre os preços internacionais da carne. As informações são da Folha de São Paulo.
O país já ocupava a liderança nas exportações do setor. Dados oficiais do governo mostram que os embarques brasileiros de carne bovina alcançaram quase US$ 17 bilhões em 2025, consolidando o Brasil como principal fornecedor global, mesmo antes da divulgação oficial dos números finais de produção, prevista apenas para fevereiro.
O avanço brasileiro ocorre em um contexto de forte demanda externa, especialmente de mercados como China e Estados Unidos, onde a oferta restrita elevou os preços a patamares recordes. Diante desse cenário, produtores nacionais intensificaram o envio de animais para abate. Tradicionalmente, ciclos de abate elevados levam a períodos posteriores de retração produtiva, mas especialistas avaliam que ganhos estruturais no Brasil podem evitar esse movimento.
Um dos fatores centrais é a aceleração da produtividade nas fazendas. Técnicas mais eficientes de inseminação, engorda intensiva e redução da idade de abate vêm transformando o sistema produtivo. “Há dez anos, a idade média do gado abatido no Brasil era de cinco anos. Agora é de 36 meses e está indo rapidamente para 24 [meses]”, afirmou Vinicius Barbosa, gerente comercial responsável por dezenas de milhares de cabeças de gado no confinamento da CMA, em Barretos, no interior de São Paulo.
Segundo Mauricio Nogueira, diretor da consultoria pecuária Athenagro, a produção brasileira em 2025 cresceu 4%, contrariando sua projeção inicial de queda de 2,7%. O aumento, estimado em cerca de 800 mil toneladas, equivale aproximadamente a todo o volume exportado anualmente pela Argentina, o quinto maior exportador mundial de carne bovina. O Rabobank, que previa retração, passou a projetar crescimento de 0,5%, elevando a produção brasileira para 12,5 milhões de toneladas em peso equivalente em carcaça.
Revisões semelhantes foram feitas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que em dezembro ampliou sua estimativa para a produção brasileira em 450 mil toneladas, alcançando 12,35 milhões. Caso os números de mercado se confirmem, 2025 marcará o primeiro ano em que o Brasil superará os Estados Unidos, cuja produção recuou 3,9%, para 11,8 milhões de toneladas, após sucessivos anos de seca.
Enquanto o USDA projeta nova queda da produção norte-americana em 2026, para 11,7 milhões de toneladas, o debate no Brasil gira em torno da capacidade de sustentar ou até ampliar o volume produzido. Nogueira avalia que os ganhos de eficiência podem adicionar cerca de 300 mil toneladas extras à produção nacional, mesmo diante de previsões oficiais mais conservadoras.
O crescimento do confinamento é outro vetor relevante. De acordo com a Scot Consultoria, quase 28% do gado abatido no Brasil será engordado em confinamento até 2027, ante 22% em 2025. “O confinamento faz em 100 dias o que levaria 18 a 24 meses a pasto”, explicou Barbosa, ao destacar que a unidade da CMA em Barretos deve processar 80 mil bovinos em 2026, acima dos 65 mil do ano anterior.
A expansão do etanol de milho também tem impacto direto na pecuária. O setor gera grãos secos de destilaria, um subproduto com maior teor proteico que acelera a engorda dos animais. Paralelamente, a adoção de técnicas reprodutivas mais eficientes vem elevando a taxa de prenhez. A Scot Consultoria projeta que esse índice alcance 54% em 2027, frente aos 50% esperados para 2026.
Analistas ressaltam ainda o papel do aprimoramento genético, que contribui para maior ganho de peso e melhora da qualidade da carne. Apesar dos avanços, o Brasil ainda está distante de padrões observados em outros países: cerca de 90% do gado passa por confinamento nos Estados Unidos, enquanto na Austrália o índice é de 40%.
Com um rebanho estimado em 238 milhões de cabeças, mais que o dobro dos 94 milhões dos Estados Unidos, o Brasil tem espaço para expandir a produção sem necessidade de ampliar áreas de pastagem. Esse fator é visto como estratégico para reduzir pressões econômicas associadas ao desmatamento. Projeções da Abiec indicam que, entre 2024 e 2034, o rebanho brasileiro deve crescer apenas 4%, enquanto a produção de carne pode avançar 24%.
No cenário internacional, a capacidade brasileira de manter sua produção será determinante para os preços globais. O USDA prevê que, em 2026, a produção combinada dos seis maiores produtores —Brasil, Estados Unidos, China, União Europeia, Argentina e Austrália— caia 2,4%, a maior retração anual em décadas. Caso as estimativas mais otimistas para o Brasil se confirmem, essa queda poderia ser quase neutralizada.
A demanda internacional segue aquecida. “Nunca houve tanta demanda internacional por carne bovina brasileira”, afirmou Guilherme Jank, analista da Datagro. Segundo ele, frigoríficos ampliaram a capacidade produtiva para atender ao mercado. “Estamos testemunhando em primeira mão uma mudança significativa na forma como o sistema de fornecimento de carne bovina funciona no Brasil, em termos de qualidade, escala, eficiência e produtividade”, disse.



